Amor, Passado, Príncipe.

Tenho a mania estranhamente adolescente de guardar as minhas cartas de amor em um recanto. Tanto as escritas por mim quanto as recebidas. Narcisismo? Mais. Vez por outra, nas escondidas, recolho-me a uma leitura atenciosa dos afetos desfeitos. Eu acho um exercício valioso de treinamento sociológico. Objetivação do passado mais profundamente subjetivo. Os “te quero pra sempre ao meu lado”, “ nada na minha vida foi tão profundo do que o que vivemos nessa relação”, “te amo e acho que isso nunca vai acabar”, lidos com a distância do tempo, tem um efeito historicizante, e, e isso não é pouco, desnuda os invariantes estruturais de nossas sempre românticas expectativas amorosas, apaixonadas, colocando-nos secamente no fluxo instável de nossos afetos. Quanto mais sincero o amor, as palavras mais apaixonadas, mais e mais forte é o efeito crítico da percepção de um passado tão único, tão específico, que é estranho pensar naquelas palavras imaginando os sentimentos ali expressados. Sim, eles não existem mais.

Existe nessa bizarra prática algo de profundamente tragicômico: a gente lê, desfruta melancolicamente de um passado perdido para sempre, e, como não dizer, procura nela(na prática) e nele (no passado) refúgio para dilemas mais atuais que, para melhor efeito terapêutico, tenham fonte em mesma verdade profunda daqueles sentimentos de outrora. A história apesar de contextualizar também revela, mesmo que de maneira metafórica, invariâncias estruturais.

Um homem quer ser amado para ser príncipe, pequeno príncipe. Fazer da mulher a encarnação do desejo e do encanto é o imperativo de seu reinado amoroso, no passado e no presente. O bom pequeno príncipe revela-se quando descobre de maneira lírica a abstração que é amar loucamente.

Encontrando um aviador, o príncipe, sempre ingênuo, e por isso mesmo sempre amante, sempre apaixonado, deve pedir: “Aviador, desenha para mim uma mulher linda para que eu possa amar.” E ao olhar o desenho, e ver os traços delineando curvas, exibindo discretamente busto, sugerindo seios, o principezinho deve reclamar: “mas ela parece cansada.” Na esperança de contentar a nobreza do garoto o aviador deve fazer mais uma tentativa. Mais linhas em esboço para expressar com delicadeza as formas femininas. Uma longa silhueta ilustrar uma beleza helênica, proporcional, encantadora. “ Mas ela parece triste”. O aviador não perde a paciência. Reflete um pouco e lembra das ovelhas. Desenha uma bonita casa e diz: “ sua princesa está lá dentro”. O príncipe, feliz da vida, contenta-se com tamanha perfeição.

O passado morto, nunca morre de fato na gente. As emoções passam, as pessoas passam, a vida passa. Mas o menino príncipe guarda o desenho da casa na esperança de que um dia, a princesa saia dali de dentro, sem estar nem triste nem cansada, para depois disso, quem sabe, queimar as cartas do passado e dizer: não é mais meu, tudo isso que passou.

Jampa.
RETRATO DE FAMÍLIA

Este retrato de família
Está um tanto empoeirado.
Já não se vê no rosto do pai
Quanto dinheiro ele ganhou.

Nas mãos dos tios não se percebem
As viagens que ambos fizeram.
A avó ficou lisa, amarela,
Sem memórias da monarquia.

Os meninos, como estão mudados.
O rosto de Pedro é tranquilo,
Usou os melhores sonhos.
E João não é mais mentiroso.

O jardim tornou-se fantástico.
As flores são placas cinzentas.
E a areia, sob pés extintos,
É um oceano de névoa.

No semicírculo das cadeiras
Nota-se um certo movimento.
As crianças trocam de lugar,
Mas sem barulho: é um retrato.

Vinte anos é um grande tempo.
Modela qualquer imagem.
Se uma figura vai murchando,
Outra, sorrindo, se propõe.

Esses estranhos assentados,
Meus parentes? Não acredito.
São visitas se divertindo
Numa sala que se abre pouco.

Ficaram traços de família
Perdidos no jeito dos corpos.
Bastante para sugerir
Que um corpo é cheio se surpresas.

A moldura deste retrato
Em vão prende seus personagens.
Estão ali voluntariamente,
Saberiam – se preciso – voar.

Poderiam subtilizar-se
No claro-escuro do salão,
Ir morar no fundo dos móveis
Ou no bolso de velhos coletes.

A casa tem muitas gavetas
E papéis, escadas compridas.
Quem sabe a malícia das coisas,
Quando a matéria se aborrece?

O retrato não me responde,
Ele me fita e se contempla
Nos meus olhos empoeirados.
E no cristal se multiplicam

Os parentes mortos e vivos.
Já não distingo os que se foram
Dos que restaram. Percebo apenas
A estranha ideia de família

viajando através da carne.

Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo, 1945

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