Pensamento positivo e postura crítica

Quem usa internet já recebeu no mínimo uma dessas mensagens de “auto-ajuda” onde a chamada “confiança de si” aparece como elemento fundamental para “a valorização de si mesmo”. No pano de fundo dos argumentos usados nessas correntes cheias de receitas fáceis e mágicas da não menos famosa “auto-realização” encontramos sempre o dito:” se você mesmo não confiar em você, quem vai confiar?” A facilidade na recepção(muita gente gosta e se sente realmente melhor lendo esses textos) e a expansão do receituário de um tal princípio( “só depende de você”) talvez venha das estratégias publicitárias presentes na retórica dessa “filosofia da felicidade”. Ou seja, sendo uma forma de saber saborosa porque sempre oculta o lado pesado da “sobredeterminação individual” (ele não descreve, por exemplo, os horrores contidos na “responsabilidade do sujeito” diante de um “si mesmo perdido a se achar”), esse conto encantado de existências inexistentes trata, como é próprio do conto, de recriar a realidade a seu prazer e termina por declinar as froteiras do real(como se elas fossem declináveis) deixando ainda mais difícil para os individuos que aceitam um tal discurso de encontrar mecanismos mais eficientes de busca por liberdade.
Exemplo disso é o último texto que recebi nesse sentido. Vejamos. (Meu comentário vai no final)
“O Anel
Um aluno chegou a seu professor com um problema:
– Venho aqui, professor, porque me sinto pouca coisa, por que não tenho forças para fazer nada. Dizem que não sirvo para nada, que não faço nada bem, que sou lerdo e muito idiota. Como posso melhorar? Oque posso fazer para que me valorizem mais?
O professor sem olhá-lo, disse:
– Sinto muito meu jovem, mas agora não posso ajudá-lo, devo primeiro resolver meu próprio problema. Talvez depois.
E fazendo uma pausa falou:
– Se você me ajudar, eu posso resolver meu problema com mais rapidez edepois talvez possa ajudar você a resolver o seu.
– C…Claro, professor, gaguejou o jovem, mas se sentiu outra vez desvalorizado.
O professor tirou um anel que usava no dedo pequeno, deu ao garoto e disse:
– Pegue este anel e vá até o mercado. Você deve vendê-lo porque tenho que pagar uma divida. Eu preciso que obtenha pelo anel o máximo possível, mas não aceite menos que uma moeda de ouro. Vá e volte com a moeda o mais rápido possível.
O jovem pegou o anel e partiu. Mal chegou ao mercado começou a oferecer o anel aos mercadores. Eles olhavam com algum interesse, até quando o jovem dizia o quanto pretendia pelo anel.
Quando o jovem mencionava uma moeda de ouro, alguns riam outros saiam sem ao menos olhar para ele, mas só um velhinho foi amável a ponto de explicar que uma moeda de ouro era muito valiosa para comprar um anel.Tentando ajudar o jovem, chegaram a oferecer uma moeda de prata e mais uma de cobre, mas o jovem seguia as instruções de não aceitar menos que uma moeda de ouro e recusava as ofertas.
Depois de oferecer a jóia a todos que passavam pelo mercado e abatidopelo fracasso, resolveu voltar.
O jovem desejou ter uma moeda de ouro para que ele mesmo pudessecomprar o anel, livrando assim a preocupação de seu professor epodendo receber sua ajuda e conselhos.
Ele entrou na casa e disse:
– Professor, sinto muito, mas é impossível de conseguir o que me pediu. Talvez pudesse conseguir 2 ou 3 moedas de prata, mas não acho que se possa
enganar alguém sobre o valor do anel.
– Importante o que me disse meu jovem, contestou o Professor sorridente.
– Devemos primeiro saber o valor do anel. Vá até o joalheiro. Quem melhor para saber o valor exato do anel? Diga que quer vender o anel e pergunte quanto ele te dá por ele. Mas não importa o quanto ele te ofereça, não o venda. Volte aqui com meu anel.
O jovem foi até o joalheiro e lhe deu o anel para examinar. Ojoalheiro examinou o anel com uma lupa, pesou o anel e disse:
– Diga ao seu professor que, se ele quer vender agora, não posso darmais que 58 moedas de ouro pelo anel.
– 58 MOEDAS DE OURO! Exclamou o jovem.
– Sim, replicou o joalheiro, eu sei que com tempo eu poderia oferecercerca de 70 moedas, mas se a venda é urgente…
O jovem correu emocionado para a casa do professor para contar o que ocorreu.
– Senta, disse o professor depois de ouvir tudo que o jovem lhe contou, e d=isse:
– Você é como esse anel, uma jóia valiosa e única. Só pode ser avaliada por um especialista. Pensava que qualquer um podia descobrir o seu verdadeiro valor?
E dizendo isso voltou a colocar o anel no dedo.
– Todos nós somos como esta jóia. Valiosos e únicos e andamos por todos os mercados da vida pretendendo que pessoas inexperientes nos valorizem.
Repense o seu valor !
Nós valemos muito mais do que imaginamos valer!
Bom dia para todos!!!”
A mensagem é bonitinha, mas infelizmente em nosso mundo, existe uma real economia social dos valores. Na nossa vida real os especialistas em “jóias” são muitos e, como um professor numa escola qualquer, arbritam a quatidade de riqueza (escolar, social, etc.) das crianças colocando-as desde de cedo no mercado do quem vale mais. Pior, esses especialistas explicam e inculcam por quais razões valemos mais ou menos( para ficar no mesmo exemplo da escola, as classificações são numerosas nos quilates das jóias escolares: “inteligente”, “trabalhador”, “brilhante”, “tem facilide, mas não trabalha”, “idiota”, “burro”, etc .)
Apesar de gostar do espírito da mensagem acho bom ponderar sobre seu real siginificado que oculta os mecanismos mais comuns de distinção social como se pudessemos sair do jogo e colocar entre parenteses “a opinião dos outros”. Mesmo com boa vontade o individuo que ocupa uma posição de dominado num espaço social não vai entender porque com todo o seu desejo, com toda sua ”auto-estima’,’ sua posição naquele universo continuará a não ser valorizada. Se auto-valorizar não parece assim ser solução que tente realmente resolver qualquer problema e tirar o individuo da situação de dominação que é a de depender dos famosos especialistas... Teria ele mais chance de conseguir sua liberdade se, tomando distância dos mecanismos de dominação e se reapropriando dos instrumentos que servem a produzir sua situação de dominado, entrasse de fato no jogo de classificação e reclassificação que dita no mundo social os valores das coisas e das pessoas.
Jampa

Pausa

… Escrevo. Hoje. Dizer que tudo parece Brasil. Hoje. Comer. E dizer que preocupado com noticias da California. Blogue acalmou. Mas Brasil devora tranquilidade… Brasil canibal parece todo tempo o tempo todo. Na Francofonia lasco-me. Mas noticias tupiniquins piniqueiras doem. Tudo dolorido… o mundo parece o Brasil.
Sem tempo.
Trabalho.
Ate Breve.

Sobre a saudade do futuro (cuspindo no prato que comeu)

Já recebi de muitos amigos e-mail com conteúdo nostalgico. E continuo recebendo. Sendo um jovém saudosista tendo a gostar das lembranças trazidas via internet. Saudades de um tempo perdido, de um mundo aparentemente mais seguro, menos desencantado. Contudo, por pura birra comigo e com os da minha geração, insisto em me perguntar: por que é que minha juventude envelheceu tão rápido?
Não julgo a velhice. Percebem? Mas nos velhos esse recuo ao passado parece inevitável. Com a morte pairando como possibilidade presente (nos sentidos temporal e existencial da palavra) reclinar-se no tempo parece ser adequado vista a esperança de vida objetivamente limitada. Em nossos avós ver e escutar com carinhos todas aquelas histórias de um tempo vivido, ora na dor ora na alegria, parece normal. Faz parte da lógica das coisas. Os idosos têm nesse sentido legitimidade ao reivindicar o passado, a saudade do tempo perdido no tempo.
Não tenho a mesma impressão de nós.
Tenho a impressão de sentir falta de uma época onde a palavra futuro fazia parte do presente. Agora entendo melhor o que Cesar quis dizer num texto sobre o horizonte. Falta-nos esse tempo do agora contagiado pela idéia de um plano coletivo, de projeto, de uma projeção. O agora estancou em si. O dia a dia é mais dia a dia do que antes o era. São coisas da violência cotidiana. Um presidente saindo, outro entrando. Tudo naturaliza-se com uma rapidez incrível. A surpreza nunca foi sentimento tão efêmero, quando ainda existente. A esperança venceu o medo e perdeu-se na política econômica: gramática performativa de um crescimento sempre invisível em termos sociais. Mas presente, mais uma vez presente em todos os discursos e sentidos. Tudo é presente. Quando não é, é passado. Parece jogo de palavras. O pior é que não é.
E nós jovéns?
Ficamos a lembrar por quais razões? Por que trazemos ao hoje essas recordações mais ou menos formatadas pela televisão? O que nos leva a ler e a sentir prazer com esses e-mails quase sebastianistas de tão atrelados a vontade da volta do rei-alegria, da rainha-infância? Recondações comuns que vão do TV pirata à Xuxa, de Pirata do Espaço à Caverna do Dragão, do jogo eletrônico Gênius ao Pirocoptero. E por que em nossas lembranças seguras (o passado parece não mudar) fica aquele gostinho de uma alegria que deve ser protegida, guardade com carinho no recôndito de nossa memória?
Julgo que se assim o fazemos é porque o presente apresenta um horizonte macabro onde a felicidade da vida já encontrou uma temporalidade própria: o passado. E num país com tanto a se fazer (não me refiro ao “Brasil: país do futuro” da era Vargas), isso não parece sádio, mesmo quando faz bem ao espírito seduzido pelo paraíso prustiano da paz infato-juvenil.
Acho que deveríamos ser mais críticos dessa realidade resignada, desse “presentismo” impregnado de passado amorfo (mesmo si encantado em nossas memórias). As vezes cuspir no prato que comeu pode apenas indicar a falta de àgua…
Não queria terminar assim: mas no presente defendo a teoria do cuspir no prato. Claro, no sentido de limpar os restos(coisas do passado) para deixar o dito cujo pronto para uma nova refeição(um projeto).