Voltando ao jogo

Andei tendo uma daquelas crises blogueiras-existenciais.  Parei de escrever um tempo para pensar as razões pelas quais escrever um blog vale a pena. Você precisa ter um público. E pensar nele. Ninguem escreve para si mesmo, escreve? Ainda mais quando digita palavras na internet. Não faz sentido falar sozinho.

 Acompanhei os números de visitas por aqui, e é engraçado perceber que as polêmicas políticas locais são de longe a maior audiência do que fiz blogando. Sei as razões disso. Ninguem lê minhas opiniões políticas como se fossem frutos da análise de um sociólogo atento… Fatalmente, o diagnóstico que Antonio Candido fazia da situação sem saída do intelectual que resolve falar de seu próprio universo de maneira crítica se desdobra em minha situação: na política, sendo filho de um personagem central, opinar para mim é ser das duas uma; se concordo, meu argumento é visto como mera continuação extensiva das opiniões de meu pai, ou, caso contrário, se discordo, até o filho discorda, dando efeito de lupa ao ato de discordar. A medida é sempre desequilibrada para bem e para mal.

 Não tenho verve de polemista político. Se a tivesse, teria encarado algumas com certos jornalistas que, tendo sempre a palavra de alguém por trás da deles, não conseguem ver autonomia na opinião alheia. É triste. Imaginem o que é dialogar com gente assim.  Os argumentos estão lá, são consistentes, mas eles não importam. Afinal, eles nunca são seus.

A saída  para esse aparente paradoxo(que é desdobrado por parte da imprensa) é não fugir dele. O dilema aqui é encontrar o bom tom e exercer com caráter o propósito de analista, de cidadão interessado na vida pública de sua cidade, de seu estado, de seu país. Aos que pregam que a minha filiação seria necessariamente impeditiva da minha vocação política, afirmando que no meu caso isso  seria fruto do sempre temeroso filhotismo - esse traço tão característico quanto nefasto de nossa cultura política -respondo o seguinte: do capital político de meu pai (o qual admiro por compartilhar os valores que norteiam sua prática política e visão de sociedade), herdei apenas o que aprendi como sendo reconhecidamente suas qualidades como político vindo das bases sociais: sua visão e compromisso com a luta pela justiça social.  E a crítica fruto da análise sociológica do mundo é um elemento do qual disponho e não posso abrir mão nessa batalha.

Resumindo: esse texto é apenas mais uma avaliação sobre o direcionamento recente do blog que além das crônicas e análises sociológicas de ocasião agora traz a análise da política local como foco dos textos.

É um alô. Uma volta lenta, gradual e segura ao mundo da blogagem.

Daniel Coelho: nota sobre seu mérito político

É preciso reconhecer algo a respeito da cena política pernambucana: a luta solitária de Daniel Coelho para continuar sendo oposição merece nota de muito respeito. Na minha opinião, não resta dúvida:  Daniel Coleho é o elemento mais novo surgido na politica de Pernambuco. E isso não é pouco, para quem tanto ouviu falar em renovação de meia boca. A voz isolada dele é uma aguda alfinetada: num estado de conformismo e coronelismo, onde todos deputados querem ser do governo, o cara luta para firmar posição. Tiro meu chapéu.

 O problema que o deputado tem enfrentado é revelador de um estado de coisas: os partidos políticos em pernambuco tornam-se partidos de verdade quando se trata de proteger, parece piada, a flexibilidade vexatória de seu adesismo governista. A reação do PV   é absurda. Nós que acompanhamos a campanha eleitoral de 2010, e vimos o comportamento de Daniel Coelho, percebemos a coerência de seus posiconamentos. É um partido que se volta contra sua própria dignidade. Sou filiado a outro partido, opino aqui sobre a questão da tomada de posição política, elemento central da prática do metier de político. Quando meus amigos me perguntavam o que é que eu tinha contra Marina Silva, eu baixava a cabeça, meio triste, porque tinha respeito pela candidata, e silenciava pensando nesse tipo de coisas. O jovem deputado vem sofrendo por querer ser um político de posição,  algo que merece muito mérito num contexto político como o nosso.  Resta saber se terá força nas pernas para se manter de pé com a dignidade que vem mostrando até aqui. Do lado de cá, pensando numa frase geralmente atribuída a Voltaire, diria que discordo basicamente das posições políticas dele, mas lutaria até o fim pelo direito dele de poder defendê-las. Encontro aí razão suficiente para minha nota.

Comentário sobre a “verdadeira” oposição

O cenário político pernambucano é lastimável. E a verdadeira medida disso está na péssima qualidade da oposição. Pode-se medir isso que digo pela tentativa de tirar proveito das querelas internas do PT, feita pelo deputado Raul Junlgmann, do PPS, ver aqui. Falta foco político. O que vale para esquerda, se perder o prumo, vale mais ainda para direita. Junlgmann menospreza a inteligência das pessoas ao insinuar que tudo na política é e deve ser transparente e que os oponentes tem que tonar pública a razão de ser de suas disputas. Esquece que o povo sabe que na política existe o “jogo político” e que nem tudo é dito, por questões de estratégia de manutenção de poder, ou de sua conquista. Eis uma posição vazia de significado político porque todos sabem que se tudo estivesse à mostra,  não existiria a necessidade do fazer política. Em outras palavras, se ele mesmo não inventar um Wikileaks dos bastidores da política, esse tipo de reação não causará efeito algum.  Só expõe, como bem disse de outra forma Marisa Gibson, a lentidão da oposição para se arrumar diante de uma conjuntura na qual, segundo a colunista, não há espaço para palanques separados.

Nota de Esclarecimento

Veja, na íntegra, a nota de esclarecimento do ex-prefeito e deputado federal, João Paulo, sobre as últimas declarações do atual prefeito relacionadas às finanças da Prefeitura do Recife.

Nota de Esclarecimento

Ciente das suas responsabilidades perante a população, a administração dos recursos públicos e em defesa do aprovado trabalho realizado nos oitos anos em que esteve à frente do executivo municipal. E ainda conforme os Balanços Contábil e Financeiro Consolidado da Prefeitura do Recife do ano de 2008, assinados pelo atual prefeito, em 9 de fevereiro de 2009, e publicados no Diario Oficial do município, o ex-prefeito do Recife e deputado federal, João Paulo (PT), considera oportuno esclarecer:   

1 – O saldo financeiro em caixa em 2008 para o ano seguinte foi de R$ 233.423.716,39 e não de R$ 10 milhões, como disse o atual prefeito em entrevista ao jornal Folha de Pernambuco, na edição deste domingo (16).

2 – No Relatório de Gestão Fiscal  de 2008,  o demonstrativo dos  Restos a Pagar correspondeu a R$ 78.554. 679,17 e não R$ 110 milhões, como também afirmou o atual prefeito.

3 – No final de 2008, a Prefeitura do Recife não só  cumpriu com todos os indicadores da Lei de Responsabilidade Fiscal como manteve atualizadas as Certidões Negativas, o que  viabilizou o recebimento dos recursos previstos no PAC Federal,  da ordem de R$ 1 bilhão, que deverão ser executados pela atual gestão.   

4 – Para dar continuidade às obras do Parque Dona Lindu e de outros equipamentos, havia, no orçamento 2009, recursos da ordem de R$ 58.977.000,00, disponíveis por meio do Programa Requalificação de Espaços de Interesse Público.

 5 – Todas essas informações estão disponíveis no site oficial da Prefeitura do Recife, no item contas públicas:   www.recife.pe.gov.br

O ex-prefeito João Paulo ressalta que “por todo esse trabalho, que teve como diretriz central o cuidado com as pessoas, a sua administração conquistou 88% de aprovação da população e foi possível fazer o sucessor no primeiro turno, apresentando o melhor resultado do Partido dos Trabalhadores entre as capitais no Brasil”.

Recife, 17/01/2011

Atenciosamente,

Assessoria de Imprensa do Deputado Federal João Paulo.

Reflexões sociológico pessoais sobre o intelectual e o político

 No dia 4 de dezembro de 2010 li uma interessante entrevista feita por Idelber com o professor Carlos Eduardo Rebello sobre a vida de Leon Trotski. Vou partir dela neste post para pensar um pouco sobre as relações tensas existentes entre o intelectual e o político. Acho que  pude eu mesmo vivenciar brevemente algumas dessas tensões nas características que tentarei descrever aqui.

 Um dos pontos mais interessantes da entrevista para mim discorreu sobre a relação entre a qualidade intelectual de Trotski e sua fragilidade na ação política concreta. Logo na primeira pergunta Idelber indagou o seguinte:

 

Quem leu León Trotski, mesmo em tradução, não costuma discordar: entre as figuras políticas do marxismo do século XX, foi o maior escritor e o mais poderoso no manejo da retórica. Ao mesmo tempo, foi o mais inapelavelmente derrotado na política na última década e meia da vida. Fale um pouco, por favor, dessas e de outras singularidades de Trotski. 

 

A resposta do professor Rebello foi muito instrutiva:

 

“Acredito que o paradoxo maior da carreira de Trotski está nele ter sido, na definição gramsciana da palavra, acima de tudo um intelectual, alguém que a partir de determinadas premissas, foi capaz de desdobrar sua concepção de mundo até as suas últimas conseqüências lógicas. No entanto, havia um lado do intelectual Trotski que nada tinha de gramsciano: sua indiferença freqüente ao seu papel “orgânico”, prático, de adequar esta visão geral de mundo às tarefas concretas do momento. Exatamente por isso, o ponto de inflexão da carreira política de Trotski esteve na sua relação com Lenin que, por mais que fosse um escritor pedestre e até mesmo um filósofo “vulgar”, no dizer de Zizek, foi capaz precisamente daquilo que Trotski sempre teve a maior dificuldade: adequar as suas posições políticas às tarefas práticas do momento. Trotski, mais de uma década antes de Lenin, já havia intuído o caráter socialista da Revolução Russa, ao qual Lenin só aderiu em 1917, no discurso da Estação Finlândia; mas o mérito de Lenin foi o de só sustentar esta posição publicamente quando percebeu a possibilidade de formar um consenso em torno dela. Trotski só foi capaz de funcionar como político prático enquanto em associação com Lenin. Quando Lenin esteve hostil – antes de 1917 – assim como depois da sua morte, Trotski exerceu um papel importante como visionário, como alguém capaz de perceber desenvolvimentos futuros, mas ao preço de sua incapacidade de agir de forma efetiva no momento presente.” (Meus itálicos)

O lastro sociológico que explica o paradoxo pode ser medido, na resposta, pela distância concreta existente entre o ideal abstrato contido na ideia gramsciana de intelectual orgânico e a sua possibilidade concreta de efetivação no mundo moderno, por Leon Trotski. Em outras palavras a distância real existente entre um homem que, como Trotski era capaz de “desdobrar sua concepção de mundo até as suas últimas conseqüências lógicas” e um homem que, como Lenin, era capaz de “adequar as suas posições políticas às tarefas práticas do momento.” Em que sentido é socialmente observável a incompatibilidade entre a precisão intelectual e o desempenho da ação política? 

Problematizando ainda de outra forma: pode um intelectual manter a integridade de seu ofício ao mesmo tempo em que desempenha um papel político importante? Ou ainda em outras palavras, pode ele, nesse mundo no qual o processo de especialização e de interdependência dele decorrente, detectado de diferentes maneiras pelas mentes mais poderosas que deram chão às ciências sociais ( Weber, Marx e Durkheim), pode o intelectual nesse mundo de imensa demanda de investimento temporal para a excelência nas diversas áreas de atuação na vida social, associar de maneira satisfatória atividades com características sociais tão dissonantes? A resposta baseada no exemplo histórico de Trotski mostra a dificuldade e complexidade do problema. Enquanto estava próximo de Lenin, foi uma coisa. Distante dele, outra.

Em uma sociologia atenta às lógicas práticas de construção do pensamento e da atividade política, o desmembramento das duas atividades parece impulsionar uma incompatibilidade histórica e prática intransponível entre as duas práticas: o tempo da experiência consequente do pensar a política (no modus operandi acadêmico) e o tempo da experiência concreta da vida política não são ajustáveis, visto que as exigências e os critérios de “qualidade” e “sucesso” de uma e outra atividades parecem ser excludentes entre si, principalmente no que diz respeito a temporalidade em que cada atividade se conduz.

De um lado, tem-se a urgência do cotidiano político, com sua atualização quase que imediata e continua. Urgência constante que  produz uma excelência baseada em critérios específicos atrelados ao próprio dia a dia da política, como é a capacidade de respostas instantâneas às novas situações de várias ordens. De outro lado, vemos o labor da resposta intelectual e sua demanda por uma temporalidade refletida(modus operandi atrelado à lógica formal), o tempo para reflexão ( é o tempo de descrições, análises, interpretações), que dão à avaliação intelectualizada seu mérito específico que nos diz  reipeito à clareza, à inteligibilidade, etc.  Ora, com essas características vamos encontrar quase sempre, daquele primeiro lado, a reação: olha… “as urgências aqui são outras”. 

Apesar disso, não deixa de ser interessante perceber que essas contradições encontram exemplos históricos de tensão onde os extremos dessas polaridades práticas (temporalmente incompatíveis) se encontram e tentam se ajustar de maneira mais ou menos convincente. Alguns casos que me vêm à cabeça no Brasil, como o de Florestan Fernandes em seu mandato parlamentar na década de 80, ou ainda, o exemplo do próprio Fernando Henrique Cardoso, com o famoso “esqueçam o que escrevi” são emblemáticos dessa tênue contradição. Na França, acompanhei de perto um caso muito interessante que foi o do engajamento político de Pierre Bourdieu no final de sua vida. Lendo a despedida de Jean-Claude Passeron depois da morte de Bourdieu tomei melhor consciência das implicações concretas e dos ricos que se corre ao topar a politização do intelecto ou, como do contrário, a intelectualização da política. Nos dois extremos, a derrota das partes parece estar garantida. Vale a leitura!

Vejo o seguinte, porém, nesses casos concretos, apesar de não existir uma conformação lógica das experiências de cada um (nenhum dos exemplos citados é extensível aos outros): pode-se observar os atritos gerados pelas expectativas solicitadas pelas “demandas específicas” de cada atividade, e delas solicitar lições. E é justamente isso que julgo intrigante e interessante como analista.

Na minha breve incursão na vida política local, sendo sociólogo de formação e querendo contribuir na construção de um projeto político para o PT de Pernambuco (que a meu entender precisa de renovação não só nos quadros, mas programática) percebi que essas tensões apareceram em muitas ocasiões. A meu ver, a incompatibilidade atinge de maneira mais forte aos que não percebem que os ajustes entre as demandas específicas de cada atividade devem ser feitos por quem muda de registro(do acadêmico para o político, por exemplo), mas que não há necessariamente incompatibilidade entre a inteligência intelectual (operacionalizada no debate político) e a atividade política propriamente dita (matizada pelo trabalho intelectual anterior, mas alterando-se seu objeto central que não mais pode ser o procedimento reflexivo nos moldes acadêmicos de antes). Essa transição não é fácil de ser feita e demanda uma certa conversão consentida, não só da parte de quem se propõe a tal mudança. No exemplo de Florestan Fernandes essa passagem se dá aparentemente pelo descrédito e a desilusão do autor de A revolução burguesa no Brasil com o que ele chamava de burocratização das universidades brasileiras (ver Freitag, aqui). Na sua vida de parlamentar, seu capital acadêmico se converteu em certa medida em político, sem necessariamente se dissolver completamente. O reconhecimento coletivo de seu mérito intelectual converteu seu mérito acadêmico em moeda política, isso, porém, ao custo da desilusão pessoal de Florestan em relação à universidade brasileira. São coisas que digo, claro, que precisariam de mais embasamento histórico da trajetória parlamentar do próprio Florestan. Mas considerando o que a Freitag diz a esse respeito:

Em sua terceira fase de produção (já como membro do PT e da Câmara) Fernandes nunca mais voltaria a trabalhar numa instituição de ensino superior. Em conversas e cartas exprimia seu desprezo pela burocratização da universidade e pelo carreirismo egocêntrico da maioria dos professores e pesquisadores, que repassavam essas atitudes às novas gerações de universitários. Os anos em que acreditara poder mudar a sociedade brasileira a partir de um conhecimento científico profundo da realidade com auxílio da ciência, da educação e do planejamento (categorias emprestadas à Mannheim) estavam perdidos para sempre. 

E  palavras como a do próprio Florestan sobre sua atividade parlamentar:

[Na Câmara] pude ver como atuam as elites econômicas, as elites culturais e as elites jurídicas, as elites militares, deputados e senadores predominantemente escolhidos dentro desses setores. Então pude conhecer melhor a sociedade brasileira, principalmente os processos pelos quais a concentração do poder, a concentração da riqueza e da cultura são mantidos de uma maneira ferrenha [...]  

Poderíamos nos perguntar: como sociólogo, não teria ele visto já essas coisas? Mas de que forma pôde ele ver como parlamentar? São esses ajustes “desteorizantes”  que estão em questão e que operam, a meu ver, aquilo que pode-se chamar de conversão.

 Resta saber se existe real conversão sem tamanha desilusão…

BJ para prefeito

Esse texto que vou postar é do meu amigo Bernardo Jurema e foi postado originalmento no seu Bocejo. É de longe, o melhor texto que já li dele. Claro, indignado, propositivo, crítico, auto-reflexivo. Como bem sugerido por Cesar, é um verdadeiro post-manifesto. Traduz coisas que tantas vezes discutimos mas que, como ele bem coloca, fica sempre em estado amorfo, isolado em nossas individualidades bem pensantes. Não pedi autorização ao autor. Tou publicando sem a foto.

Ai vai…

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

Viva o progresso!
Um lugar aprazível, aberto, com plantas, pessoas interagindo do lado de fora…e até dá pra ver o céu! Nem parece Recife.Agora, logo após as votações do primeiro turno, ficamos sabendo que os armazéns lá no São José foram vendidos para a Moura Dubeux. Por ali, passa a segunda malha férrea mais antiga do Brasil. Mais um patrimônio arquitetônico da cidade vai ser demolido, aniquilado, apagado do mapa sem deixar rastro, e não tem um único grito, manifestação, protesto, choro, o que quer que seja, em defesa da memórial material da nossa comunidade. Viva o progresso? Morra a cidade.

Comunidade? Eis aí um conceito que se desconhece em Recife. Prevalece a lei do cada um por si. Essa é a grande questão da cidade, sobre a qual ninguém falou. Os principais problemas da cidade se devem à subordinação do público ao privado. A iniciativa privada é que dita o ritmo, a intensidade e a direção do crescimento de Recife. O poder público corre atrás desesperadamente, fazendo arremedos de intervenções e equipamentos urbanos. Que sempre ficam prontos quando é tarde demais. O bem coletivo não é levado em conta, em detrimento de interesses particulares. São uns poucos – donos de casarões antigos, especuladores imobiliários, construtoras… O resto, todo mundo, paga o preço muito caro do lucro deles. E então onde antes numa rua qualquer havia 5 casas, de repente elas somem e em seus lugares emergem 5 mondrongos de 27 andares, 4 apartamentos por andar, 2 ou 3 vagas de estacionamento. Faça aí a matemática. A infra-estrutura viária, a tubulação do esgoto, outros equipamentos urbanos como parques etc, permanecem os mesmos de antes!

Aí fica agora todo mundo falando de crise em Wall Street. E a crise das grandes cidades brasileiras? E a crise de Recife? Recife está seguindo um rumo que é inviável. Este estado de coisas não é fruto do acaso, não é um acidente da natureza. Quer entender o que está acontecendo em Wall Street? Olhe em sua volta: Recife materializou o que ocorreu lá virtualmente. Esse estado de coisas é resultado de escolhas que foram feitas, e que continuam sendo feitas, e de uma certa ideologia hegemônica que permeia a nossa sociedade e que o legitima. A mesma lógica que levou à crise financeira mundial está por trás do caos urbano em que está se transformando o Recife. É a ausência radical de regras, é o capitalismo selvagem, predador. Pode-se destruir e construir em Recife à vontade. É o Estado-mínimo em prática. Na verdade, está mais para Estado seletivo. Quem é vítima da violência policial sabe bem que o Estado, muitas vezes, de mínimo não tem nada: ele pode ser monstruosamente grande. É a privatização dos lucros, a partir do espaço público, e a socialização dos prejuízos, porque somos todos os contribuintes que pagamos pelas conseqüências da verticalização sem limites. Regras! Eu quero regras!

Aliás, regras… Isso é algo que vai além da capacidade cognitiva do cidadão recifense. Estamos a matarmos uns aos outros. As regras, quando existem, são solenemente desrespeitadas. Fica evidente por onde se passa na cidade. Aliás, transportar-se em Recife poderia ser considerado um esporte radical. Emoção pura. Dirigir por aqui , como disse um amigo, é como entrar num trem fantasma: surpresas e obstáculos surgem de todos os lados… isso na melhor das hipóteses, quando o trânsito de fato flui! Sem falar do assalto que as classes médias fazem às águas públicas, enquanto 2/3 da população da cidade padece de falta d’água crônica! A lista é infindável. Assalto a mão armada na frente de prédio é NADA comparado com todas as outras violências implícitas e explícitas que sofre a maioria dos recifenses em favor de uma minoria mesquinha.

Todos os nossos problemas temos resolvidos, nós “classes média e alta” (vista a carapuça quem quiser), os problemas coletivos de forma individual e privada. O prédio foi uma solução para a moradia. O carro, para o transporte. A cidade do Recife é (mal) feita pro morador de prédio usuário do carro. Priu. O resto são inconvenientes que enfeiam o Canal de Setúbal no Natal ou que envergonham os visitantes na Centro ou que roubam minha carteira na Agamenon. E tome grade e muro e câmeras de vigilâncias e guaritas e vidro fumê. Outro dia fui com uns amigos, andando, até o Plaza Shopping. Surgiu o questionamento – por que não resolvem a fedentina do canal que passa ali ao lado. Eu apontei pra passarela que liga o edifício garagem ao prédio do shopping e falei: olha ali, resolveram sim.

O modelo urbano recifense é intrinsecamente excludente. O recifense (das classes médias e altas) não anda a pé. Andar a pé em Recife é uma experiência sui-generis. Porque ou você vai se achar numa cidade fantasma ou então no Marrocos. Toda semana vou almoçar na casa de um tio que mora no Parnamirim. São 15 minutos a pé da minha casa até a dele. Uns 7 de bicicleta. Riem da minha cara: tá liso diga! Para eles, é incompreensível que alguém, por escolha, não use o carro. As classes abastada da cidade têm vergonha da cidade em que vivem. Nunca andam na rua da Imperatirz, jamais pisarão num mercado público. O negócio é Shopping Recife. O negócio, mesmo, seria Miami, ou pelo menos São Paulo. Mas o Shopping Recife já está de bom tamanho. E tome prédio. E tome carro. Vivemos numa sociedade desintegrada, e cada vez mais indo nessa direção.

Se tudo isso fosse só uma questão estética (prédio alto é feio, carro é feio), eu nem diria nada. Poderia-se dizer que se trata apenas de questão de gosto… Para a maioria das pessoas, não importa que a cidade fique toda igualzinha a Boa Viagem. As particularidades de cada bairro, reflexo de histórias específicas, pode ser considerada frescura babaca burguesa sentimentalóide nostálgica… Pode, pode, não nego isso não. Mas reflete um descaso total com o futuro. Agora mesmo, o mar está avançando sobre os prédios de Piedade e Candeias e sobre o calçadão de Boa Viagem. Se lá atrás, nos anos 70, houvesse uma preocupação com uma ocupação mais racional da orla os problemas mais graves que estão ocorrendo e que vai piorar poderiam ter sido evitados.

Tem gente preocupada em Recife com essas questões? Tem. Muita gente boa. Muita gente jovem. Mas essas pessoas estão por aí, soltas, desarticuladas. Não há uma voz política. Estamos perdendo a batalha ideológica em prol de um Recife mais humano onde o bem coletivo passe a sobrepor-se aos interesses particulares. Quem sabe em 2012 poderemos votar em algum candidato a vereador preocupado com essas coisas?Ou então vamos oficializar logo essa parada: Moura Dubeux para prefeito do Recife!- – - – - – - – -

Já abordei esse assunto antes:- Recife ruirá- Privatizaram o horizonte!- Utopia recifense- A Terra Prometida da casta-média brasileira