Variações literárias de um cobrador (tentativa)

Na hora do pico a mente e o corpo são um. Daí a sua capacidade de receber dinheiro de um passageiro, calcular o troco de um outro, sem perder de vista a gostosa sentada ao lado da cadeira do motorista. Moédas, trocados, passageiros : a roleta sempre controlada pelo joelho. E a música…

«… Rema, rema, rema remador. Vou botar no cu do cobrador… »

O time perdendo ou ganhando, não importa. Remador pede cobrador. Rima, explicam.

No fim do expediente sempre existem a fatiga e uma pergunta : o que teria sido se não fosse cobrador?

Sexta-feira, um deles teminou o trabalho. Seguimos o dito cujo. Queremos saber tudo.

Horário pacato, tempo de dar asas a imaginação.

– « E aí cobrador, o que é que você quer ser quando… ? »
– « Um grande escritor. »
– « Como assim grande escritor? explica isso melhor. »
– « Um escritor cobrador, ou um cobrador escritor. Como queiram ! »

Logo em seguinda o inusitado escritor acrescentou de supetão :

– « quero produzir textos para controlar mais da vida. Fazendo uma comparação sabe, dou sempre o exemplo do joelho na roleta. Gosto dessa analogia. Tenho talento. Não quero dizer com isso que só passa quem eu quiser.Não é isso.Se a palavra tiver o passe adequado(como o passageiro), bem, no meu caso é mais se o passe forma a palavra adequada, se ele forma aí vira texto, entendem? Assim é muito parecido com a roleta e os passageiros.»

Depois dessas palavras decidiu continuar(empolgou-se) :

-« alguns sonhos são realidade. »

Desconfiados, fomos atrás de pistas mais seguras para assegurar o depoimento. Uma aula de jornalismo. Encontramos um especialista no assunto. Um crítico que observou o artista e analisou a obra do cobrador. Intelectual requintado nos disse que:

-« a arte dele é de brincadeira. »

Depois completou com uma descrição erudita e meio que entnológica :

-« o cobrador artista brincou com as tabelas de passe estudantil e vale-transporte . Irônico como Voltaire. Com sarcasmo à Machado de Assis. Ele começou a colar os passes A, B e C no papel quadriculado. Como classificá-lo ? Inovador condiz, mas explica pouco sobre a prática do artista. Digo, do cobrador. O chamaria de fundador dos cobradores semi-dadaístas. De sua obra prima, que é sem dúvida o texto em seis letras intitulado ‘B -A- B – A- C- A’, diria ser uma espécie de nova expressão do desespero contido e traduzido pelo dengo silêncioso da cobrança. Todo cobrador cobra. Diria mais, o texto erige uma automanipulação de letras instrumentalizadas passse a passe ».

Voltamos ao cobrador escritor e constatamos seu tino de artista. Como um verdadeiro escritor lamentou o comentário do crítico dizendo :

-« Ele parece um passageiro. Não se pergunta sobre qual a dor do cobrador ? Qual a cobrança ? »

Cansados e sem respostas, acompanhamos o cobrador e artista até o ônibus e o vimos partir. Cremos que pensava nas moédas, trocados e passageiros. Na roleta controlada pelo joelho. Na gostosa ao lado do motorista. Na música… na literatura, quem sabe.

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