Um bruto de sensibilidade

Pausa na melancolia pequeno-burguesa e egocêntrica do blogue para leitura de um poema seco, maduro. Poesia de faca e pedra, socos em palavras referidas a um homem duro, um cascudo. Na verdade, uma ode seca ás vozes de um autor retentor de palavras. Rentendo o dito para expressa-lo em língua de lâmina afiada(falo com o que falo), e depois refletí-lo(falo somente do que falo) de maneira humana e engajada( falo por quem falo), findando por repatí-lo(falo para quem falo). O rio que corre das vidas secas pelo verso de João Cabral.

Graciliano Ramos (por João Cabral de Melo Neto)

Falo somente com o que falo:

com as mesmas palavras

girando ao redor do sol

que limpa do que não é faca:

de toda crosta viscosa,

resto de janta abaianada,

que fica na lâmina e cega

seu gosto da cicatriz clara.

***

Falo somente do que falo:

do seco e de suas paisagens,

Nordestes, debaixo de um sol

ali do mais quente vinagre:

que reduz tudo ao espinhaço,

cresta o simplesmente folhagem,

folha prolixa, folharada,

onde possa esconder-se a fraude.

***

Falo somente por quem falo:

por quem existe nesses climas

condicionados pelo sol,

pelo gavião e outras rapinas:

e onde estão os solos inertes

de tantas condições caatinga

em que só cabe cultivar

o que é sinônimo de míngua.

***

Falosomente para quem falo:

quem padece sono de morto

e precisa um despertador

acre, como o sol sobre o olho:

que é quando o sol é estridente,

e contrapelo, imperioso,

e bate nas pálpebras como

se bate numa porta a socos.

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