Sobre a saudade do futuro (cuspindo no prato que comeu)

Já recebi de muitos amigos e-mail com conteúdo nostalgico. E continuo recebendo. Sendo um jovém saudosista tendo a gostar das lembranças trazidas via internet. Saudades de um tempo perdido, de um mundo aparentemente mais seguro, menos desencantado. Contudo, por pura birra comigo e com os da minha geração, insisto em me perguntar: por que é que minha juventude envelheceu tão rápido?
Não julgo a velhice. Percebem? Mas nos velhos esse recuo ao passado parece inevitável. Com a morte pairando como possibilidade presente (nos sentidos temporal e existencial da palavra) reclinar-se no tempo parece ser adequado vista a esperança de vida objetivamente limitada. Em nossos avós ver e escutar com carinhos todas aquelas histórias de um tempo vivido, ora na dor ora na alegria, parece normal. Faz parte da lógica das coisas. Os idosos têm nesse sentido legitimidade ao reivindicar o passado, a saudade do tempo perdido no tempo.
Não tenho a mesma impressão de nós.
Tenho a impressão de sentir falta de uma época onde a palavra futuro fazia parte do presente. Agora entendo melhor o que Cesar quis dizer num texto sobre o horizonte. Falta-nos esse tempo do agora contagiado pela idéia de um plano coletivo, de projeto, de uma projeção. O agora estancou em si. O dia a dia é mais dia a dia do que antes o era. São coisas da violência cotidiana. Um presidente saindo, outro entrando. Tudo naturaliza-se com uma rapidez incrível. A surpreza nunca foi sentimento tão efêmero, quando ainda existente. A esperança venceu o medo e perdeu-se na política econômica: gramática performativa de um crescimento sempre invisível em termos sociais. Mas presente, mais uma vez presente em todos os discursos e sentidos. Tudo é presente. Quando não é, é passado. Parece jogo de palavras. O pior é que não é.
E nós jovéns?
Ficamos a lembrar por quais razões? Por que trazemos ao hoje essas recordações mais ou menos formatadas pela televisão? O que nos leva a ler e a sentir prazer com esses e-mails quase sebastianistas de tão atrelados a vontade da volta do rei-alegria, da rainha-infância? Recondações comuns que vão do TV pirata à Xuxa, de Pirata do Espaço à Caverna do Dragão, do jogo eletrônico Gênius ao Pirocoptero. E por que em nossas lembranças seguras (o passado parece não mudar) fica aquele gostinho de uma alegria que deve ser protegida, guardade com carinho no recôndito de nossa memória?
Julgo que se assim o fazemos é porque o presente apresenta um horizonte macabro onde a felicidade da vida já encontrou uma temporalidade própria: o passado. E num país com tanto a se fazer (não me refiro ao “Brasil: país do futuro” da era Vargas), isso não parece sádio, mesmo quando faz bem ao espírito seduzido pelo paraíso prustiano da paz infato-juvenil.
Acho que deveríamos ser mais críticos dessa realidade resignada, desse “presentismo” impregnado de passado amorfo (mesmo si encantado em nossas memórias). As vezes cuspir no prato que comeu pode apenas indicar a falta de àgua…
Não queria terminar assim: mas no presente defendo a teoria do cuspir no prato. Claro, no sentido de limpar os restos(coisas do passado) para deixar o dito cujo pronto para uma nova refeição(um projeto).

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