A impureza da transcrição

Olá Pessoal,

Dei uma relida nos meus ultimos textos e peço desculpas pela falta de cuidado. O descuido é devido a falta de tempo. Dificil é cuidar de estilo e mesmo da clareza com tantas coisas para produzir. Sem falar na carga de leitura completamente irracional do doutorado. E além disso, ô mulher, tem outras coisas… (As vezes dou uma olhada nas coisas escritas nesse blogue e acho incrível como ele tem a cara de um depósito de lixo entulhado na minha cabeça. Desmotiva continuar. Mas como acho que ainda pode servir de espaço de troca de idéias, continuo insistindo.)
Essa coisa de começar a trabalhar com esse material do Labô-Discute-Cena está muito empolgante. E para os desavisados falo das tarefas chatas. Gostaria de defender aqui a pesquisa impura como amor intelectualis rei da sociologia! Eita coisa boa!
Dou exemplo disso. Eu e Anderson nos encontramos todas as quartas pela manhã e transcrevemos videos. Pensem numa coisa chata! Pensaram? Transcrever é pior. Eh um exercicio aparentemente mecânico e muitos sociólogos o vêm como parte da atividade suja da sociologia (relegando muitas vezes a terceiros esse trabalho para ficar apenas com o trabalho ” fino e puro ” da análise sociológica). Ora, talvez não saibam esses puros analistas que a impureza da transcrição pode ser riquissima nos aspectos mais finos de um trabalho sociológico de pesquisa. Ou quiça eles saibam, mas a vontande do logro e reconhecimento que decorrem da pureza, mais precisamente daquilo que ela pode trazer como impressão de resultado analítico, é tão forte, que se torna próprio da produção apagar as “tarefas sujas” que estão por trás do êxito. Aí nada ou quase nada fica do trabalho sujo na limpidez desinvolta de um texto acadêmico bem lapidado.
Mas a experiência que estamos tendo diz algo a mais a respeito da sujeira do trabalho de transcrição. Ela não é apenas suja!
Exemplo disso é que na medida das repetidas escutas do video, necessárias para transformar em texto a oralidade, vamos nos dando conta e percebendo diferenças nas maneiras de falar, nas formas de dizer, e, por causa disso, podemos começar a tentar associà-las a problemas sociológicos que poderiam dar conta dessas diferenças. Não seria já isso o início de nossa construção de objeto? O video que estamos transcrevendo nesse momento, cujo tema é o teatro de grupo, já nos dá tantos elementos para estudo, tantos contrastes a serem feitos, que não vejo como poderiamos se passar da transcrição e fazer um trabalho de mesma ordem de detalhamento como o que quermos fazer.
Analisar as nossas impressões da palavra do representante do Teatro de Amadores de Pernambuco, Reinado Oliveira, pode aclarar aquilo tento exprimir aqui.
Ao contrastar sua fala com a do jovém que o antecedeu, podemos levantar alguns indicadores de análise a começar pela diferença na qualidade da retórica de Reinaldo. Traço de um maneira de dizer o mundo teatral, a teatralização do discusso através da retórica dá a luz a uma série de diferenças que não traduzem apenas a distancia geracional, mas permite de captar elementos sociais que devem ser aclarados pela análise sociológica. Médico, cirurgião, descedente do mercena teatral Valdemar de Oliveira, amador por convicção ideológica: a maneira de falar de Reinado, quase sem vicios de linguagem, é a materialização viva de traços sociais a serem estudados e colocados em relação com o teatro que ele representa. Isso no que diz respeito a forma. O conteúdo é ainda mais interessante. Em momento algum ouvimos sequer uma alusão a um problema de ordem estética. O teatro do Teatro de Amadores é um teatro que ama o teatro, ao menos se levamos em conta apenas o texto transcrito, mas que não encontra sua autonomia na “querela estética”. A autonomia do ator do Teatro de Amadores é uma autonomia heteronoma num sentindo específico: ela diz respeito a independência do ator em relação a precaridade dos recursos do próprio meio teatral. Amo o teatro porque não preciso do dinheiro que me poderia vir dele para viver, diz um amador. Nesse sentido qualquer ” sentir-se livre” do ator amador é uma liberação também da própria condição interna desse mundo na qual a liberdade se daria num “eu vivo de minha arte”… Para o ator amador não viver da arte é condição de sua liberdade. Mas o que isso tem a ver com o debate sobre a ausência de preocupação estética? A independência no sentido do ator amador libera-o do esforço necessário para criar a autonomia concreta do teatro entendido enquanto espaço simbólico específico numa sociedade capitalista(seria uma hipótese a ser trabalhada!). Mas é preciso uma análise apurada dos textos e o esforço de reconstrução dos espaços simbólico(posicionamentos em torno das querelas estéticas, diferentes opiniões a respeito do bom fazer teatral, etc) e matérial(os teatros, as instituições, os investimentos ), para que pudessemos aclarar as lógicas sociais subjacentes à prática dos atores do campo teatral no Recife (se é que campo existe! pois seria ótima ocasião para refletir sobre os critérios de transferabilidade do conceito de campo para dar conta da configuração específica de um espaço social como o do teatro do Recife).
O trabalho está apenas começando, mas já vai dando muito o que falar…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s