Brasa 2008 NOLA

O Oxymore volta oxigenado. A viagem aos Estados Unidos trouxe gás para esse blogueiro que, depois de uma pequena crise de identidade (o blogue queria tomar ares de produtividade não condizentes com a personalidade de seu autor), volta para blogosfera com todo gosto! E esse primeiro post fala um pouco das minhas peripécias intelectuais na terra do Tio Sam.

O BRASA em NOLA e Jampa nel@s!

O BRASA aconteceu na aconchegante cidade de New Orleans. O congresso que contou com a presença de vários estudiosos do Brasil nacionais e (im-ex-)portados já foi comentado aqui (segunda-feira, 31 de março 2008.) De minha parte, falarei apenas de minhas impressões pessoais do evento, da experiência de quem viu e participou como um “estranho no ninho”.

José Miguel Wisnik



Logo no hotel, encontrei um homem que me observava com um olhar esguio, porém curioso. Notei no jeito dele de me afeiçoar um traço triste no olhar. E aquilo nos olhos dele combinava com algo mais, parecia ser simpático e tímido. Aproximou-se e falou rapidamente comigo:
– tudo bem? Brasileiro?
– sim, brasileiro. Vim pro congresso. Você também?
– Sim.
– vai apresentar um trabalho também?
– fui convidado para fazer a palestra de abertura, vou falar sobre Machado de Assis e a música, o maxixe, a polca.

Sim. É claro Jampa. Você estava falando sem saber com José Miguel Wisnik. E é lembrando dessa cena falando com o Wisnik e, claro, as devidas proporções guardadas, que penso em um filme do Tim Burton, onde o cineasta imagina o encontro de Orson Welles com um hoje celebrado autor de cinema de péssima qualidade técnica chamando Ed Wood (considerado por muitos como autor “cult” em nossos dias): na cena a qual me refiro os dois cineastas se ignorando mutuamente falam de igual para igual descrevendo suas respectivas paixões pelo cinema…

Sim. Eu o ignorava em todos os sentidos, da obra à fisionomia, da formação uspiana à leitura aparentemente já famosa do conto de Machado de Assis. Ele era para mim, ali, apenas e nada mais do que um homem de olhar triste e que, como num passe de mágica, transformou-se num brasileiro de cabelos grisalhos que iria fazer a palestra de abertura no meu primeiro congresso internacional… E isso já era muito.

Ele seria, um dia depois desse encontro casual, o executor de uma aula magistral, onde com muito carisma fascinou e cativou a platéia inteira. Com sua leitura de um conto de Machado de Assis, na qual ele encontra uma inesperada e contra-intuitiva maneira de entender a sensibilidade machadiana para tratar de dilemas da cultura brasileira, Wisnik, dialogando a contrapelo com as “idéias fora do lugar” de Roberto Schwarz (leitura minha), conquistou a todos com seu bom humor na apresentação de um Machado de Assis sensível ao “maxixamento da música brasileira”…

Numa noitada depois da abertura, encontrei-o novamente, mais uma vez por acaso. No meu deslumbre, meio que cheio de trejeito suburbano, dessa vez tentei falar de meu trabalho de tese para ele, em busca de comentários críticos ou algo parecido. Simpático, ele me ouviu com o mesmo sorriso triste do primeiro diálogo. Suas feições finas me intimidavam e a situação, dentro de um bar, a espera do recomeço de um show agitadíssimo e dançante, não era de fato a ocasião mais adequada para se falar de sociologia implícita no romance social. E creio que, mesmo se em ocasião mais apropriada, não chamaria tanto do entusiasmo dele. Meio cabreiro com a simpatia e amabilidade do “homem de olhar triste e cabelos grisalhos”, agora intelectual reputado e respeitado, senti aquela sensação de vira-lata com fome ao procurar carinho, atenção e quem sabe comida de transeuntes…

A sociologia implícita no BRASA

Numa sala com pouca gente, falei durante vinte minutos sobre a idéia de sociologia implícita e de como a utilizo para tentar captar lógicas sociais e enquadrar a relação da sociologia com o romance social, como também a do romancista com o sociólogo, usando a obra romanesca de Graciliano Ramos como base de leitura. O público se reduzia a um pequeno grupo de latinoamericanistas da Ohaio University que havia organizado a mesa sobre literatura e teatro no Brasil do século XX. Havia ainda um brasileiro que estuda Graciliano Ramos e que faz o doutorado dele na Paraíba, que também já conhecia o pessoal da Ohaio. Coisas de Brasil, falamos sobre o mesmo tema em cidades vizinhas e tomamos conhecimento um do outro nos EUA.

Repercussão e sociabilidade dos intelectuais
Mais uma vez saio de um congresso sem saber o que as pessoas acharam do meu trabalho. Nenhum comentário crítico. Nenhuma ponderação a respeito dos procedimentos, nenhum adendo aos ou negação dos argumentos defendidos. Nem positivo, nem negativo. Silêncio total. Nenhuma palavra sobre as análises feitas ou pretendidas. Fico com a impressão de que o trabalho não tem ressonância, que é uma espécie de voz que não ecoa por alguma razão. Portanto, peso, houve reação ao outro trabalho sobre Graciliano Ramos. O que há então? Será que existe vácuo no ar no qual a sociologia implícita tenta se propagar? Seria uma idéia tão sem lugar de ser a que tenta mostrar, apoiada em documentação apropriada, uma articulação tensa entre sociologia e literatura na qual se apóia boa parte das formas de classificação de práticas intelectuais que são até hoje vistas como infusas no Brasil? Ou será a insipidez do trabalho que gera tanta insensibilidade?

Na verdade, e isso havia percebido  já antes de minha apresentação, que um congresso é mais um lugar de sociabilidade, de trocas sociais, do que propriamente de trocas acadêmicas em sentido estrito. As pessoas que vão ao congresso na verdade sabem que em 15 minutos não se consegue falar muito sobre nenhum propósito intelectual mais complexo. Assim, naturalmente, o ambiente do congresso é mais um espaço para o encontro e a troca de contatos e onde, ocasionalmente, existe debate acurado sobre algo, aqui e acolá.

Notei isso porque junto com meu amigo Lula gostaríamos de ter encontrado com Idelber Avelar, blogueiro do Biscoito Fino (citado em posts anteriores) e professor em Tulane University, instituição que acolheu o congresso. Mas depois de tentar algumas vezes o contato com ele, sem sucesso, não por falta de acessibilidade de Idelber, mas e mais pelo volume de demanda de colegas e conhecidos dele, a aproximação ficou completamente tumultuada e inviabilizada.

Outra coisa que notei por conta dessa sociabilidade específica ao congresso: existe uma tensão tênue e difusa estabelecida entre os estudiosos do Brasil que estão no país e os que estão nos EUA. É perceptível que questões como “o que significa estudar o Brasil sendo um scholar numa universidade americana?”, ou como “o que significa produzir conhecimento sobre o Brasil fora das condições de produção intelectuais brasileiras (que ainda diferem entre si de federação para federação)?” aparecem de forma muito recalcada. Ficam latentes, sobretudo, a meu entender, na impaciência de alguns brasileiros trabalhando nos EUA com maneiras de trabalhar e encarar o trabalho de alguns brasileiros fincados no Brasil. Por outro lado, é engraçado perceber, por exemplo, o quanto o encantamento com a biblioteca latino-americana da Tulane Univerty representava num “assim é muito fácil pesquisar” uma espécie de posicionamento ambíguo com relação à qualidade dos trabalhos produzidos e a se produzir por partes dos estudiosos trabalhando nas instituições brasileiras…

Transparecendo de maneira desigual em diferentes momentos do congresso, a textura da relação de poder (diria relação de dominação, mas sei que as coisas não se dão de maneira linear, de cima para baixo) que se estabelece entre os que buscam ter “mais condição de dizer coisas sensatas a respeito do Brasil”, tanto aqui como lá, é o revés de uma sociabilidade que, longe de ser traço apenas de uma “brasilidade”, se imiscui no brasilianismo. Brasilianismo que é, se isso que digo faz sentido, uma letra americana sobre o Brasil para brasileiro ver e assimilar. Bem, falo essas coisas de maneira muito livre, são apenas impressões minhas isso que digo. E é algo a ser analisado com mais vagar.

Jampa em São Francisco: a visita

Além do BRASA, houve outro momento de intensidade intelectual na minha viagem. A visita ao meu querido amigo Cesar, “exilado” teuto-sergipano na California, um dos únicos intelectuais a conseguir fugir de Alcatraz (ele acaba de ser banido para Chicago por excesso de bom comportamento!).

Olha, falar de Cesar é tão difícil do que conversar com ele. Não digo isso como algo negativo. Passamos horas e horas a fio em nossas conversas intermináveis sobre nossos projetos intelectuais, sobre nossas lembranças de uma formação conjunta em solo recifense, sobre política brasileira, sobre nossos amigos e inimigos comuns, sobre as eleições nos EUA, em Recife, sobre relações afetivas…

Mas não deixa de ser engraçado e sintomático. Cesar possui uma erudição discreta, no sentido de ser contida na grandeza dela, de não se expandir em alardes intelectualistas. E isso torna possível nosso dialogo intelectual, já que existe desnível na acumulação de referências. A dele muito maior que a minha. Digo isso porque é essa minha percepção do amigo que, muitas vezes, põe e transpõe a diferença mesma no volume de conhecimento. O que é fascinante em nossas trocas é que elas parecem ser, sempre, a expressão de formas de encarar o trabalho intelectual diferentes, de reconhecê-lo em si(em nós), porque são elementos constitutivos de duas trajetórias que são muito diferentes entre si, mas que são o traquejo do que se chama “intelectualidade” nele e em mim.

Fiz uma entrevista com ele, belíssima por sinal, que em breve fará parte de um pequeno estudo sobre lógicas de funcionamento sociais na maneira de produzir conhecimento dos sociólogos do departamento de sociologia da UFPE. Pretendo deixar aqui no Oxymore uma amostra grátis da entrevista com trechos interessantes e ilustrativos de uma fala que mostra alguém em início carreira, mas que com uma base sólida, com reflexividade suficiente para inferir sobre aspectos de um socialização acadêmica, deixa informações importantes para o sociólogo ávido por explicar como funciona seu próprio universo de produção. A Cesar meu muito obrigado por tudo, pela gentileza de conceder a entrevista, pela amizade e hospitalidade!

Loïc Wacquant

Como estava em Berkeley, aproveitei e fui ter uma conversa com Loïc Wacquant Recebeu-me cordialmente em sua sala. Falamos basicamente sobre a tradução que fiz de um dos textos dele, ainda não publicada, e de Bourdieu. Na verdade, discutimos a recepção enviesada da obra de Bourdieu que é lido, não raramente, tanto lá quanto aqui, como um teórico da sociedade, como estudioso da cultura, e pouco como sociólogo. Ele me falou da importância da revista Actes de la Recherche en Science Sociales para a formação dele, e eu, brevemente, de minha formação francesa. Para mim foi importante ouvir dele que existe resistência dentro das instituições (por parte de outros professores e dos alunos) ao tipo de procedimento (principalmente na escrita) de trabalhos científicos onde a idéia de rigor está justamente embasada na explicitação dos passos, na descrição do protocolo de condutas, na enumeração das dificuldades encontradas e das soluções estabelecidas. A aparência inacabada de um trabalho que expõe os passos de seu procedimento (que é uma das idéias motoras da revista Actes de la recherche) é muitas vezes confundida com falta de rigor e, por conta disso, uma epistemologia séria contida nessa conduta, vinculada à tradição oriunda do racionalismo aplicado de Bachelard (lida por Bourdieu a luz de uma sociologia sensível às lógicas práticas presente na ação social), é vista com maus olhos por muitos, principalmente por representar uma ameaça a formas de pensar e fazer o trabalho intelectual muito entranhadas no universo acadêmico. Muito proveitosa nossa conversa.

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