Impressões do Mundo Cão (Sem dar nome aos bois)

Fui a uma palestra sobre política de segurança pública e sociedade na universidade. Julgo o assunto importante para mim, pessoalmente, por questões muito particulares, de história de vida. Cheguei atrasado e não quis atrapalhar. Ouvi de fora da sala o finalzinho da apresentação do palestrante, e na pausa entre a palestra e o debate, entrei me situando num recanto.

O debate não chegou a me assustar. A sociologia do crime, de alguma maneira desacreditada no discurso do palestrante, eram duas, e as duas, segundo ele, incorriam no mesmo erro: procurar causas primeiras da atitude criminosa, a razão de ser do criminoso. Apoiado em estudos críticos dessas vertentes, ele defendia uma sociologia mais pragmática, ela sim, em condições de ajudar a formular políticas de segurança pública. Uma sociologia que estudasse os agentes facilitadores da ação criminosa, e não suas causas sociais últimas ou primeiras (essas, segundo eles, não ajudam nas formulações de políticas de segurança pública eficazes, porque, pelo que entendi, são obviedades estruturais das quais não se pode tirar proveito).

O discurso me pareceu sóbrio, embasado em dados e em reflexões teóricas, dando ao trabalho ali apresentado alhures de cientificidade inquestionável (o que não quer dizer que o trabalho e as teses defendidas nele sejam inquestionáveis, bem ao contrário.) Apesar de conhecer pouco da literatura sobre a criminologia, a sociologia do crime, a sociologia das políticas de segurança (se é que isso já existe), aventuro-me aqui a comentar, de maneira despretensiosa e rápida (do meu ponto de vista sociológico) aspectos da discussão que participei apenas como expectador. Essa coisa de ser expectador é importante porque todo aquele debate me pareceu de fato espetacular. Feito para ser visto e apreciado como uma mis en scene onde as idéias são postas em tubos de ensaio para ganharem sua roupagem objetiva. Da minha cadeira, meu ponto de vista era de alguém que olha para quem está olhando o objeto de estudo. Eu quis, em exercício quase fenomenológico, pôr em suspensão o sujeito que observa o sujeito observando um objeto (que é também um sujeito, no caso das ciências sociais) para apreciar o debate a partir desse “ângulo inusitado” de uma reflexividade desinteressada.

Divertido, mas também tragicômico, encontrar nas questões sérias formuladas ao palestrante, um quê de um pedantismo intelectual que se preocupa com “os limites do conhecimento sociológico” para pensar no uso da sociologia na formulação de políticas públicas de segurança. “As ciências sociais não tendo o mesmo potencial de controle dos fenômenos que estuda, não tendo a mesma capacidade de experimentação, de verificação empírica no sentido estrito do termo, como elas podem ajudar na formulação de políticas que realmente melhorem um estado de coisas dado?” O engraçado é que esse pedantismo se reveste, claramente, de uma aparente modéstia: são os limites da utilidade do pensamento sociológico que estão em questão, é tudo aquilo que barra o potencial de aplicabilidade dos conhecimentos sociológicos no mundo social o que perturba.

Apesar de nunca ter acreditado, nem mesmo no início de minha formação, na neutralidade axiológica, ou na pureza cientifica de uma pesquisa sociológica (nem de outra ordem, apesar de reconhecer hoje que em outras ciências por muitas razões – inclusive sociais – a autonomia das condutas cientificas caracterizadas em ganhos epistemológicos em termos de estatuto de cientificidade é maior nas ciências tidas como exatas e/ou formais), acho que a questão da utilidade prática da sociologia tem mais chances de ser colocada adequadamente quando se assume uma perspectiva reflexiva (auto-reflexiva, com o perdão da redundância) o ponto de vista do sociólogo como, exatamente, o de expectador.

O que me aborrecia naquele debate todo era o constante auto-posicionamento dos seres pensantes na procura de soluções sociológicas para formulação de políticas públicas eficazes para o controle da violência. (Por não conhecer a literatura nem ter lido o livro do palestrante, minha intenção aqui, é menos de fazer uma digressão a respeito da inadequação da formulação teórica do que se defendeu na palestra, do que apontar para alguns pressupostos que, ao meu ver, com muita facilidade, são deixados de lado em nome de uma maior “operacionalidade” de um tipo de análise sociológica que combine políticas de prevenção e repressão da violência. Assim toda sociologia que se preocupe com o estudo das formas e conteúdos de socialização do criminoso, estão fadadas a serem tachadas de inadequadas quase que de imediato, pois não sugerem formas de controle e ou repressão dos agentes potenciais da violência.)

Eu defendi aqui em outro texto a idéia da natureza social da violência. Idéia segundo a qual algumas lógicas sociais, a serem estudadas com mais detalhes, estariam estruturando a conduta de alguns atores situados em posições especificas no mundo social. Seria essas lógicas que ao serem identificadas ao problema da violência justamente produziriam um fator de inteligibilidade sobre o ignorar mesmo das lógicas de classe operando na percepção mesma da gravidade do problema.

Não creio que o que eu penso seja uma heresia sociológica. E não creio que exista de fato incompatibilidade entre concepções da sociologia que prezem por perspectivas mais racionais (que se preocupem em identificar as estratégias de ação dos agentes criminais) e outras que considerem mais elementos históricos, do passado desses agentes, da maneira pela qual o tipo de socialização especifico ao qual foram submetidos tem valor “explicativo” do tipo de conduta adotada. Por mais que possa ser verdadeiro o fato desse conhecimento sobre a socialização não ter “aplicabilidade” para formulação de políticas porque “apenas” constatam dificuldades estruturais (entendi assim o argumento dele, mas é possível que esteja simplificando demais), acredito que, em caso de acumulação sistemática de conhecimento a respeito desses aspectos estruturais podem (se bem elaborados por uma sociologia de viés crítico) conceber conhecimento que sirva de guia para políticas localizadas de prevenção e, porque não, de repressão da violência em alguns casos.

Eu penso, por exemplo, não sei se forçando a analogia, em políticas de tratamento diferenciado que foram aplicadas na escola nacional francesa, depois dos estudos conclusivos da sociologia da educação(décadas de 60 e 70), que identificavam dificuldades escolares ligadas às lógicas de classe social funcionando como filtro seletor no seio dos mecanismos aparentemente meritocráticos da escola republicana. Claro que o problema da violência tem suas especificidades, mas não acredito, como leigo, que sejam singularidades que impeçam estudos sobre socialização dos agentes dos grupos criminosos. Nem que esses estudos sejam de todo incompatíveis com a vontade de tornar utilizável o conhecimento sociológico para fins de aplicabilidade social.

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