Uma sugestão para mapear a violência por dentro

Uma maneira de entender a violência é se identificando a ela. Não digo aceitando-a. Seria um despropósito de minha parte. Mas inserido-a na nossa história individual, contextualizando-a em nossas vidas, entendendo como fazemos parte de um processo maior de produção da violência.
Tenho pensado num ditado que minha avó sempre repetia que julgo interessante para pensar mundos invisíveis de nossa violência social: “cachorro que muito anda ou apanha pau ou rabujo”. Ditado que visava limitar o campo de possibilidades do estranhamento antropológico natural da criança-neto, aquele estranhamento possível com a variação mínima existente entre diferentes grupos de pessoas vivendo como subconjuntos de um conjunto mais amplo e homogêneo de uma sociedade. Os grupos existentes na ur-6 poderiam ser classificados em diferentes categorias variando segundo os critérios taxonômicos dos classificadores. Minha avó, católica do jeito que era, tinha mania de posicionar os indivíduos do bem como estando no grupo dos “moços e moças de família”, os do mal eram “filhos e filhas da vida”, os “deixados a esmo”.
Não é minha intenção, naturalmente, fazer um juízo de valor daquilo que minha falecida e amada avozinha dizia. Mas como ponto de reflexão, o fato dela querer no seu discurso, desqualificar socialmente alguns elementos da vida social, pareceu-me relevante. A vontade dela de me proteger dos riscos do desconhecido provável (espécie de reconhecimento de que aquilo que acontece por perto pode nos atingir), dos perigos de um mundo do possível extremamente próximo, mas mantido a distância pela força de um desempenho discursivo, pode dar pistas sobre os modos de apreciação e operação que sustentam uma realidade social vivida como exterior mesmo se compartilhada num espaço físico delimitado e relativamente pequeno. Eis a questão: como é que pessoas de uma mesma localidade, vizinhos geográficos, criam abismos simbólicos entre si que terminam por constituir a invisibilidade social do absurdo da “natureza violenta” de alguns dentre eles? Em outras palavras, o que ler daquilo que ela me dizia para que eu deixasse de lado a “malouqueirada”? O que entender da visão negativa dela sobre a diversão solta e sem controle das ruas? O fundo moral era claro e normativo: cachorro bom, de raça, mora em casa e nela fica. A rua é o lugar do viralatismo sem futuro, lugar de contatos com pulgas perigosas, carrapatos desprovidos de piedade com os caninos de boa índole e família.

Pequena inflexão da soberba sociológica

Pode até parecer sociologia atrasada e barata essa de ficar pensando o mundo social se contrapondo à famosa sabedoria popular. Mas imaginem que desse tipo de visão viralatista da rua, presente no ditado popular, não escapa a sociologia que em raras ocasiões trata de certos aspectos considerados marginais das consideradas margens da vida social. Visão esta em parte responsável pelo que chamamos de miserabilismo na produção sociológica, uma atitude de complacência e condescendência em relação aos mais desprovidos: “pobrezinhos”, “coitados”, “quão horrível é tal situação”. E quando trata de maneira diferente, o faz no mais das vezes naquele sentido meio tosco da crítica que quer sentir-se gloriosa de si mesma, o faz visando o benefício do narrador do qual falava Foucault : aquele sentimento de liberação que o fato de expor em denuncia uma repressão produz em prol do locutor da denuncia. Quando mais atenta, atina para as antinomias de sua própria cegueira: constata em si mesma as variações entre miserabilismo (viralatismo do povo) e populismo (pedigrismo do povo). O populismo que é um miserabilismo invertido, pois, no lugar do « coitadinho », do « pobrezinho », propõe o “bom selvagem”, o “homem de dignidade”, aquele que “mesmo se pobre e lascado” nunca desvirtua. O homem que mesmo semi-alfabetizado “toca rabeca de maneira tão magnífica quanto um bom violinista clássico toca seu violino”, o homem que apesar dos pesares não pesa tanto em suma. O ponderar desses limites analíticos pode ajudar na reflexão.

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