Pequenas modificações no blogue

Fazia tempo me prometia todos os dias dar uma arrumada nesse espaço. Tomei coragem e tempo do meu domingo para  1. dar uma atulizada na lista de blogues visitados; 2. modificar as categorias de reagrupamento de posts: fiz uma divisão mais compacta e funcional em 5 , Crônica, Literatura, Política, Sociologia, A memória de Jampa) e 3.  selecionei uns widgets  para animar um pouco a barra lateral.

Na lista de blogues estão alguns que eu costumava ler para alimentar parte das reflexões do antigo Oxymore (já falecido), como são os casos do Cazzo! , Amálgma, Soy loco por ti, VIP News (que também mudou de casa, era blogger e virou wordpress). Alguns de meus favoritos daquele momento só existem agora como arquivos mortos-vivos da internet: o Biscoito, Hermenauta o Don Quijote são para mim os mais saudosos.

 Outros estão no meu radar para entrar na lista e aos poucos os vou inserindo nas subcategorias que utilizei para facilitar a consulta.

 Alguns novos estão de vento em poupa, como é o caso do novo blogue do filósofo Leonardo Cisneiros. Leo vem fazendo posts muito interessantes, usando diversos recursos analíticos da filosofia para discutir questões relevantes sobre a relação das religiões com o estado, além de tratar dos elementos mais, digamos assim, escolásticos que giram em torno das reflexões filosóficas com objetos metafísicos. Em sua mais recente postagem, usa e abusa da ironia comparando vídeos postados no youtube sobre “desrespeitos ao símbolo pátrio”.  Qual desses casos é realmente desrespeito à pátria?, pergunta-nos de maneira falsamente retórica já no título. O sarcasmo que reconhece na frase de um superior militar ”homem meu não vai” é o fio que conduz a reflexão denunciadora da hipocrisia reprodutora da homofobia nessas instituições.

Nas subcategorias - ”Agora que são elas”, “Entreblogosagem”, “Política, politicagem, politiqueta, poluição”, ” Rir para não chorar” e “Sociologias”- vocês encontram uma maneira mais temática de vasculhar os blogues. Por exemplo: o ”Agora que são elas”  reagrupa os blogues que tratam de maneira mais direta a chamada questão da mulher: gênero,  condição feminina, feminismo, etc.  O “Sociologias” reune os blogues voltados para questões sociológicas (teóricas, metodológicas, de pesquisa, análises sociológicas variadas).

As categorias dizem respeito aos meus textos aqui no blogue: A memória de Jampa, Crônica, Literatura, Política, Sociologia, Uncategorized. (ainda impreciso, mas bem melhor do que antes).

Bem, devo ter feito algumas outras modificações que não lembro. Elas ainda não são definitivas. Espero que possam, contudo, melhorar o visual e tornar mais agradáveis as visitas a este blogue. Agradar  2,6 leitores tão exigentes não é tarefa fácil!

Luisa Marilac e Fabiana Moraes: encontros de jornalismo e sociologia

Em dezembro de 2009 o sociólogo francês Bernard Lahire estava em Recife. Visitava a UFPE a convite do Núcleo de Pesquisa Sociedade, Cultura e Comunicação, coordenado pela professora Lília Junqueira. Na mesma época, Fabiana Moraes havia acabado de finalizar seu trabalho sobre os sertões. Naquela ocasião tive a oportunidade de jantar com os dois. Conhecia Fabiana, mas não o seu trabalho. O melhor naquele agradável jantar foi ter percebido o seguinte: em Recife,  havia essa jovem jornalista que se inspirava na sociologia para fazer seu trabalho de reportagem. Tratei de acompanhar mais o que a moça fazia. E não muito tempo depois fiquei sabendo que os ”retratos sociológicos” que ela havia pintado (linkado acima) lá do sertão lhe dariam um prêmio importante no jornalismo brasileiro…

 Escrevo esse texto movido por minha convicção pessoal de que Fabiana Moraes me ensina e motiva muito em sociologia. O jornalismo dela me ajuda a manter o prumo sociológico. A recente publicação no youtube de um depoimento acusando-a (ver aqui) de ser ”falsa” e homofóbica”  revela, a  meu ver, um pouco mais desse lado sociológico dessa incrível jornalista. Meu sonho era não apenas ser aceito e entrevistado por Fabiana Moraes. Meu sonho, era ser sociólogo como Fabiana é jornalista, escrevendo sobre o sonho de Luisas Marilacs e afins.

Digo essas coisas porque acredito que só quem trabalha se confrontando de maneira direta com o mundo social pode sentir as tensões e contradições desse mundo na pele. Digo melhor, só com esse tipo de trabalho se pode sentir na pele o que é ser um investigador do mundo social,  um pesquisador-sociólogo.  Essa é umas das características da sociologia que coloca o estudioso numa posição social crítica: o sociólogo, talvez mais do que o historiador e o antropólogo, trabalha e interpreta a sociedade da qual ele faz parte. Por essa razão, o pesquisador é levado a enfrentar uma condição particular: a que o induz a ser frenquentemente questionado, diga-se, a qualquer momento, pelo que diz a respeito daquilo que as pessoas disseram. E, mais importante, é questionado pelo que diz a respeito do que o entrevistado(a) disse a respeito de si própio(a).

 Questões do tipo: quem é você para saber mais da minha vida do que eu, que a vivo?, podem ganhar várias versões e correspondem a tradução reativa da relação tensa produzida pela construção da narrativa sobre o outro no presente. No caso entre Luisa Marilac e Fabiana Morais a interpretação intelectual da palavra “aceitação” precisaria de uma mediação menos imediata que a reativa. Como Luisa Marilac leu o artigo O sonho de ser aceita, de Fabiana Moraes? Que uso do “ser aceita” fez ela para disparar tamanha virulência contra a jornalista? No  meu entender, a resposta violenta no youtube traduz ao mesmo tempo algo daquilo que Fabiana quis ressaltar ao escrever a matéria e Luisa Marilac refutar ao agredir a jornalista: o mecanismo de defesa (no sentido de ser um verdadeiro recalque, em significado freudiano)gerado por anos de esforço de autoaceitação.  Sei que houve um problema de interpretação. E que a própria violência presente no mundo social é parte da explicação para tamanha incompreensão. Não deixa de ser interessante, porém, essa pergunta que fica do trabalho depois da reação por ele criada: pode-se exigir de Luisa Marilac uma leitura mais antenta( menos reativa) e  raivosa do texto?

Não sei. O que sei é que continuo a admirar Fabiana Moraes. Aliás, admiro-a mais e mais a cada trabalho. Porque de sua coragem e ousadia, que nos faz conhecer mais sobre mundos que não ousamos sequer falar em nosso dia-a-dia, eu encontro lições para continuar acreditando em jornalismo sério, principalmente quando ele tem tanta cara de sociologia. De boa sociologia, diga-se.

Atualização: para entender melhor o que aconteceu Lula (aqui) contextualiza o caso e coloca os links sobre o extraordinário trabalho de Fabiana vem fazendo sobre o assunto. Acho que o texto do Soy Louco explica melhor também o que chamei de atitude reativa, de recalque.

 

Sobre a polêmica em torno do livro Sobre uma vida melhor…

Não vou discorrer sobre o livro. Para mim, a nota de esclarecimento dada pela Ação Educativa é o suficiente para esclarecer o obvio: o debate midiádico é rdículo e distorcido, desonesto e sem critério. E nesse vázio, não me parece possível se propagar a informação e muito menos o conhecimento. Um debate sério a respeito se perguntaria sobre os interesses editoriais por trás de toda a falsa polêmica. Mas estamos longe dessa formulação…

Motiva-me a escrever uma outra razão: a vontade de esclarecer meu ponto de vista para o professor e amigo Fernando da Mota Lima, que por conta do paupérrimo debate gerado pela mídia irresponsável, trocou comentários comigo sobre o assunto no meu mural do Facebook.  O foco do debate, como não poderia deixar de ser em uma falsa polêmica, não girava em torno do conteúdo concreto do livro, mas sobre a entrevista de um famoso gramático da qual eu havia discordado em meu comentário. Recontextualizo aqui os termos da troca de ideias:

 Eu escrevi como comentário do link da entrevista:

 É sempre muito complicado debater livro didático. Mais ainda [falar] do padrão de linguagem a ser aceito como oficial, retido e ensinado pela escola.A base do problema é social: a correspondência entre a linguagem padrão e a linguagem das classes dominantes. (continua nos comentários).  

Lembrar da diferença entre os papéis do linguista e do professor é importante, mas não elimina a tarefa pedagógica de lidar com a situação de “violência simbólica” que é impor um padrão “não-familiar” da lingua para uma classe de pessoas que não convive com ela em casa. Ensinar o português culto é ao meu ver o papel do professor de português que se dá conta da superposição estrutural causadora da violência que é ter que dizer que o outro jeito, o “meu jeito familiar de falar”, é o “errado”. Isso implica uma tomada de posição ao mesmo tempo política e linguistica por parte do professor: garantir o acesso às ferramentas que são parte integrante do sistema de dominação (já que a ascenção só é garantida dessa forma), só é realmente liberadora para os grupos dominados, se a assimilação produz paralelamente uma crítia ao sistema de dominação no qual a forma de conceber a hierarquia reproduzida “nas diferentes formas de uso da língua” pode ser questionada. Não vejo como não fazer isso sem um diálogo entre a linguistica, a socio-linguistica e a própria tarefa pedagógica.
 
Ao que Fernando comentou:
 
  

Jampa: considerando a lógica do seu argumento, deduzo que educar-se é sempre sofrer uma violência simbólica. Discordo. Educar-se, no sentido pleno do termo, é assimilar um código linguístico complexo sem o qual estamos incapacitados para compreender em termos críticos a realidade em que vivemos. Manter as pessoas pobres ou intelectualmente incultas dentro do código linguístico herdado do ambiente social em que vivem é manter em termos efetivos a ignorância e a inconsciência humana que servem antes de tudo para manter as condições de desigualdade e exploração em que vivemos. Acreditar nas virtudes da ignorância, ou na sebedoria da consciência espontânea não passa de populismo muitas vezes generoso e bonito como ideologia pseudoigualitária. Em suma, acho que esse livro de português adotado pelo mec e visto com tanta complacência ideológica e pedagógica é apenas mais um capítulo deplorável na história da democracia de enganação que domina a cena cultural em que vivemos.
 
Tentei me esclarecer da seguinte forma em minha réplica:
 
 

Fernando: primeiro obrigado pelas palavras críticas. Elas são sempre bem vindas aqui nesse espaço. Deixe-me, porém, defender minha ideia com mais vagar porque acredito ter existido certo exagero na interpretação de meu comentário.Senão vejamos. Não vejo continuidade entre o que eu defendi e a ideia de valorizar a “consciência espontânea” ou qualquer forma de” populismo”. Em minhas palavras é papel do professor se situar numa relação de violência estrutural não criada por ele, mas cujo a consciência de sua exitência e forma de funcionamento é de extrema importância para que o processo educativo (de condução, como lembra o gramático na estrevista) e suas estratégias pedagógicas sejam eficazes. Ainda em outras palavras, não é por acaso que a lingua familiar das elites corresponda à lingua exigida pelas instituições oficiais (entenda-se escolas, mas também os concursos de acesso aos cargos públicos mais importantes etc.). Acredito e defendo que o papel da escola seja, em outra escala, o mesmo da ciência quando efetua sua ruptura espistemológica desvendando aspectos que os sentidos ou o senso comum encombrem e/ou distorcem. Acho que você incorre em certa injustiça ao associar valores “generosos” de uma “ideologia peseudoigualitária” que não se apresentam no meu comentário a respeito da entrevista. Eu na verdade não vi o livro e me ative à entrevista, que achei interessante principalmente por conta da ênfase na diferença atribuida aos papeis entre o professor e o linguista. Mais uma vez, a questão está para mim na relação de afinidade eletiva entre isso que você chama de “código linguístico complexo” e o tipo de linguagem associada ao “código familiar das elites”. Nesse sentido meu comentário articula uma crítica pontual da entrevista que não destaca esse elemento central para atitude pedagógica (sempre violenta socialmente por conta da correspondencia estrutural em lingua oficial e a das classes dominantes): a consciência dos diferentes tipos de familiaridade com a lingua tida como padrão ou oficial. Que apesar de ser fruto do conhecimento produzido pelo linguista(falo da consciência dos padrões de familiaridade com diferentes códigos), a meu ver, pode e deve ser aproveitado pelo professor inclusive para diminuir (quando for o caso pedagogicamente avaliado) os efeitos da violência simbólica gerado por questões da desigualdade social. Não é questão a meu ver de ser contra ou a favor da violência simbólica que é para mim um dado estrutural da relação pedagógica. Mas estabelecer uma relação na qual a consciência de sua existência possa gerar mais liberdade para quem é subjulgado pelo jeito familiar de lidar com a lingua. Não vejo nessa posição teórica nem miserabilismo tosco (ah, coitadinho do pobre que fala errado) nem populismo fajuto (tudo que vem do povo é autentico e bom). Por conta disso vejo injustiça ao meu comentário.
 
Houve uma tréplica de esclarecimento:
 
 

Jampa: somente agora vi seu comentário acima.antes de tudo, preciso esclarecer que você me interpretou mal ao supor que atribuí a você a crítica que atribuo aos que simplificamente chamo de populistas da pedagogia. O que critiquei no seu comentário foi o fato de você caracterizar como violência simbólica o fato educacional necessário, friso, implicado na assimilação da norma culta pelo aluno carente ou em processo de formação. Você,eu, todo mundo passou por isso,Jampa. Não se assimila um código linguístico complexo, nada que não sabemos, sem em graus variáveis sofrermos a experiência que você chama de violência simbólica. Pense no que você sofreu para se integrar linguística e culturalmente na França, assim como eu na Inglaterra. Transpondo o argumento para o plano político e ideológico, você sabe que nenhuma revolução se fez, nenhum revolucionário se formou sem aprender os meios de saber a dominação do inimigo que visaram combater. Pense em Gandhi contra o colonialismo inglês, Chico Mendes contra os dominadores da floresta amazônica etc. A seara é farta. Poderia enumerar um livro. Lula e todos que vieram de baixo, revolucionários ou não, precisaram aprender muitos dos códigos de saber e dominação da classe dominante ou das elites. Se Machado de Assis ficasse confinado ao mundo pobre de sua origem… Bem, já falei demais. Este não é o espaço para a gente discutir algo tão complexo.Acabo de digitar também uma resposta a Cynthia na página dela. Faço alusão a você. Se quuiser conferir…
 
Os termos do debate são os acima colocados. E como no mural de Cynthia sugeri que o debate ganhasse forma aqui no blogue, cá estou para continuar o que foi começado lá no Facebook.
 
Neste post já longo vou me ater apenas ao último comentário de Fernando, para esclarecer que quando falo de violência simbólica me refiro sempre a um dado gerado por disparidades estruturais na organização da sociedade de classes. A evidência e obviedade das dificuldades genéricas encontradas por cada um de nós (independente da origem social) na assimilação dos códigos da norma culta, lembrados por Fernando, não se referem  necessariamente ao tipo de dificuldade específica produzida por disparidades estruturais de classe, como as que eu tentei de maneira simplificada ilustrar num texto sobre quem detinha o monopólio da alta cultura, e sobre as quais me refiro quando trato da violência simbólica.
Que dado estrutural é esse? A correspondência entre a liguagem familiar falada pelas classes dominantes e linguagem escolar, não só a escrita, mas também a falada,  usada durante o ensino e demandada pelas instituições oficiais como requisito e forma mais adequada de  se expressar oficialmente através da língua portuguesa. Eis um problema de extrema complexidade no Brasil, devido também a existência de um sistema escolar público repartido em suas responsabilidades entre as esferas do poder executivo, gerando diferenças nos padrões de educação entre as cidades (no nível fundamental), os estados (no nível médio) e na federação (no nível superior). Sem contar os diferentes tipos de estabelecimentos de ensino da rede privada, responsáveis pela educação de parcela importante das classes médias e elites. Isso tudo, deveria ser estudado em detalhe pelas diversas áreas das ciências sociais e humanas ligadas à educação.  Acho que muitas desses temas já foram estudados, não sei. Por isso registro, não sou especialista em sociologia da educação. Nunca fiz pesquisa sobre os estabelecimentos de ensino, sobre processos pedagógicos, sobre as relações entre professores e a instituição escolar, entre os estudantes e a escola, entre a escola e o Estado, etc. Conheço a esse respeito mais pelos trabalhos lidos sobre a realidade francesa do que sobre a brasileira. Mas o que me chama a atenção na ocultação do problema estrutural por mim levantado, e é apenas isso que julgo importante nesse debate, é que ela  pressupõe que a ignorância sobre o arbtrário no qual se funda a legitimidade da norma culta, deve permancer como pano de fundo do pacto pedagógico que no final das contas é, em meu modesto entender, corresponsavel pela reprodução das desigualdades sociais já existentes. E a violência simbólica aparece como o termo que dá nome a essa relação com o apredizado que, por conta de elementos da estrutura social, tornam, necessariamente, a tarefa de aprender a norma culta algo geralmente mais difícil e relevante (justamente porque é um fato condicionante da ascenção social) para um grupo bastante específico de pessoas.  

Relendo Antonio Candido

O trabalho do crítico literário Antonio Candido dialoga de maneira intensa com a sociologia da literatura no Brasil. Suas visões acerca dos ofícios da crítica literária e da sociologia da literatura se encontram, em certo sentido, condensadas em seu clássico Literatura e Sociedade. É preciso, pela influência do mestre na nossa vida intelectual, fazer uma leitura crítica do marco regulador da crítica literária de matriz sociológica tal como é conduzido e exposto em Literatura e Sociedade.

Desde minha tese venho pensando em analisar com mais atenção os contornos formalistas e as escolhas feitas por Candido que – apesar de estabelecer uma relação tensa e complexa com a sociologia – revela, em vários momentos-chave de seu texto, o cerne maduro contido na solução da redução estrutural, método que inverte a hierarquia disciplinar, elevando e elegendo a crítica e seu foco como forma privilegiada de lidar com os objetos literários.

 O impacto dessa eleição velada feita pelo crítico em nosso meio é imenso: um verdadeiro “filtro humanista” tende, a  partir desse mote de inclinação formalista, a funcionar como metro da operação que leva a sociologia da literatura a ser entendida em seu melhor aspecto, na visão concebida por Candido naquele momento, como uma sociologia das formas literárias. A sociologia da literatura stricto sensu se torna assim, dentro dessa perspectiva, uma maneira limitada e reducionista de entender o fenômeno literário.

Minha intuição diz o seguinte: Candido pode ser visto como o crítico literário mais importante do século XX . É reconhecidamente um dos mais sensíveis ao tratamento sociológico da literatura. Justamente por essas razões, reflito, mais do que nas obras que simplesmente rejeitam ou demagogicamente aceitam a sociologia como ferramenta de estudo da literatura, a obra de Candido traz complexidade à relação entre sociologia e crítica literária. Ela torna possível visualizar melhor, por isso, as razões pelas quais, no Brasil, a sociologia da literatura tem tido contorno bastante específico, geralmente ligado à sociologia das formas literárias.

Voltando ao jogo

Andei tendo uma daquelas crises blogueiras-existenciais.  Parei de escrever um tempo para pensar as razões pelas quais escrever um blog vale a pena. Você precisa ter um público. E pensar nele. Ninguem escreve para si mesmo, escreve? Ainda mais quando digita palavras na internet. Não faz sentido falar sozinho.

 Acompanhei os números de visitas por aqui, e é engraçado perceber que as polêmicas políticas locais são de longe a maior audiência do que fiz blogando. Sei as razões disso. Ninguem lê minhas opiniões políticas como se fossem frutos da análise de um sociólogo atento… Fatalmente, o diagnóstico que Antonio Candido fazia da situação sem saída do intelectual que resolve falar de seu próprio universo de maneira crítica se desdobra em minha situação: na política, sendo filho de um personagem central, opinar para mim é ser das duas uma; se concordo, meu argumento é visto como mera continuação extensiva das opiniões de meu pai, ou, caso contrário, se discordo, até o filho discorda, dando efeito de lupa ao ato de discordar. A medida é sempre desequilibrada para bem e para mal.

 Não tenho verve de polemista político. Se a tivesse, teria encarado algumas com certos jornalistas que, tendo sempre a palavra de alguém por trás da deles, não conseguem ver autonomia na opinião alheia. É triste. Imaginem o que é dialogar com gente assim.  Os argumentos estão lá, são consistentes, mas eles não importam. Afinal, eles nunca são seus.

A saída  para esse aparente paradoxo(que é desdobrado por parte da imprensa) é não fugir dele. O dilema aqui é encontrar o bom tom e exercer com caráter o propósito de analista, de cidadão interessado na vida pública de sua cidade, de seu estado, de seu país. Aos que pregam que a minha filiação seria necessariamente impeditiva da minha vocação política, afirmando que no meu caso isso  seria fruto do sempre temeroso filhotismo - esse traço tão característico quanto nefasto de nossa cultura política -respondo o seguinte: do capital político de meu pai (o qual admiro por compartilhar os valores que norteiam sua prática política e visão de sociedade), herdei apenas o que aprendi como sendo reconhecidamente suas qualidades como político vindo das bases sociais: sua visão e compromisso com a luta pela justiça social.  E a crítica fruto da análise sociológica do mundo é um elemento do qual disponho e não posso abrir mão nessa batalha.

Resumindo: esse texto é apenas mais uma avaliação sobre o direcionamento recente do blog que além das crônicas e análises sociológicas de ocasião agora traz a análise da política local como foco dos textos.

É um alô. Uma volta lenta, gradual e segura ao mundo da blogagem.

Vovó e o meu eu sociológico

 

Um grande amigo uma vez escreveu: “Vejo meu avô como um gigante, apesar de ter estudado mais, viajado mais, lido mais que o velho Alfredo. Reconheço sem tristeza que ele é “melhor” do que eu. Pois isso me dará o metro certo para seguir a minha vida e talvez realizar aquilo que o velho Alfredo tenha feito tão bem na sua vida.” (Leia o texto na íntegra, aqui).

 Minha avó é antes de tudo uma forte. E devo reconhecer a meu turno, como outrora fez meu amigo, que a velha Maria Pereira é muito melhor do que eu. E reconheço esse fato sob o regime da mais pura alegria. O melhor disso, porém, é sentir que a presença dela em mim depois de sua partida, é uma maneira de perceber que não só ela era melhor e superior, mas que ela continua a me melhorar, porque gostaria de ser como ela.

Ela faleceu ontém depois de ter passado um longo período de hospitalização. Mãe de muitos filhos, a velha senhora era dona de uma resistência física a dar inveja a muito marmanjo de academia de musculação. Vovó Maria, ai que saudade!

 Tê-la visitado antes de minha defesa teve um significado simbólico profundo para mim: ser sociólogo é a constatação de meu ser contraditório. Ser neto da vovó significa ter a obrigação de ser uma pessoa humana melhor, mais alegre e feliz consigo mesma. Como fazê-lo?

 De família com orígem pobre, percebo a evolução do acesso à escola nas gerações que precederam a minha. Vovó não sabia ler nem escrever. Seus filhos sim. Mas não  tiveram contato com o ensino superior. Já seus netos, a maioria teve mais condição. Muitos deles, com o auxílio dos pais, chegaram à universidade. E um deles, até aqui, chegou até o final do percurso, seguindo a trajetória escolar até o seu termo institucional: o doutoramento.  Por que digo tudo isso?

Porque por conta da grandeza de minha avó não vejo nesse processo uma evolução valorativa na escala das pessoas. Ela inverte isso: no topo dessa escala, não tenho dúvidas, está a analfabeta vovó Maria Pereira. E essa consciência tem sido muito importante para mim e minha formação.

No momento da minha defesa eu … :

 ”… Pensava nos avós, sobretudo na vovó, que eu havia visitado no dia anterior. Ela pediu para a filha ler uma carta para ela. Depois, voltou a repetir algumas vezes: “não saber ler é tão ruim, você lê uma carta para mim minha fia”. [...] O que significava para mim defender aquela tese? Defendi pensando nessas coisas, sentindo esse hiato entre o não saber ler que oprime e libera, e o saber doutoral que libera e… oprime. O equilíbrio desse sentimento se encontra para aquém e além da própria tese. Resta saber se conseguirei dentro do meu trabalho a seguir fazer jus ao respeito e amor que nutro profundamente pela analfabeta Vovó Maria, senhora matriarca de todos os amores do mundo, mãe vocacional de minha luta sociológica por um saber que afirme seu valor sem representar uma opressão aos que, por razões mundanas, amaram e viveram sem ter acesso ao saber livresco.”

Ela me faz melhor, porque quero sim, naquilo que eu faço bem, estar à sua altura.  Vovó representa para mim a incrível esperança que nutro na vida apesar de todos os apesar de. Ela é  um exemplo supremo, um modelo de excelência que indica a possibilidade real e mundana do milagre que é o amor desinteressado, do valorizar a vida que vale como ela é. Vovó é  para mim um exemplo intransponível: uma espécie de mote moral niezschiano (se é que isso é possível) que se efetua no coração iletrado dela, nos gestos de amor  aos seus netos de maneira tão incondicional. Pode parecer piegas o que digo, mas não é pouco ser piegas de maneira sincera e autêntica. Devo muito a ela esse algo na minha pequena e autocentrada vida acadêmica que é pulsão contra o academicismo e o elitismo de tantos intelectuais. Não defendo nenhum propósito irracionalista. Nem pretendo valorizar o anafalbetismo como qualidade desejável. Só acho que ser neto da vovó me tornou sensível e crítico a tendência autorreferenciada dos integrantes do universo intelectual, crítico a uma verdadeira inclinação naturalizada que (n)os faz tomar as regras do mundo acadêmico como sendo as mesmas que deveriam regular e ordenar o mundo em que vivemos.  Fazer essa confusão é o mesmo que tomar as coisas da lógica como sendo as lógicas das coisas, como dizia Marx.  O que é uma deformação profissional em sentido forte do termo. Vovó foi para mim em seu amor profundo uma grande vacina contra esse defeito.

Minha avó não leu Marx. Vivia  no mundo como se nele não houvesse lógicas a serem decifradas.  Parecia não valorizar riqueza que não fosse motivo de real felicidade e realização. Forçava-me, por isso, a pensar sobre o valor de tudo aquilo que faço ao estudar pelo propósito de conhecer. Vovó Maria é a vida contra a paralização mortificante do conhecimento morto. Fazer as coisas com alegria e cantando é um retrato profundo da velha senhora  incansável em seu amor: Maria Pereira e seu Gai Savoir.  Esse retrato dela às vezes me deixa confuso: como alguém tão católico pôde ter uma prática de vida tão oposta à culpabilidade triste que eu via no catolicismo? Em Maria Pereira o Gai Savoir é uma maneira de ser. A vovó ensina mais uma vez:  a alegria é que faz do saber incorporado um antídoto ao saber triste e morto da acumualação erudita. Saber é poder, mas é mais e melhor quando cheio de dança, alegria e graça.

Adeus Vovó. A sua lição e amor relativisa sim o sentimento da perda eterna, você continua nos melhorando… para sempre.

 

Apresentação de minha defesa de doutorado (Excerto)

 Eu gostaria de começar essa apresentação agradecendo a presença de todos vocês. Dos integrantes da mesa, a professora dr. e minha orientadora Lília Junqueira, o professor dr. Sérgio Miceli, o professor dr. Alfredo Cesar, o professor dr. Luciano Oliveira e o professor dr. Paulo Marcondes, às pessoas do público, minha família e amigos e os demais que prestigiam essa defesa de doutorado.

 Leio esse texto que escrevi em momento de tranquilidade. Na verdade, era grande o meu medo de a emoção me impedir de fazer uma apresentação clara e inteligível. Por essa razão, decidi ler calmamente algo que traduzisse também meu receio, imaginando que a situação de avaliação poderia trazer à tona lembranças fortes de uma trajetória intelectual improvável, agora podendo ser inciciada, testada e avaliada diante dos trâmites oficiais da instituição universitária, sob o olhar rigoroso e crítico dos pares que formam esta banca. Gostaria de agradecer desde já a leitura antenta e cuidadosa que sei todos vocês fizeram do meu trabalho.

Não sei o quanto do meu nervosismo decorre de outro elemento. Do fato de eu ter consciência de haver na sociologia a qual pratiquei uma recusa à parte do mundo que escolhi para fazer parte. Para utilizar as palavras que Antonio Candido usou para falar da tese de Sérgio Miceli, a recusa em aceitar de maneira passiva fazer parte da “grande família dos intelectuais”. Tavez venha daí a sensação desconfortável de estar traindo a quem eu gostaria de ver reconhecendo a qualidade de meu trabalho. Na medida que, aqui e acolá, durante a feitura da tese, confrontava-me com questões descritivas como o que é que chamamos de sociologia da literatura, ou, de maneira mais geral, com pergutas do tipo o que é fazer sociologia, sem usar definições fixas nem de manuais, captando, porém, aquilo que a tradição considera como sociologia da literatura; ao usar também os preceitos da própria sociologia para confrontá-los aos procedimentos mais corriqueiros da crítica literária(tidos por muitos como única forma de fazer boa sociologia da literatura), foi ao me confrontar com tudo isso que ia percebendo com mais clareza que o que estava em jogo era mesmo a capacidade reflexiva da sociologia de se afirmar como disciplina científica. E a minha, é claro, de me afirmar como sociólogo da maneira que eu gostaria de ser visto e reconhecido.

 Dizer que os intelectuais, grupos do qual se subentente que o sociólogo faça parte, obedece as mesmas lógicas sociais de fucionamento que de outros agentes sociais, gera sempre desconforto a aqueles que, por uma ou outra razão, fizeram da atividade intelectual (que é sempre reificada e encantada pela ignorância que temos a respeito da sua condição social de produção) um recanto conformado e conformista, lugar em que o que se quer preservar é a posição social que é assegurada pelo próprio estatuto de intelectual. Meu desconforto era uma evidência de que tal lógica também estava presente comigo no decorrer de meu trabalho.

O mais importante do meu trabalho, porém, talvez esteja mesmo nas entrelinhas: falar de sociologia dos intelectuais é algo de fato muito genérico. Minha tese mostra que é preciso articular ferramentas de várias sociologias específicas, associar a sociologia da cultura e dos intelectuais, por exemplo, à sociologia do trabalho, através da ideia de condições de trabalho intelectual. Isso se quisermos de fato fazer uma sociologia da literatura e dos intelectuais que preze pela vida concretas desses agentes. Isso é necessário porque a categoria intelectual é tão ampla e abrangente que oculta nela os elementos sociais de identificação das formas de agir dos próprios intelectuais. Falar de Graciliano Ramos como escritor, o que diabos quer dizer isso? Como e de que vive um escritor? Eis pergunta que ajuda a materializar o intelectual e me levou a procurar responder muitas dúvidas a respeito da vida e da obra do Velho Graça. Na minha cabeça a sociologia tem um papel fundamental ao tentar responder esse tipo de questão, inclusive como forma de enquadramento do seu próprio potencial reflexivo. [...]

Convite para bate-papo sobre literatura e cinema

Estarei trocando ideias sobre o filme São Bernardo, de Leon Hirsziman, na próxima quinta-feira, dia 10, às 17 horas. O debate acontecerá no quadro de um cineclube que tem como um de seus propósitos debater a relação entre literatura e cinema. O projeto tem curadoria das pesquisadoras Ângela Gandier, Gabriela Saldanha e Raquel do Monte. Ângela é doutoranda em Teoria da Literatura pela UFPE e professora do ensino superior de Literatura. Gabriela é mestre em Multimeios/ Cinema pela Unicamp e atua na área jornalística. Raquel é doutoranda em Comunicação pela UFPE e jornalista. Mais informações, aqui. Quem estiver livre e gostar de cinema e literatura, será uma ótima ocasião para conversar a respeito. O Espaço Pasárgada fica na Rua da União, 263, no bairro da Boa Vista.

Daniel Coelho: nota sobre seu mérito político

É preciso reconhecer algo a respeito da cena política pernambucana: a luta solitária de Daniel Coelho para continuar sendo oposição merece nota de muito respeito. Na minha opinião, não resta dúvida:  Daniel Coleho é o elemento mais novo surgido na politica de Pernambuco. E isso não é pouco, para quem tanto ouviu falar em renovação de meia boca. A voz isolada dele é uma aguda alfinetada: num estado de conformismo e coronelismo, onde todos deputados querem ser do governo, o cara luta para firmar posição. Tiro meu chapéu.

 O problema que o deputado tem enfrentado é revelador de um estado de coisas: os partidos políticos em pernambuco tornam-se partidos de verdade quando se trata de proteger, parece piada, a flexibilidade vexatória de seu adesismo governista. A reação do PV   é absurda. Nós que acompanhamos a campanha eleitoral de 2010, e vimos o comportamento de Daniel Coelho, percebemos a coerência de seus posiconamentos. É um partido que se volta contra sua própria dignidade. Sou filiado a outro partido, opino aqui sobre a questão da tomada de posição política, elemento central da prática do metier de político. Quando meus amigos me perguntavam o que é que eu tinha contra Marina Silva, eu baixava a cabeça, meio triste, porque tinha respeito pela candidata, e silenciava pensando nesse tipo de coisas. O jovem deputado vem sofrendo por querer ser um político de posição,  algo que merece muito mérito num contexto político como o nosso.  Resta saber se terá força nas pernas para se manter de pé com a dignidade que vem mostrando até aqui. Do lado de cá, pensando numa frase geralmente atribuída a Voltaire, diria que discordo basicamente das posições políticas dele, mas lutaria até o fim pelo direito dele de poder defendê-las. Encontro aí razão suficiente para minha nota.

Comentário sobre a “verdadeira” oposição

O cenário político pernambucano é lastimável. E a verdadeira medida disso está na péssima qualidade da oposição. Pode-se medir isso que digo pela tentativa de tirar proveito das querelas internas do PT, feita pelo deputado Raul Junlgmann, do PPS, ver aqui. Falta foco político. O que vale para esquerda, se perder o prumo, vale mais ainda para direita. Junlgmann menospreza a inteligência das pessoas ao insinuar que tudo na política é e deve ser transparente e que os oponentes tem que tonar pública a razão de ser de suas disputas. Esquece que o povo sabe que na política existe o “jogo político” e que nem tudo é dito, por questões de estratégia de manutenção de poder, ou de sua conquista. Eis uma posição vazia de significado político porque todos sabem que se tudo estivesse à mostra,  não existiria a necessidade do fazer política. Em outras palavras, se ele mesmo não inventar um Wikileaks dos bastidores da política, esse tipo de reação não causará efeito algum.  Só expõe, como bem disse de outra forma Marisa Gibson, a lentidão da oposição para se arrumar diante de uma conjuntura na qual, segundo a colunista, não há espaço para palanques separados.