Sem reciprocidade: refletindo sobre as sugestões sociológicas de um médico

Cheguei numa clínica perto do DETRAN para fazer um exame médico. Sem ele, nada de renovação da carteira de motorista. A espera de mais de uma hora não me incomodava, lia trechos salteados de Memórias do Cárcere com algum interesse. As pessoas que chegaram antes de mim reclamavam:

— Cada pessoa que entra passa mais de trinta minutos lá dentro, ele está fazendo cirurgia, é? Um exame desse, não tem nada pra fazer!

— Esse último que entrou vai demorar ainda mais. Acho que é amigo do médico, não viu os dois se cumprimentarem na hora de entrar no consultório.

Eu ouvia os comentários sem muito entusiasmo. A demora tediosa rendia mais tempo à leitura. As lembranças de Graciliano Ramos me faziam pensar em coisas desconexas, o Recife e a violência na época de sua passagem como prisioneiro por aqui. Quem seriam os militares que o receberam? Depois ficava resmungando num silêncio ensimesmado “caramba, como sou idiota! Aquelas pessoas, como o Velho Graça, estão hoje mortinhas da silva.” Só lezeira, como se percebe.

Minha vez chegou. O funcionário entreabre a porta e, pela fresta diz: “Sr. João Paulo, sua vez.” Entro. Observo que ainda não era ali, do lado de trás da porta, o consultório. Havia um corredor e mais adiante uma outra porta. O rapaz me indica o caminho.

O médico é um senhor de cara simpática. Pediu para que eu sentasse e ficasse a vontade. Sentei, mas não quis me sentir a vontade. Ele lê minha ficha e, olhando por cima dos óculos pendurado à ponta do nariz, comenta: “quer dizer que você é sociólogo, que coisa boa rapaz! Como nosso ex-presidente, o Fernando Henrique Cardoso.” Visto o ar de simpatia que ele quis passar com aquelas palavras pensei comigo: “Essa cara é um incompetente! Médico de verdade só se interessa por informações clínicas e tudo que sai desse terreno e se assemelhe ao humanismo, à pena, à misericórdia, sei lá, coisas de uma ordem pouco ou nada racional, ele não considera como importante. Por que diabo esse médico quer dar uma de gente boa?” Depois dessas acusações interiores, ponderei e decidi refletir de maneira menos pulsional.

De repente, não mais que de repente, tive a impressão de entender por que ele demorava tanto nas consultas lembrando das reclamações das pessoas na ante-sala de espera.

— Cada pessoa que entra passa mais de trinta minutos lá dentro, ele está fazendo cirurgia, é? Um exame desse, não tem nada pra fazer!

— Esse último que entrou vai demorar ainda mais. Acho que é amigo do médico, não viu os dois se cumprimentarem na hora de entrar no consultório.

Acho que as pessoas devem estar pensando que o médico é meu melhor amigo, pensei. Quis esquecer o julgamento inicial, mas fiquei pensando nas pessoas que ainda estavam lá, esperando.

Antes de começar a fazer os exames, que um bom sociólogo não saberia dizer se ele fizera bem ou mal, Dr. Kleber passou uns vinte minutos a me dar conselhos sobre o que eu deveria fazer para entender melhor a sociedade. E aqui eu chego ao ponto da história do meu dia de paciente que merece alguma reflexão. Aproveito para mudar o tom da narrativa e para dizer que o que interessa de fato nesse texto começa aqui.

O médico me disse em tom de conselheiro: “mas por que você, como sociólogo, não pega um gravador, e sai recolhendo e registrando as informações do dia a dia das pessoas. Porque a sociedade somos nós. Você compra um gravador e coloca no bolso. Aí você encontra um fulano na rua, hoje mesmo vinha passando na Rosa e Silva e tinha os Sem Terra parando o trânsito lá. Você chega como quem não quer nada, começa a conversar com as pessoas envolvidas, registra. E vai fazendo isso. […]” Na hora agradeci os conselhos, sem comentá-los. Disse-lhe apenas educadamente que ele tinha razão e, pensando na teoréica cefichiana, que era uma pena não termos muitos sociólogos dispostos a estudar a nossa realidade mais concreta.

Mas já voltando para casa, caiu minha ficha. Quem aquele médico filho da mãe pensa que é para achar que um sociólogo não sabe como fazer e desempenhar bem sua profissão? Não, ponderei em seguida, era preciso justamente provar para mim mesmo a eficácia de minha disciplina. Eu devia mais uma vez refletir sociologicamente. A boa pergunta a se fazer era: por quais razões um profissional de outra área se julga no direito de propor uma metodologia intuitiva para a sociologia a um sociólogo? Por que, no momento em que ele estava me propondo as suas sugestões, eu não reagi e achei até natural tais proposições? Por que eu não comecei a dizer: “senhor Dr. K. acho que seu diagnostico seria mais eficiente se, ao invés de conversar tanta potoca, o senhor ponderasse sobre os sinais múltiplos de alguma possível deficiência nervosa que eu pudesse ter ou coisa dessa natureza etc. e que me habilitariam ou não a renovar a porra da carteira?”

Pensando nestas questões lembrei de um vídeo que assisti ainda quando estava na França sobre a sociologia de Pierre Bourdieu. No final do documentário que seguia os passos do cotidiano do sociólogo vemo-lo numa situação inusitada. Ele está dando uma palestra numa comunidade periférica no subúrbio de Paris e se vê pressionado por um morador que, no debate final, acusa o sociólogo de intelectualismo e pergunta: “ você acha que porque é Bourdieu é Deus (Deus em francês é Dieu, como o final do nome de Bourdieu) e por isso sabe mais de nossas vidas do que nós mesmos. Mas somos nós que a vivemos, somos nós que sabemos o que vivemos. Você acha que sabe mais de nossas vidas do que nós?” Pierre Bourdieu, com uma voz tremula e que denunciava um certo nervosismo de sua parte respondeu com empenho a pergunta. Ele disse que o que ia dizer poderia parecer pedante, mas ele achava que sabia sim, mais sobre vida do rapaz, de certo ponto de vista, do que o rapaz mesmo. Ele passara a vida dele se dedicando a estudar o mundo social, a vida das pessoas, como elas viviam e em que condições. E que era justamente o fato, de ter abdicado de boa parte de viver a vida para poder pensar como a vida era vivida pelas pessoas, que, acreditava ele, lhe dava condições de dizer coisas interessantes sobre a vida dessas pessoas. E em tom mais emocionado ainda, falava de um outro sociólogo, para não mais falar em favor próprio, que segundo ele teria estudado com muita seriedade as condições de vida dos emigrantes na França e concluiu mais ou menos assim: “se em nome de um anti-intelectualismo qualquer você se nega a ler uma pessoa como ele, que fez um trabalho sério, e que pode ajudar a entender melhor as razões sociais pelas quais existe sofrimento na sua vida, então eu digo sem medo que você é um idiota.” Mas os que isso tem a ver com a sua história com o médico, vocês podem estar se perguntando.

Bem, as pessoas em geral, como o interlocutor de Bourdieu no debate e o médico que me atendia, acham, também geralmente, que o fato de pertencer ao mundo social lhes dá, imediatamente, uma espécie de legitimidade sociológica. Eu vivo minha vida, eu sei a respeito de mim mesmo. Ninguém sabe mais de mim do que eu mesmo. Esse tipo de idéia, que é justamente um dos principais mecanismos sociais que dificultam a aceitação da sociologia como uma disciplina cientifica, age de maneira constante e dificulta o entendimento daquilo que chamamos de ruptura epistemológica em sociologia. Essa ruptura nada mais é do que a diferença entre a experiência da vida (entendida como percepção, tal como estudada pela fenomenologia de maneira geral) e o pensar essa experiência (que se daria num movimento de objetivação, de distanciamento das coisas vividas). Dessa forma é que, num consultório médico para renovar minha carteira de motorista, recebi conselhos de um médico de como ser bom sociólogo. E se eu fizesse o mesmo e desse ao doutor sugestões de como tratar clinicamente seus pacientes… Bem, acho que isso seria socialmente um absurdo.

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