Conversando com a sociologia (E dialogando com outros jovens melancólicos)

Tive minha primeira conversa com meu orientador de pesquisa. Boas horas de Padaria Espiritual, de questões sobre os poderes heurísticos de certos “conceitos bourdivinos”( Arron brincava assim falando das noções do jovém Bourdieu), de propostas e programas de análise para “O pão” e, talvez esta a melhor parte, de trocas mais pessoais sobre os diferentes percursos do aluno, agora pesquisador, e do ainda estudante, quem sabe um dia profissional da pesquisa.

Assim conto as coisas ditas.

Ele falou-me do porquê começou a fazer sociologia. Na época, disse ele, acreditava poder mudar o mundo através da ciência. Como a disciplina aparecia-lhe naquele período como altamente revolucionária, isso foi motivo suficiente para deixar a universidade de medicina e se engajar naquela ciência do social subversiva e potencialmente transformadora. Disse-me ainda que não continuaria os estudos começados sobre a Padaria Espiritual por causa da limitação dele com relação ao português. Expressou alegria com meu entusiasmo e motivou-me a continuar. Pareceu-me um sociológo extremamente tímido e pouco vaidoso.

Ele contava essas coisinhas de sua carreira com uma certa alegria. Um ar vivo de uma acumulação feita por decepções e descorbertas. Quando eu falava de minha impressão de inadaptação ao “ofício de sociólogo”(fazendo referência ao livro “metier de siciologue”), tratou logo de acalmar-me dizendo que sentia ainda hoje o mesmo, depois de tantos anos de pesquisa.E acrescentou: há alguns colegas de trabalho que por algum motivo insistem em mentir para os estudantes, mas se somos honestos conosco,devemos admitir que essa impressão de inadaptação é parte integrante de nossa profissão.

Depois ele falou um pouco de uma crise teórica dele. Da relação dele com a sociologia de Bourdieu e dos limites e qualidades da mesma. Foi um excelentre encontro.

Assim conto da introspecção.(O que pensei depois da conversa)

Alí pensei nos passos dados por mim. Como cheguei na sociologia. E o que me fez continuar apesar de todo o sentimento de impotência diante dos livros, da escrita, da erudiação alheia. Digo isso sem esquecer de minha fortuna inicial. Estudei em colégio particular e nele tive oportunidade de reunir alguns elementos necessários para a vida acadêmica. Contudo, o sentimento de incompetência e de preguiça adam sempre de par com a certeza da impotência diante da violência que é aprender(para mim). Dizer sim ao arbitrário da cultura escolar, coisa que fiz apenas em parte, é ceder de maneira resignada a um outro arbitrário, o da autoridade pedagógica e seus ilustres representantes( em geral professores no caso da instituição escolar e pais no caso da familiar).E é sim por causa dessa dupla de arbitrários que toda ação pedagógica, em teoria, é uma violência simbólica: ela é imposição de uma cultura “escolhida” (mas escolhida sem niguém escolher)aos individuos a serem educados. Passo necessário(socialmente) e difícil (individualmente) a “aceitação” da cultura escolar (que é sempre imcompleta) é, objetivamente, mais dificil para uns que para outros por causa das lógicas de reprodução das desigualdades existentes. Pois numa sociedade na qual se opera de maneira mais ou menos rígida, num determinado período da sua história, o vínculo entre duas formas de reprodução, a escolar e a social,nela, é possível notar a centralidade da relação de tipo cultura dominante/cultura dos dominates…

E relembrava pensando: Sociologia para que? No início, ainda na UFPE, tentava entender as razões dos diferentes destinos dos seres humanos. Pobres, por que pobres? Ricos, por que ricos? E também, talvez mais ainda, por que alguns pobres ficam ricos e outros não? Por que alguns ricos ficam pobres e outros não? O que impede, o que torna possível? Mudança, reprodução. O mesmo, mas outro. O outro, mas ainda assim, o mesmo.

Acho que já por essas questões e constatações cheguei a ir com Cesar à UR-6, ainda no primeiro período do curso, se a memória é boa, para entrevistar uma amiga sobre o tema da morte ou algo assim. Lembro que Cesar se impressionou com a “naturalidade” com a qual eram tradados a violência, o assassinato, o extermínio, os crimes em geral. Minha amiga dizia: “ah, fulaninho, aquele alí morreu assim e assado. Ah, beltrano, aquele alí tinha mais jeito não, pegaram ele e fizeram isso e aquilo…” E os nomes e as formas de matar e morrer e mais nomes e mais mortes e mais formas e tudo o mais entrava no discurso como se ela estivesse falando de um capítulo da última novela. Creio que depois desistimos: talvez nunca se esteja pronto pra uma sociologia da verdade de verdade. Não sabia ainda o que um sociólogo fazia, mas o mundo real que um cientista deveria “desvendar” pareceu-me perto daquilo alí. Depois, vindo mais para o presente, acho que tenho perdido essa ilusão positivista da sociologia e do mundo social que ela tenta abarcar. Aos poucos e aos trancos e barrancos, na medida em que avanço em meus estudos, tenho tido a oportunidade de entender meus limites e controlar os desejos extrapolados de entender e explicar o mundo. Paradoxalmente, com mais calma, o meu “mudar a sociedade” parece estar menos necessariamente atrelado ao entendimento sociológico do mundo. Claro que o conhecimento adquirido e produzido pela sociologia pode ser utilizado, na minha opinião, para dar suporte as minhas convicções políticas. Mas ele não engendra necessariamente uma postura normativa do tipo “isso é científico então devemos fazer isso ou aquilo”. Penso por fim que é de uma consciência desse tipo, ou bem parecida, de onde o meu orientador tirava seu ar um pouco melancólico, porém satisfeito. No fundo vejo minha felicidade num tipo de serenidade plena de melancolia e esperança, repleta de passado e futuro. E o presente? O presente é para mim moderno, tempo de mudanças, devo estar mudando…

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