Recife de dentro pra fora

Chegar na França é como apagar todas as luzes da casa, pegar a lanterna de bolso do Drummond, andar pelos corredores, quartos, salas e, sem medo, quase por prazer, fazer a experiência da luz errante.

Daqui o Recife real parece-me um acaso do meu olhar estranho(chame-o de luz se quiser), ora triste ora contente, porém sempre modelado pelo alcance de uma recordação. Ao iluminar apenas seções, nunca por inteiro, as dores, os abraços, as alegrias de tantos e em muitos lugares, ele modela pelo limite o ‘visível’ e enquadra a realidade possível. O Recife daqui é focado por uma lanterna doida e triste chamada memória.

Mas o que é o real, perguntava o poeta, senão o acaso da iluminação? Minha resposta, contraria o ímpeto da poética da lanterna Drummondiana. Eu insisto em ser realista. Parece-me óbvia a existência de uma dor em si, não dependente de qualquer claridade subjetiva. Posso dar exemplos disso.

Como no reencontro com dona Iracema, lá na UR-6. Encontrei-a lá onde minha memória a havia deixado. Mesmo bairro, mesma casa. As dores pareciam ser menores no passado. Ou talvez fosse a minha lanterninha de criança pouco capaz de focar e clarear tais regiões pouco físicas do espaço humano. Mas lá estava ela, lá na mesma residência.

-Dona Iracema, o que houve com a senhora? Como vão as coisas?

-Meu filho, quanto tempo. Quanto tempo, não é mesmo? Estou aqui assim, com essa perna assim, meu filho, acabada, sem poder andar.

-O que aconteceu com sua perna dona Iracema? Meu Deus!

-Fui operada três vezes meu filho. O médico errou, a perna está solta, a peça metálica incomoda. Outra equipe médica já indicou a besteira que me fizeram. Minha perna não tem jeito. Meu filho, Clayton, me abandonou. Não tenho dinheiro para as dispesas. Não tenho. São muitos os remédios. Muitas as dores.

Nesse momento minha luzinha interna começou a funcionar. Lembrei de Clayton. Brincavamos juntos escorregando no beco coberto de lôdo ao lado da casa dele. Como aquela criança, hoje oficial da aeronautica, veio a ser um homem que deixa sua própria mãe se acabar daquele jeito? Imaginei possíveis brigas entre ele e a ela. Talvez uma briga enorme pudesse justificar uma tal situação. Julgo que não. A força que movia minha luz se tornou mais forte. Lembrei das peladas com outros amigos. Outras crianças. Sim. Crianças. Hoje, elas são outra coisa. Ou simplesmente não são. A conversa com Vandinho foi assim:

-Porra bicho, quanto tempo. Pai, olha Paulinho. Lembra dele?

-Muito tempo mesmo. Já tens duas filhas! Porra, e grandes desse jeito! Estamos ficando velhos.

-Pois é Paulinho. As duas são minha vida. Minha e de Claudinha.

Ao ouvir falar de Claudinha me veio a mente o nome do irmão dela, Quênio. Eu tive notícias dele por um outro amigo, mas não lembrava bem quais. Aí perguntei:

-E Quênio, o que aconteceu com ele? (Nesse momento Claudinha não estava por perto).

-(Chamando-me um pouco para o lado, mudando o tom da voz e olhando como se estivesse desconfiado, descreveu ) – Paulinho, apagaram o cara. Mas o bicho tava foda. Ninguém segurava ele. Claudinha gostava muito dele, mas ele tava foda. Todo mundo queria o gogó dele. Ele tentou matar um capitão da polícia aí. Aí já viu. Ele estava já na entrada da casa dele quando pegaram. Ele tentou fugir, mas acertaram a perna dele. Depois pegaram e acertaram por trás da cabeça, o tiro saiu pelo olho. Ficaram ainda atirando para cima, para comemorar…

Vandinho contava e eu ficava a tentar imaginar o sofrimento da família de Quênio, do de Claudinha, a irmã que tanto o amava. Eu joguei bola com Quênio. Eramos crianças. Naquele mesmo lugar, com aquelas mesmas pessoas.

Drumomnd usava a lanterna dele para dar um mergulho no divino. Dizia ele fazer isso até que um dia cansasse e quisesse inventar uma outra dinvindade. Eu, menos poeta, e talvez por isso menos poderoso, gostaria apenas de esconder as pilhas, para não sofrer com minha luz iluminadora de morbidos inexplicáveis.

Se meu olhar relativisa a dor, se ele é apenas um olhar, difícil é ainda dizer relativo o sofrimento de dona Iracema, daquela perna enferma, da agonia de não ser ajudada pelo filho.Quem dera poder tirar a pilha, esconder-me da dor de Claudinha…

Apaguem todas as luzes antes de dormir. Apaguem. Claudinha, duma bem e com os anjos.

Jampa.

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