O Escafandro e a Borboleta

Como não sou crítico de arte nem de cinema, fico com receio de meu juízo, sempre. Fico me perguntando: o que as pessoas teriam a ganhar com minhas impressões de sentido sobre um filme?

É uma aventura julgar um trabalho como O Escafandro e a Borboleta, do artista plástico Julian Schnabel (1951). Eu o assisti ontem. Não sabia da existência do filme. E acho que eu seria necessariamente incompetente se o meu objetivo fosse dizer algo de realmente interessante sobre o trabalho dele como cineasta. Um olhar mais avisado faz melhor esse trabalho, e deixa a insônia gerada pelo filme com gosto de entendimento. Por isso deixo ao longo do post alguns links com opiniões mais profissionais sobre o filme para os interessados.

Mesmo desavisado me aventuro a dizer algo. Pois a vontade que tive depois do filme foi de soltar o verbo. Queria me desprender dos casulos do medo de dizer as coisas, e castrar esse medo tolo de se mostrar ignorante. Então senta que ai vem história…

O filme fala da vida de Dominique Bauby. Jornalista e pai de duas crianças que sofre um acidente vascular cerebral e entra em um coma profundo. Ao sair, se dá conta que todas as suas funções motoras estão deterioradas. Foi afetado por aquilo que a medicina chama de “loked-in sindrome”, ou seja, a síndrome do encarceramento em si. Na sua nova condição, Bauby não podia mais se mexer, e mesmo a respiração era auxiliada por aparelhos.

O filme lida com história de um quase vegetal: alguém que tinha apenas o olho esquerdo funcionando com dificuldades e sua audição. Os dois sentidos se tornaram a ligação dele com o mundo e com as outras pessoas. Piscando uma vez para dizer “sim” e duas para dizer “não”, com o axilio de uma terapeuta consegue elaborar um método de comunicação também pela escrita. A partir de um alfabeto dito em voz alta em função do uso das letras, ele começa a poder “dizer” letras, palavras, sílabas, frases, páginas e páginas.

O filme conta a história narrada no livro escrito pelo jornalista em sua situação de cárcere interno a partir do olhar desse olho. As escolhas de câmera e áudio foram feitas em função dessa situação de aprisionamento, onde os enquadramentos fixos com desajustes no foco trazem a impressão de um olhar que via o que nós víamos enquanto espectadores. O áudio, que traz além do som ambiente a voz de Bauby em off, dá contorno a consciência de si e da situação que são o alicerce da vida que está sendo recontada. Sendo a readaptação mesma do livro, creio que as escolhas cinematográficas feitas foram muito boas. O resultado é que entramos na história como se pudéssemos se colocar na posição de alguém que está numa situação limite, como é o caso real do escritor do livro L escaphandre et le Papillhon. Acho que por isso o filme ganhou o Prix de la mise en scene em Cannes 2007.

Algumas cenas que me marcaram por ordem do impacto que me causaram:

1- Jean-Don (era o apelido de Jean Dominique Bauby) conversa com a amada Inês por telefone. Sua ex-esposa é quem media a conversa. Sem cair na solução piegas que seria colocar Jean-Don como alguém que se arrependeu das escolhas que fez para reencontrar o amor de sua vida inteira, a cena termina com sua ex-mulher lendo no piscar do olho atormentado um dolorido “ eu te espero todos os dias” de Bauby para sua amada.
2- O uso da memória e da imaginação do enfermo. A cena em que ele se imagina jantando ostras com a amada…
3- Os sonhos que representam a solidão, onde ele se vê descendo para o fundo do mar dentro e de um escafandro.

Texto mais profissional a respeito do filme, aqui gente.

É isso por hoje.

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