Recife e o medo da Etnologia

O cara chega cansado. Os olhos fundos. O sorriso pesado e difícil. Não dedica o tempo necessário ás observações. Os indícios, percebidos e memorizados de maneira precária, indicam a pouca solidariedade do mundo real com fatiga do ponto de vista. O olhar não basta. O descrever, ato necessário mas não suficiente, é e antecipa a dor e a nervura do real.

O doido chega e vai ao cinema MESC da cidade. (Ele é um Mesc, mas se considera um desprovido de mesquindade, a eidade de quem é mesc sem os atributos do MESC. Sem o habitus, sem esse eu adequadamente mediado por disposições duráveis de esvaziamento do ser, o cinema da Fundação se apresenta como um “chez soi” acolhedor, como um espaço percebido e por isso memo “apropriado” – sem próprios ou propri- etários, só propri-otários. Quem são os interlocutores?) O filme foi suavemente percebido, apreciado. Um filme asiático aí, disse na saída com ar mesquinho, ou seja, com uma pequena inclinação Mesc. Depois tinha o filme do Glauber, mas na avalição da proposta de ver Terra em Transe, o maluco hipostasiado pelo fuso pensou: “sem os comentários de Renato, o Glauber não parecerá mais o mesmo… saudade negligente da França e do amigo brasileiro que lá ficara ou medo provisório do presente contido na virulência (violenta?) estética e política do Cinema Novo? Desistiu.

Queria um ônibus, mas terminou pegando um taxi. Na fenomenologia do taxi o eu transcendental, a cada etapa da epoché, vai se desfazendo dos atributos concretos da coisa taxi para “expor” (pôr para fora, extrair) os elementos da “taxieidade” (experiência imediata do taxi) no momento mesmo da percepção. Eis o dialogo com o taxista( taxista entendido como atributo de difícil abstração no processo da redução fenomenológica do taxi, a dificuldade vindo de propriedades-atributo que lhes são próprias, históricas e presentes nele e “percebidas” pelo Mesc sem atributos mesquinhos):

Mesc sem atributos buscando redução fennomenológica (MescSABRF): ” E aí, como vai o movimento?” Muito Mesc a pergunta.

Taxista com habitus: ” A gente só anda com medo. O problema é que nós não paramos mais para todo mundo. Parei pra vocês porque ví de onde saíram.” (Pensei, ser Mesc salva quase sem salvo engano…)

MescSABRF: ” O senhor tem poucos clientes?” Olhe, ser Mesc é uma coisa triste.

Taxista com habitus: ” Ontém mesmo levaram um por mais de 400 km na mala. Depois deixaram o pobre diabo. Eu não paro mais à noite para jovens, nem para adulto homem. Parei para vocês porque além de ser um casal, ví de onde saíram.” (Fiquei impressionado com os atributos ‘positivos’ da mesqui(n)dade, cheghei até, por distração, a ter ogulho Mesc…)

Taxista com habitus: ” Desce logo que aqui é perigoso a essa hora. De todo jeito, onde não é?”

MescSABRF: “Obrigado. Pode ficar com o troco.”

Subindo para casa pensei pensando no blogue: Porra, Recife não é mais um retrato na parede (do banheiro), mas como dói. Mas não é a dor uma experiência fenomenológica? Abstrai nego, abstrai.

Jampa.

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