Autobiografia de um desclassificado(Plágio auto-autorizado)


O normal é escrever esse tipo de auto-denuncia de si em primeira pessoa. Bom para o blogue: eu isso, eu aquilo, eu também. Mas num estilo indireto talvez a impressão da distância seja reveladora de uma condição menos individual. Bem, o leitor é quem dirá. Esse texto é uma forma de dizer mais explicitamente(principalmente para Lenina) como deviam ser entendidas minhas confissões blogueiras.

Venho falar desse cara desterrado e insastisfeito. Sujeito caracterizado por uma atitude em relação à cultura de inegável desconforto e a quem o mal estar se apresenta por uma inadaptação fundamental: ele se sente bem superior à classe de origem dele para partilhar a complacência resignada e feliz dos outros membros da referida classe com respeito a eles mesmos. Nele a insastifação e ansiedade que percorrem todas as classes são levadas ao paroxismo, pois ele é sentimentalmente cortado de seu ambiente original por qualidades que, como a vivacidade de imaginação e espírito crítico, lhe dão uma consciência aguda e mais dolorosa da ambigüidade de sua condição. Esse “desclassificado por cima” não é necessariamente um nevrotico, mas possue esse desequilibrio patológico implícito de um individuo de vida aparentemente normal e que conquistou uma situação mais ou menos bem estabelecida.

Todo garoto de origem popular que consegue dar continuidade a seus estudos até a universidade é levado, mais cedo ou mais tarde, a entrar em conflito com o universo familiar. Talvez no Brasil esse menino possa vir de outras classes, visto a quantidade de incultos em todas as classes sociais. Mas nos atenhamos ao desterrado de classe. Ele se encontra, com efeito, no ponto de (des)encontro entre duas culturas. Ele pode ser um bom exemplo analítico. Pois tal qual uma arvore transplantada, o intelectual de origem popular reage mais rapidamente às novidades do que uma arvore de mesma espécie não transportada. O exemplo dele é típico do fenômeno de ajustamento social, mas é também específico. Evidentemente teríamos que distinguir entre dois tipos de desterrados: aqueles de origem popular que conseguiram fazer de sua adaptação à escola algo de apenas suficiente para cortar o cordão umbilical de classe e aqueles sujeitos que chegaram a ter uma “bela carreira”. Estes últimos traduzem sua inadaptação por uma tendencia à uma atuação carismática da personalidade, por um retorno interminável às maneiras rudes e aos gestos rusticos, pelo gosto da proeza verbal. Muitos são os casos intermediários, tentemos descrevê-los.

Quem é(são)? Como se fez(fazem)?

Imaginemos que durante toda sua infância, depois sua adolescência, ele vai progressivamente se distanciando da vida contidiana do seu meio de origem. Ele é um estudante marcado tanto pelos elogios dos professores primários quanto pelos dos familiares. Dizem com admiração: “brilhante”, “ele tem um cerebro”, “é uma cabeça”, “ele trabalha bem na escola”. Ele é o tipo de estudante que obedece, mais do que qualquer outro, a influência dos valores escolares. Não seria exagerado dizer que é resistindo a qualidade principal da vida de sua classe popular, resistindo à intensidade das trocas familiares, que o aluno vai dando seus passos em direção a uma longa caminhada em direção da solidão, ou, talvez, a caminho de uma integração a outro grupo. Paradoxalmente esse esforço é mais duro e necessário na medida em que se vive em um ambiente familiar feliz, pois as casas mais equilibradas são ao mesmo tempo, freqüentemente, aquelas onde a vida comunitária é mais intensa.

Mas podemos imaginá-lo de maneira diferente. Como caso tardivo. Descreditado pela experiência escolar primária, ele enfrenta a sensação de atraso, de inconforto com a solidão por causa da plena participação e aceitação inicial aos valores de sua classe de origem durante o período de alfabetização. Mesmo sendo um fracasso escolar, ele vai assimilando um conhecimento básico que no futuro será seu suporte tecnico para o mundo universitário. Contudo, como no caso do estudante brilhante, ele vive entre dois mundos que quase nada têm em comum entre si: o da escola(onde o ambiente é burguês e pequeno burguês, possivelmente numa escola particular) e o da comunidade familiar(onde o mesmo ambiente escolar não é vivido da mesma maneira, possivelmente fora vivido numa escola pública). No segundo grau ele aprende rapidamente a utilizar os dois sotaques(comunitário e escolar-burguês), talvez mesmo a se transformar em dois personagens e a obedecer em alternância dois códigos culturais. Seu desejo mais profundo é o de comunicar os dois mundos. Por isso, de vez em quando, tenta falar da universidade em casa, daquilo que aprendeu por intermédio de um professor. As pessoas escutam-lhe com o maior interesse, mesmo sem entender muita coisa. Estilhaçado por dentro ele insiste, seu desejo mais profundo é mesmo o da conciliação entre os dois universos.

Esse cara pode ser o mesmo engalfinhado por não participar integralmente ao mundo com o qual começou a se indetificar. Ele tem capacidade suficiente para entender sua posição. Percebe, jogou-se de corpo inteiro em leituras desordenadas esperando da literatura coisa a mais do que ela poderia lhe dar. Em resumo ele joga o pequeno jogo que é esvaziar o balão da razão sistemática, mas lhe faltam a facilidade e a desenvoltura dos cinicos que têm certeza de suas capacidades intelectuais. Um eterno romântico frustrado. Alguém penetrado da necessidade de engajamento (intelectual e outro), mas realizando-o raramente, pois é dificil ainda acreditar que o seu caminho tenha valido a pena: ele continua em cima de uma bordura e se transforma em um nostalgico “que poderia ter sido, se tivesse desejado”.

Jampa.

Ps: Claro, isso não é tudo. Mas deu preguiça.

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