Lamento lastimável

Volto a escrever nesse blogue. Motivo: novamente indignação. Quase nunca leio os “artigos” do JC. Hoje li porque um título despertou minha curiosidade. “Chame o ladrão”. Curioso para ouvir o autor: José Paulo Cavalcanti Filho, advogado.

Vou tratar deste texto como trato das entrevistas em sociologia: vigiando a “voz de classe”, as “visões de classe” ; encontrando no discurso do autor os elementos delimitadores do nosso fosso social.

Então vou proceder da seguinte maneira. Depois da leitura do texto, o “contrôle” do discurso será destacado com letras em outra fonte assim também como meus comentários. Antes de começar é importante dizer que minhas opiniões não terão força sociológica propriamente dita, pois, sendo apenas análise de um texto, ele serveria apenas de indicador para confrontações com outras “vozes” sejam elas de classe ou idividuais. Além disso, eu me posiciono em muitos momentos. E não quis controlar isso…

Vamos ao texto.

Chame o ladrão (O título faz lembrar uma célebre música de Chico Buarque. O Ricardão de olhos verdes a compôs durante o período da ditadura militar. Se o título deste artigo lembra a música, o pano de fundo moral do discurso de Cavalcanti Filho deforma a tonalidade da inrônia com a qual se trata o problema da violência. Se comparamos com a (irônia) de Chico, na qual subentende-se uma crítica social portando sobre o regime totalitário e a incapacidade da polícia de incarnar a legitimidade de seu poder de uso da violência, a de Cavalcanti ilustra apenas um desabuso com um estado de coisas que fogem ao seu contrôle pessoal. Mais. Sem perceber, ele acentua e re-produz de maneira quase expressionista a violência a qual pensa criticar. Veremos.)
Publicado em 25.03.2005

JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO

De novo. Agora o furto foi no escritório. Estatisticamente, era mesmo de esperar. O Recife vai ficando difícil de se viver. E ruim nem é ser assaltado. Pior que o assalto em si é a sensação de insegurança que nos acompanha, por toda parte, por tanto tempo mais no futuro. É a falta de pequenos objetos, que não querem dizer nada para os ladrões, e dizem tanto para a gente. É o sentimento de revolta, em nosso íntimo, por ver o suor do rosto, tantas noites sem dormir, tudo embolsado por folgados. Nessas horas, com toda sinceridade, dá vontade de matar um desses miseráveis, se por acaso o tivermos na frente. (grifos meus)

(A indignação do autor passa por vários sentimentos : pela “insegurança”,pelo “apego aos pequenos objetos” – sem importância para os ladrões-, pela “revolta”. Essas sensações parecem ser legítimas e não revelam por si mesmas a natureza da violência social camuflada. A violência social é presente durante todo o texto sob a forma da incompreensão dos universos sociais cindidos entre si pelo hiato das desigualdades mais diversas. Adjetivando como “folgados” os ladrões, o autor garante desde início a tônica da completa distinção entre especies sociais antinômicas: de um lado a dos homens de trabalho-“noites sem dormir”, “suor no rosto”-, do outro lado a dos “miseráveis” que estão tão distantes da do “trabalhador” que a “vontade de matar” do lesado pode até parecer justificável. Na minha opinião é esse fosso social reperável pela ausência de preocupação com as reais causas da violência, é ele um dos maiores responsáveis pelo estado lastimável de nossas cidades no que diz respeito à violência. )

Janeiro passado andei por Lisboa. À noite íamos jantar com amigos em restaurantes tradicionais, quase todos na baixa pombalina – Gambrinos, Pinóchio, As Velhas, Leão D’Oiro, Martinho do Arcada. E voltávamos sempre a pé, para o hotel, no fim da Avenida da Liberdade. Andávamos quase dois quilômetros, passeando. Já madrugada. O tempo de fumar um charuto. E nunca nos sentirmos em risco. Definitivamente, Lisboa não é o Recife.

( Um parágrafo tautológico muito interessante. Não só porque seja ridícula a comparação entre Lisboa e Recife, mas por causa da marca de posição de classe que ela indica. Fiquei a imaginar só por birra os ladrões do escritório dele indo jantar na baixa pombalina, passando pelo à Brasileira café e querendo levar a estatua do Pessoa sentado para casa. Recife não é Lisboa. Com medo e sentado durante a noite na praça do Marco Zero do Recife podemos hoje gritar para ver se português escuta: “Oh Mar salgado quanto do teu sal não são lágrimas da inveja dos recifences abastados vindos de Portugal”. Falar de violência sem se perguntar sobre as razões sociais da mesma? Por que Recife não é Lisboa? Por que os ladrões Lisboetas são tão bons, tão simpáticos ora pois?)

Faço inventário do que perdi. Um serviço de som. Não lamento. Até foi bom. Que agora consigo ouvir os barulhos da cidade. E rolinhas, beija-flores, sabiás e bem-te-vis que vêm ao terraço aberto que dá para minha sala, em busca de água com açúcar, alpiste e pão doce. Um pouco de poesia contaminando os interesses econômicos do dia-a-dia. Uma calculadora HP. Também não lamento. Primeiro, porque posso comprar outra igual. Segundo porque, com ela, só contava números. E, não, o inexorável passar do tempo – que é o que conta, em nossa vida breve.

(Poesia, ora pois, é uma forma de se distinguir dos ladrões. Prova disso, é que no parágrafo seguinte os ladrões recifenses são caracterizandos pelo fato de não roubarem livros. Em nenhum momento do texto as razões sociais da existência desse tipo de pessoa são evocadas. Isso é um indício forte da cisão social existente entre mundos dispares. E o tipo de texto ensina algo da própria lógica do ciclo de violência que se forma e almenta a cada dia. O outro(sendo o outro do rico o ladrão, e o outro do ladrão o rico) é naturalizado enquanto tal de um lado e de outro de cada mundo. Não existe comunicação possível. )

Ainda um peso francês de papel, lembrança de minha irmã Lia. Saudades de Lia. Não fará falta. Que papéis, depois do ar-condicionado, não voam mais. Livros não levaram. Ladrão recifense não leva livro, nunca. Mesmo sendo raros, ou em outras línguas, não levam. Talões de cheque deixaram pelo chão. Levaram dois, já sustados. Só lamento que estejam dando prejuízo ao comércio recifense, com ele. Foi-se também um tinteiro Mont-Blac. Vazio. Ficou a caneta e levaram o tinteiro. Não dá para entender. Mas também levaram bolachas cream-craker, uma caixa de fósforos longos Fiat-Lux e um tubo quase vazio de Biorene. Mandei comprar outro. Custou três reais. Não dá para entender.

Do que se foi, lamento só duas perdas. Primeiro, meus charutos. O miserável abriu a caixa e levou meus charutos! Sem a caixa. Como se ela não coubesse na mão, e sobrasse espaço nos bolsos. É um absurdo! Onde vamos parar! Ladrão roubando charutos? Deixou canetas caras, (presente de amigos), quadros e inventou logo de levar meus charutos? Atenção Polícia. Se em alguma favela por aí, encontrar desocupado fumando um puro, pode prender. Não tem erro.

(Não sei se todo mundo percebe aquilo que essa frase condensa de violência social e simbólica. Primeiro Cavalcanti não entende e inroniza o ato dos malfeitores (claro, pois o autor acredita que os ladrões são burros porque não reconhecem os mesmos códigos que ele- por que será que eles deixaram as tais “canetas caras”?)-, e depois, de maneira honesta localiza de onde vem o mal, uma favela. Como charuto puro não é coisa de pobre, bem, podem prender o safado que tiver fumando um puro, não tem erro. O fato é que a distância entre as classes sociais nunca poderia ser tão forte e tão violênta. A naturalização da natureza da posição social do outro – uma posição apresentada como puramente geográfica: “alguma favela”) é o que oculta o hiato das posições sociais. A socialização produtora de um advogado é tão distinta da do ladrão que o advogado não consegue visualizar num texto nenhum elemento da formação social do outro.)

Mas lamento, sobretudo, por uma pequena faquinha de prata, bem simples, de abrir correspondência. Era do meu pai. Me deu, pouco antes de morrer. Quando um objeto como esse vai embora, é um pedaço da vida da gente que se perde. Esses bandidos jamais terão pressentido o mal que me fizeram, levando aquela faquinha. Se estiverem lendo essas mal traçadas linhas – não é provável, quem sabe se compadecem e devolvem. Desde já agradeço. Com o coração.

Hoje é sexta-feira santa. Dia de milagres impossíveis. Se algum anjo ou milagreiro estiver de plantão, então quem sabe acabe ouvindo as súplicas de um pobre pecador. E por bênção divina, ou por não ter melhor coisa a fazer, então me dará o prêmio de fazer com que a faquinha volte a seu lugar. Que é ao meu lado. Para sempre.

(Não sabe ele o risco de uma tal frase. Vai que milagre existe e o ladrão sabe ler. Vai que leva a faquinha e o para sempre a sério… A morte ainda é universal nesse sentido.)


José Paulo Cavalcanti Filho é advogado. jp@jpc.com.br


Jampa.

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