Barbarie

No Brasil ouvimos com certa freqüencia a idéia auto-contemplatória de sermos um povo alegre ( ”o brasileiro é quem sabe fazer festa ”) , pacífico (”o Brasil é que é o país, não tem problema com terrorismo, não brigamos com niguém”) paciente( ”a esperança é a última que morre”), tranqüilo e amigo e caloroso…(“eles os estrangeiros são frios, nós não, nós sabemos acolher, estamos sempre com os braços abertos,etc.”).

O auto-engano é algo terrível.

{Violência

Assaltante de ônibus é linchado até a morte no Recife
Publicado em 14.10.2005, às 20h04
Do JC OnLineCom informações de Sílvio Menezes, do JC

Um assalto a um ônibus ocorrido no final da tarde desta sexta-feira, na BR-101, nas proximidades da Mangabeira, Zona Norte do Recife, deixou um saldo de duas pessoas mortas e uma ferida. Entre as vítimas fatais está um passageiro e um dos assaltantes, que foi rendido por um grupo de passageiros e linchado até a morte. Cerca de 30 pessoas estavam no ônibus interestadual da empresa Progresso, que ia do Recife para João Pessoa, na Paraíba.
Dois homens armados subiram no coletivo, que vinha do Terminal Integrado de Passageiros (TIP), em um ponto de ônibus localizado nas proximidades do terminal da Macaxeira. Pouco tempo depois, já na Mangabeira, eles anunciaram o assalto. Um deles se posicionou na parte da frente do veículo, de onde começou a recolher os pertences dos passageiros, e outro na parte de trás. Um dos passageiros discutiu com o bandido na traseira do veículo, sendo ameaçado com uma arma na cabeça. O irmão da vítima, o vigilante Gilmar Raimundo da Silva, 25 anos, ficou assustado e reagiu. Ele foi baleado na boca e morreu no local.
Na confusão, um grupo de passageiros conseguiu render um dos assaltantes e linchá-lo. O bandido morreu a caminho do hospital. O motorista do veículo também foi ferido com um tiro no pé, mas está fora de perigo. Já o outro assaltante conseguiu fugir com o dinheiro e pertences dos passageiros.}

… Não, violentos são os dinamarqueses. Os “cidadões de bem” do Brasil não cometeriam um crime tão ignóbil quanto o do assaltante tido como “mau elemento”. Não. O linchamento, apenas uma brincadeira lúdica no país do futebol, é brincar de quem chega primeiro na casa de Jesus. Por isso vamos armar ou deixar armados os nossos tais “cidadões de bem”, fazedores de justiça com as próprias mãos! Digamos sim, com o não, ao nosso paraíso hobbesiano! Nunca uma frase parece fazer tanta ressonância: olho por olho e o mundo(brasileiro) terminará cego. Uma nação de sega-vidas! E então é verdade que o prefixo cida da palavra cidadão equivale mais, no Brasil, ao sufixo cida da palavra homicida, aquele que mata… Votar sim não mudará muita coisa, mas votar não tem um significado simbólico importante: estamos na terra do salve-se quem puder!

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Recife e o medo da Etnologia

O cara chega cansado. Os olhos fundos. O sorriso pesado e difícil. Não dedica o tempo necessário ás observações. Os indícios, percebidos e memorizados de maneira precária, indicam a pouca solidariedade do mundo real com fatiga do ponto de vista. O olhar não basta. O descrever, ato necessário mas não suficiente, é e antecipa a dor e a nervura do real.

O doido chega e vai ao cinema MESC da cidade. (Ele é um Mesc, mas se considera um desprovido de mesquindade, a eidade de quem é mesc sem os atributos do MESC. Sem o habitus, sem esse eu adequadamente mediado por disposições duráveis de esvaziamento do ser, o cinema da Fundação se apresenta como um “chez soi” acolhedor, como um espaço percebido e por isso memo “apropriado” – sem próprios ou propri- etários, só propri-otários. Quem são os interlocutores?) O filme foi suavemente percebido, apreciado. Um filme asiático aí, disse na saída com ar mesquinho, ou seja, com uma pequena inclinação Mesc. Depois tinha o filme do Glauber, mas na avalição da proposta de ver Terra em Transe, o maluco hipostasiado pelo fuso pensou: “sem os comentários de Renato, o Glauber não parecerá mais o mesmo… saudade negligente da França e do amigo brasileiro que lá ficara ou medo provisório do presente contido na virulência (violenta?) estética e política do Cinema Novo? Desistiu.

Queria um ônibus, mas terminou pegando um taxi. Na fenomenologia do taxi o eu transcendental, a cada etapa da epoché, vai se desfazendo dos atributos concretos da coisa taxi para “expor” (pôr para fora, extrair) os elementos da “taxieidade” (experiência imediata do taxi) no momento mesmo da percepção. Eis o dialogo com o taxista( taxista entendido como atributo de difícil abstração no processo da redução fenomenológica do taxi, a dificuldade vindo de propriedades-atributo que lhes são próprias, históricas e presentes nele e “percebidas” pelo Mesc sem atributos mesquinhos):

Mesc sem atributos buscando redução fennomenológica (MescSABRF): ” E aí, como vai o movimento?” Muito Mesc a pergunta.

Taxista com habitus: ” A gente só anda com medo. O problema é que nós não paramos mais para todo mundo. Parei pra vocês porque ví de onde saíram.” (Pensei, ser Mesc salva quase sem salvo engano…)

MescSABRF: ” O senhor tem poucos clientes?” Olhe, ser Mesc é uma coisa triste.

Taxista com habitus: ” Ontém mesmo levaram um por mais de 400 km na mala. Depois deixaram o pobre diabo. Eu não paro mais à noite para jovens, nem para adulto homem. Parei para vocês porque além de ser um casal, ví de onde saíram.” (Fiquei impressionado com os atributos ‘positivos’ da mesqui(n)dade, cheghei até, por distração, a ter ogulho Mesc…)

Taxista com habitus: ” Desce logo que aqui é perigoso a essa hora. De todo jeito, onde não é?”

MescSABRF: “Obrigado. Pode ficar com o troco.”

Subindo para casa pensei pensando no blogue: Porra, Recife não é mais um retrato na parede (do banheiro), mas como dói. Mas não é a dor uma experiência fenomenológica? Abstrai nego, abstrai.

Jampa.

Em Frases

Volta ao Brasil: Recife não será mais apenas um retrato na parede, mais ainda assim, como dói!

Volta na Itália: uma Pompei vulcanizada, uma Florença deslumbrante e imponente; um brasileiro, nordestino e idiota embabacado pela imponencia de uma cultura estranha… O museo da ciência de Florença é pau: instrumentos usados pelos primeiros cientistas modernos (Galileu, Torriceli), e depois a evolução desses instrumentos que vão inscrevendo – não apenas numa mudança na maneira de fazer a ciência, mas também de conceber uma relação do homem com a realidade, com a verdade, sempre e mais do que nunca querendo ser filha do tempo e não da autoridade-, nas modificações e aperfeiçoamentos, as marcas de uma construção: a da ciência como disciplina e rigor autonoma em relação às outras formas de discurso sobre a verdade, como a religiosa ou puramente filosofica (especulativa), por exemplo. Não, florença não é resumível numa frase…

Volta ao mundo cruel: chegar em Paris e pisar numa merda de cachorro de uma parisience dondonca filha da puta e burguesa!

Volta ao blogue: fazia tempo. Mas o tempo é filho da verdade. E a verdade é filha do tempo. Nessa putaria entre Deuses (em específico, safadeza de Cronos com a derme da Episteme!), o tempo some o tempo todo para ficar fornicando com a mãe da verdade. Aí o Blogue, filho de um modesto filho dos espaços físicamente medidos em termos de “horas”, “minutos”, “segundos”, “fração de segundos”, não encontra a justa medida para a mesura de suas inquietações mais mundanas… Em quantas frações de segundos um homem pode denegar seu tempo perdido o tempo todo?

Sem volta: recomeço pois e a saga continua. Mais uma volta sem volta: escrever é preciso, ecrever não é preciso.

Saudações Jampianas…