Trem das 11

Viagem corriqueira de fim de semana. Sair de Lyon e vir à França profunda, agrária, interiorana, não é mais novidade. Faço isso desde do início do ano universitário, em setembro. O percurso dura duas horas e trinta minutos no relógio, mas dependendo do livro que estiver lendo a impressão do tempo pode diminuir ou aumentar.

Confesso, ontem não teve leitura salvadora. O tempo não parou, mas o trem quebrou. A viagem durou seis horas e quinze minutos. Os segundos pareciam se contar: um segundo, dizia um segundo ao outro. O sengundo sou eu! Exclamava o terceiro segundo ao primeiro, que também era um segundo como o segundo segundo(…), e assim, seguiam eles, de segundo a segundo, de segundo em segundo, senguindo, em direção ao infinito, eu acho. Sim, eu juro, repetição de relógio digital é assim!

Outra coisa

Sinto falta da fineza do humor recifense. Sim. Porque no Recife ônibus que pára em todas as paradas é cata-corno. Aqui a porra do trêm pára muito mais (sem falar no francês ao lado que quando fede o faz com gosto, bom gosto… ô povinho para feder com refinamento!!!). Porém, ao invez de serem realistas como nós, atribuem ao vuco-vuco um nome politicamente correto: “train à vitesse moderée” (trem a velocidade moderada). Para mim, um puta de um eufemismo.

Mais do refinamento

Nem tudo na viagem foi monotono e chato. Meu vagão, por exemplo, tinha gente muito refinada.

Uma mulher com uma voz bem aguda contava abertamente coisas da vida “intima” dela. Eu estava achando ótimo, pois quando ela falava os segundos calavam. De supetão um milico francês de voz bem grave mandou-a calar a boca. Exercicio difícil para tal “madame”, ela não se conteve e disse como se fosse mulher nascida na UR-6: “vem me calar se tu és homem”! Bem, em francês dava uma coisa mais amena do tipo “si tu viens tu vera!” (Se tu vens, vais ver!) O militar não calou: “quebro-te a cara” (je te feut une gifle). Ela retrucou: ” vem fazer” (viens!). – Nesse momento pensei em Nelson Rodrigues, não sei porquê!- Houve um momento de silêncio. A dama comentou baixinho com o moço do lado com quem se confessava antes da celeuma:” se ele vem e me bate, boto ele na justiça e ainda me faço uns trocados!”(s’il me frape, le tribunal est la place pour faire la justice).

Resumo: sou um péssimo tradutor de francês. Mas a história é veridica.

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