A história do sindicato dos metalurgicos : versão infantil

Minha visão do PT foi construída na vida cotidiana. Ela tem a ver com o dia a dia de um garoto de suburbio recifence crescendo em meio a realidades distintas. Olhar de menino que via seus pais se bater pela sobrevivência deles e a dos outros. Perspectiva positiva e esperançosa, apesar da dureza de algumas experiências.

Pretendo aos poucos ir deixando aqui uma pequena história das marcas de várias crises vividas por mim em relação ao partido dos trabalhadores. Claro, nada com valor histórico. Apenas lembranças pessoais muito influentes em minha vida. Os amigos que quiserem acompanhá-la, devem entendê-la como esforço autocrítico também. Ela é, pois de certa forma real, história de transição entre duas negações minhas em relação ao PT: a primeira, infantil demais para ser levada a sério ; a segunda, vinda depois de uma afirmação mais ou menos racional e adulta, séria demais para ser levada em consideração. Não se deve ver nela nem uma crítica ao atual estado do partido, nem uma postura melancólica de minha parte em relação a um PT mais próximo do socialismo, ainda sonhado…

Sindicato X PT : a época de ouro de um sindicato inimigo

No início o PT não era importante. Ele era frágil demais, eu nem precisava fazer muito esforço para derrotá-lo. Nem saber de sua existência, sabia. E se sabia, não lembro. E isso confirma a insignificancia dele em épocas remotas de minha memória.

O que eu lembro primeiro é do sindicato dos metalurgicos. Meu pai era presidente : eu achava isso o máximo. Ter um pai presidente de alguma coisa, mesmo não entendendo absolutamente nada das palavras sindicato e metalurgico, parecia ser algo importante. E criança entende rápido as primeiras lições de sociologia : o status social é coisa séria, se não determina, indica que é uma beleza a disposição das relações de poder. Presidente! Poxa, coisa de gente grande e importante.

Porém, em contrapartida ao orgulho inicial, logo entendi uma outra lei sociológica formulada assim pelo garoto : « gente importante é muito ocupada, não tem tempo para brincar com os filhos ». Causalidade que num futuro próximo ganharia na minha cabeça nomes gigantes e confusos. A ciência de novas palavras só veio atrapalhar minha compreensão precisa dos fatos. Capitalismo era inimigo e socialismo, amigo. Desses elementos de base, todo um esforço vão era necessário para entender o porquê do meu pai nunca ficar em casa.

Pois era assim : o sindicato dos metalurgicos, essa entidade de nome esquisito, era um monstro que tomava meu pai todas as noites. « Cadê painho, mainha ? » Pergunta de menino amerelo (na época não imaginava que o amarelo podia ser cor oposta ao vermelho : as duas cores estavam nas bandeiras da China e URSS) ! « Tá no sindicato em reunião », respondia minha mãe. Se o sindicato era mau, reunião devia ser mais. Eles sempre diziam a esse respeito : « a união faz a força, precisamos nos reunir. »E iam para essa tal de reunião…

Reunião é uma palavra com poderes nefastos. Eu sempre imaginava David Cooperfild dizendo-a para fazer desaparecer pessoas aos domingos, no Fantástico. « Reunião !», dizia ele com aquele ar de mágico de oz, e a moça loira e gostosa desaparecia. « Metalurgico !», enfatizava, e ela se tranformava em tigre. Nada mais fácil. Acho ele deve ter dito « sindicato ! » para se livrar das correntes…

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