BJ para prefeito

Esse texto que vou postar é do meu amigo Bernardo Jurema e foi postado originalmento no seu Bocejo. É de longe, o melhor texto que já li dele. Claro, indignado, propositivo, crítico, auto-reflexivo. Como bem sugerido por Cesar, é um verdadeiro post-manifesto. Traduz coisas que tantas vezes discutimos mas que, como ele bem coloca, fica sempre em estado amorfo, isolado em nossas individualidades bem pensantes. Não pedi autorização ao autor. Tou publicando sem a foto.

Ai vai…

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

Viva o progresso!
Um lugar aprazível, aberto, com plantas, pessoas interagindo do lado de fora…e até dá pra ver o céu! Nem parece Recife.Agora, logo após as votações do primeiro turno, ficamos sabendo que os armazéns lá no São José foram vendidos para a Moura Dubeux. Por ali, passa a segunda malha férrea mais antiga do Brasil. Mais um patrimônio arquitetônico da cidade vai ser demolido, aniquilado, apagado do mapa sem deixar rastro, e não tem um único grito, manifestação, protesto, choro, o que quer que seja, em defesa da memórial material da nossa comunidade. Viva o progresso? Morra a cidade.

Comunidade? Eis aí um conceito que se desconhece em Recife. Prevalece a lei do cada um por si. Essa é a grande questão da cidade, sobre a qual ninguém falou. Os principais problemas da cidade se devem à subordinação do público ao privado. A iniciativa privada é que dita o ritmo, a intensidade e a direção do crescimento de Recife. O poder público corre atrás desesperadamente, fazendo arremedos de intervenções e equipamentos urbanos. Que sempre ficam prontos quando é tarde demais. O bem coletivo não é levado em conta, em detrimento de interesses particulares. São uns poucos – donos de casarões antigos, especuladores imobiliários, construtoras… O resto, todo mundo, paga o preço muito caro do lucro deles. E então onde antes numa rua qualquer havia 5 casas, de repente elas somem e em seus lugares emergem 5 mondrongos de 27 andares, 4 apartamentos por andar, 2 ou 3 vagas de estacionamento. Faça aí a matemática. A infra-estrutura viária, a tubulação do esgoto, outros equipamentos urbanos como parques etc, permanecem os mesmos de antes!

Aí fica agora todo mundo falando de crise em Wall Street. E a crise das grandes cidades brasileiras? E a crise de Recife? Recife está seguindo um rumo que é inviável. Este estado de coisas não é fruto do acaso, não é um acidente da natureza. Quer entender o que está acontecendo em Wall Street? Olhe em sua volta: Recife materializou o que ocorreu lá virtualmente. Esse estado de coisas é resultado de escolhas que foram feitas, e que continuam sendo feitas, e de uma certa ideologia hegemônica que permeia a nossa sociedade e que o legitima. A mesma lógica que levou à crise financeira mundial está por trás do caos urbano em que está se transformando o Recife. É a ausência radical de regras, é o capitalismo selvagem, predador. Pode-se destruir e construir em Recife à vontade. É o Estado-mínimo em prática. Na verdade, está mais para Estado seletivo. Quem é vítima da violência policial sabe bem que o Estado, muitas vezes, de mínimo não tem nada: ele pode ser monstruosamente grande. É a privatização dos lucros, a partir do espaço público, e a socialização dos prejuízos, porque somos todos os contribuintes que pagamos pelas conseqüências da verticalização sem limites. Regras! Eu quero regras!

Aliás, regras… Isso é algo que vai além da capacidade cognitiva do cidadão recifense. Estamos a matarmos uns aos outros. As regras, quando existem, são solenemente desrespeitadas. Fica evidente por onde se passa na cidade. Aliás, transportar-se em Recife poderia ser considerado um esporte radical. Emoção pura. Dirigir por aqui , como disse um amigo, é como entrar num trem fantasma: surpresas e obstáculos surgem de todos os lados… isso na melhor das hipóteses, quando o trânsito de fato flui! Sem falar do assalto que as classes médias fazem às águas públicas, enquanto 2/3 da população da cidade padece de falta d’água crônica! A lista é infindável. Assalto a mão armada na frente de prédio é NADA comparado com todas as outras violências implícitas e explícitas que sofre a maioria dos recifenses em favor de uma minoria mesquinha.

Todos os nossos problemas temos resolvidos, nós “classes média e alta” (vista a carapuça quem quiser), os problemas coletivos de forma individual e privada. O prédio foi uma solução para a moradia. O carro, para o transporte. A cidade do Recife é (mal) feita pro morador de prédio usuário do carro. Priu. O resto são inconvenientes que enfeiam o Canal de Setúbal no Natal ou que envergonham os visitantes na Centro ou que roubam minha carteira na Agamenon. E tome grade e muro e câmeras de vigilâncias e guaritas e vidro fumê. Outro dia fui com uns amigos, andando, até o Plaza Shopping. Surgiu o questionamento – por que não resolvem a fedentina do canal que passa ali ao lado. Eu apontei pra passarela que liga o edifício garagem ao prédio do shopping e falei: olha ali, resolveram sim.

O modelo urbano recifense é intrinsecamente excludente. O recifense (das classes médias e altas) não anda a pé. Andar a pé em Recife é uma experiência sui-generis. Porque ou você vai se achar numa cidade fantasma ou então no Marrocos. Toda semana vou almoçar na casa de um tio que mora no Parnamirim. São 15 minutos a pé da minha casa até a dele. Uns 7 de bicicleta. Riem da minha cara: tá liso diga! Para eles, é incompreensível que alguém, por escolha, não use o carro. As classes abastada da cidade têm vergonha da cidade em que vivem. Nunca andam na rua da Imperatirz, jamais pisarão num mercado público. O negócio é Shopping Recife. O negócio, mesmo, seria Miami, ou pelo menos São Paulo. Mas o Shopping Recife já está de bom tamanho. E tome prédio. E tome carro. Vivemos numa sociedade desintegrada, e cada vez mais indo nessa direção.

Se tudo isso fosse só uma questão estética (prédio alto é feio, carro é feio), eu nem diria nada. Poderia-se dizer que se trata apenas de questão de gosto… Para a maioria das pessoas, não importa que a cidade fique toda igualzinha a Boa Viagem. As particularidades de cada bairro, reflexo de histórias específicas, pode ser considerada frescura babaca burguesa sentimentalóide nostálgica… Pode, pode, não nego isso não. Mas reflete um descaso total com o futuro. Agora mesmo, o mar está avançando sobre os prédios de Piedade e Candeias e sobre o calçadão de Boa Viagem. Se lá atrás, nos anos 70, houvesse uma preocupação com uma ocupação mais racional da orla os problemas mais graves que estão ocorrendo e que vai piorar poderiam ter sido evitados.

Tem gente preocupada em Recife com essas questões? Tem. Muita gente boa. Muita gente jovem. Mas essas pessoas estão por aí, soltas, desarticuladas. Não há uma voz política. Estamos perdendo a batalha ideológica em prol de um Recife mais humano onde o bem coletivo passe a sobrepor-se aos interesses particulares. Quem sabe em 2012 poderemos votar em algum candidato a vereador preocupado com essas coisas?Ou então vamos oficializar logo essa parada: Moura Dubeux para prefeito do Recife!- – – – – – – – –

Já abordei esse assunto antes:- Recife ruiráPrivatizaram o horizonte!Utopia recifenseA Terra Prometida da casta-média brasileira

Anúncios

Dialogo com o feminismo: ainda sobre o caso Santo André

Eu gostaria de tentar expor de maneira mais clara minha opinião a respeito do caso Santo André situando-me em relação à visão feminista do caso, coisa que tentei fazer já no outro texto, mas de maneira incipiente.

Eu começaria dizendo que acho legítimo o esforço de fugir do efeito de ratificação do real que seria negar a presença das mediações dos esquemas de dominação masculina no caso de Lindemberg. Negar isso, seria ignorar um problema de ordem maior na estruturação das relações sociais que pesa, em todos os niveis da hieraquia social, sob a posição de subordinação das mulheres em relação aos homens. Não se trata de negar isso.

Porém, acredito ser preciso ponderar sobre o peso da análise desse tipo de fenômeno pelas feministas no caso da morte de Eloá(três opiniões aqui). Não raro, para fugir do efeito paradoxal que o descrever os efeitos negativos da dominação masculina e ou da exploração de mulheres por homens gera, somos impelidos a usar os recursos analíticos da análise feminista admitindo que é preciso “deixar de lado a análise da submissão, por medo de que, ao admitir a participação da mulher na relação de dominação, não se leve a tranferir dos homens para as mulheres a carga de responsabilidade”(J.Benjamin, 1988. p9*).

Sei. É difícil saber a real medida das coisas. Principalmente em situações onde se correr o bicho pega e se ficar o bicho come. Tratar a dominação masculina em termos de submissão pode significar estar dando mais armas à opressão. Não julgo a dificuldade. O paradoxo existe e consiste no risco mesmo de acentuar os elementos negativos das diferenças culturais na natureza dos dominados e explorados.

No caso dos textos feministas aqui comentados, “a culpabilização das vítimas” e a “vitimização dos culpados” aparecem como elementos centrais do tratamento equivocado dado ao crime visto que “[c]rime passional não existe! [O] crime é a misoginia do sequestrador, dos policiais, do governador e da mídia! As mulheres morrem porque os homens odeiam quando elas são mulheres, elas mesmas, em vez de SUAS namoradas, SUAS esposas, SUAS mães.”( Ana Reis, A “crise amorosa” do Coronel Felix); ou ainda que “eles não são apenas crimes passionais, eles podem [ser] situados numa teia complexa de construção de valores sociais que forjam um feminino fraco, vulnerável, incapaz e sem condições de decidir a própria vida, em contraposição a um modelo de masculinidade rígido e legitimado socialmente a partir da força, da dominação e do controle. São de certa maneira estes alguns dos elementos que mantém os mecanismos psíquicos do poder na constituição do sujeito e a na construção da sujeição” (Sandra Raquew, Eloá. O que as mídias e os especialistas não discutem).

Sem negar que esses menanismos sociais balizados pela diferença de sexo estão em funcionamento no momento da crise, no seu desenvolvimento e final, acho que não podemos/devemos perder de vista uma coisa: do ponto de vista da sociologia, o por em evidência a influencia da dominação masculina sobre as culturas do masculino (habitus masculinos na terminologia bourdieusiana), não é, em nenhuma instância, tentar desculpar os homens. Como disse Bourdieu é mais, naquilo que uma perspectiva analítica pode ter de engajada “mostrar que o esforço no sentido de libertar as mulheres da dominação, isto é, das estruturas objetivas e incorporadas que se lhes impõem, não pode se dar sem um esforço paralelo no sentido de liberar os homens dessas mesmas estruturas que fazem com que eles contribuam para impô-la.”(Pierre Bourdieu, A Dominação Masculina, 2007.p 136).**

Ao ler os textos feministas com esse conteúdo tenho a impressão de entender melhor porque o militantismo às vezes torna delicada uma abordagem não apenas articulada com o particularismo político dela proviniente. O melhor dos movimentos políticos, nesse sentido, está fadado a fazer má ciência, isso, caso não consiga transformar suas disposições subversivas em instrumentos realmente reflexivos, em ferramentas de uma auto-crítica. Mais uma vez tento esclarecer que o objeto de minha reflexão é essa confusão: todo esforço de descrever a verdade da relação entre os sexos torna-se, numa visão particularista, sempre uma maneira de ser condescendente com as mulheres agora que pode se tratar, justamente, de uma decrição de como as mulheres terminam sendo objetos de codescendência.

Nesse sentido, e em outros ainda, continuo achando que outras lógicas sociais foram mais importantes para o resultado do caso. Lindemberg deve ser julgado pelos crimes que cometeu. Mas não apenas por representar o machismo de nossa sociedade, que do ponto de vista da análise de sua presença no mundo social, enquanto estrutura objetiva que ordena também elementos da subjetividade de homens e mulheres, torna a leitura desse código(o machismo) problemática já que homens e mulheres podem estar reproduzindo esse esquema de dominação masculina inscrito nos códigos socio-culturais mesmo com toda boa vontade(inclusive dentro de uma visão feminista). Como condenar estruturas cognitivas presente e difusas no mundo social por crimes por elas ocasionados? O crime será julgado pelo fato de ser crime. Deveria a polícia ter atirado no rapaz em nome dos direitos das mulheres e contra o androcentrismo? Acho sinceramente que os critérios de uma decisão como essa deveriam ser outros.

Continuo pensando que a mídia (razões de lógica de mercado, audiência, etc.) e a polícia (por incompetência) são as duas principais responsáveis pelo final trágico da história. E isso porque foram as instituições que mediaram os elementos dessa realidade social dada (mediando inclusive às lógicas machistas operando na visão de amor de Lindemberg).

Obs. Também fico indignado com a corbetura novelistica do assunto. O Jornal do Commercio (para assinantes) e o Diario de Pernambuco deste domingo (26/10/2008) trazem matérias com essa melosa e melodramatica visão de amor romântico, os que os pais devem fazer etc…

Ps: achei interessante esse exemplo ainda da visão feminista , ver nesta carta.

* J. Benjamin, The Bonds of Love, Psychoanalysis, Feminisme and the Problem of Domination, New York, Pantheon Books.

** Pierre Bourdieu, A Dominação Masculina, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil.

Crise tira defunto da cova

No Hermeneuta (no post Mundo de loucos) encontramos a seguinte informação:

Crise aumenta procura por obras de Karl Marx na Alemanha

Editora vendeu em um mês nº de cópias de ‘O Capital’ que vendia em um ano.
– A atual crise financeira global parece estar aumentando a busca por obras de um dos maios conhecidos e ferozes críticos do capitalismo: o pai do comunismo, Karl Marx.
A editora alemã Karl Dietz, dedicada a livros de pensamento de esquerda disse já ter vendido, neste ano, 1,5 mil cópias da obra mais famosa de Marx, O Capital, escrita em 1867.
Só no mês passado, foram vendidas 200 cópias, o mesmo número que, no passado, costumava ser vendido em um ano.
A Dietz não é a única editora a publicar obras de Marx, mas, segundo a imprensa alemã, lojas ao redor da Alemanha têm visto um aumento de 300% na venda do livro nos últimos meses.
O correspondente da BBC David Bamford afirma que muitos vêem a atual crise como um fracasso do capitalismo e que a obra de Marx poderia ajudar a entender o que deu errado. Segundo Bamford, o número de visitantes a Trier, na Alemanha, cidade natal de Marx, subiu neste ano para 40 mil.
O curador do museu da cidade afirma que já perdeu as contas de quantos visitantes ele ouviu dizer que Marx estava, afinal, certo em suas críticas ao capitalismo.
Credo cruz, será que esse povo germânico estaria pensando nessas palavras e se dizendo “eu já li isso em algum lugar”?

“Em um sistema de produção onde toda a continuidade do processo de reprodução depende do crédito, quando este acaba subitamente e somente transações com dinheiro passam a ser aceitas, é inevitável que ocorra uma crise, uma tremenda demanda por meios de pagamento. É por isso que, à primeira vista, a crise inteira parece ser somente uma crise de crédito e de moeda. E de fato trata-se apenas da conversibilidade de letras de câmbio em dinheiro. No entanto, a maioria destes papéis representam compras e vendas reais, cuja extensão – para muito além das necessidades da sociedade – é, afinal, a base de toda a crise. Ao mesmo tempo, há uma quantidade enorme destas letras de câmbio que representam mera especulação, que agora revela sua face e colapsa; especulação fracassada com o capital de outras pessoas, com o capital-mercadoria depreciado ou invendável, ou com ganhos que nunca mais poderão ser realizados. Todo esse sistema artificial de expansão forçada do processo de reprodução evidentemente não pode ser resolvido com um banco, por exemplo, o Banco da Inglaterra, entregando a todos esses especuladores o capital que lhes falta através de seus títulos, comprando mercadorias depreciadas a seus antigos valores nominais. Aliás, é nesse momento que tudo começa a parecer distorcido, já que nesse mundo de papel, o preço real e seus fatores reais desaparecem, deixando visível somente metais, moedas, cédulas, letras de câmbio e títulos.” (Karl Marx, O Capital, vol. 3, cap. XXX.)

Tragédia de Santo André: a culpa é dos Deuses gregos?

Uma das coisas que sempre admirei nas tragédias de Shakespeare é o fato da predestinação de seus personagens se transformar em elemento constitutivo da própria narrativa. Assim, nós leitores, que muitas vezes já sabemos o final da estória, temos sempre aquela impressão que algo vai mudar, e, junto com o impulso narrativo, esperamos que a luta contra o inelutável dos Romeus e Julietas (que configura a trama das tragédias) será retribuído com a vitória do amor em vida.

Ledo engano, Shakespeare, em bom leitor dos gregos sabia que a dimensão propriamente trágica do gênero estava nessa ruptura, nesse fosso existente entre o mundo da vida e suas expectativas mais nobres. O amor em pleno mundo hostil só pode se realizar plenamente ao eliminar sua possibilidade mesma. É preciso destruir os agentes da mediação chamada amor, é preciso matar os amantes. Destino por definição inelutável, obra silenciosa de acasos pré-ocasionados por maldições, por deuses furiosos, por forças conhecidamente desconhecidas às quais homens e mulheres se conformam com ou sem relutância, a tragédia não produziria efeito de força dramática sem o desfecho esperado (apesar de não desejado, nem pelos leitores nem pelos personagens).

Graças a mídia (sobretudo a cobertura da Globo e da TV Record) O caso de Santo André trouxe elementos trágicos da ficção para mundo real. Contudo é preciso reforçar algo: a ficção por mais realista que seja não é nunca mais do que a produção de um efeito do real. Ou seja, ela é a produção de um efeito de conformidade ao real fundado na sobreposição formal das normas sociais que aderimos num dado momento como sendo reais. A mídia “jornalística” (sobretudo a televisiva) criminosamente jogou com esses efeitos da relação entre mundo real e fictício. Mas, a meu ver criminosamente, o fez em sentido inverso. O efeito de ficção, que é bem real em seus efeitos foi nesse caso como em outros bastante desastroso.

O cineasta Bruno Barreto vendo a centralidade da mídia para entender o seqüestro disse o seguinte sobre o caso:

“Li tudo a respeito desse seqüestro em Santo André nos jornais. A presença que a mídia tem é muito grande na vida das pessoas, vejo a intersecção das duas histórias por aí [entre a história de Eloá e a que ele reconta em seu novo filme, o Última Parada 174.] A necessidade que Lindemberg [Fernandes Alves] tinha de ser visível também aconteceu com o ônibus, das pessoas verem sua dor. Esse é um dos subtextos presentes no filme.”

Subtexto ao mesmo tempo do filme e do mundo a mídia agiu de maneira irresponsável no local da crise. Para mim ela foi enquanto visão de mídia não apenas um subtexto, mas um pré-texto do crime, agindo como principal responsável junto à polícia da tragédia real. Foi a mídia televisa quem deu o tom e contorno de coisa já vista.

Na sua relação corrosiva com o real (porque sensacionalista) trouxeram como marca das transmissões ao vivo do caso a arrogância dos que crêem “formar opiniões” ou acreditam “criar ou recriar o real”. A mídia televisiva (sobretudo as coberturas da Globo e Record) eliminando os registros da linguagem informativa insistiram na narrativização da situação tornando a realidade um “mero” efeito de ficção. A responsabilidade da mídia sensacionalista precisa ser discutida e apurada.

Na ficção do real a potência de evocação de um estilo produz, pelos princípios de apreensão do real dados pela linguagem para linguagem, o efeito de decifração do mundo, e, em sentido inverso ao efeito de ficção trazido pela espetacularização da vida real, dá acesso inteligível aos desígnios das trajetórias de vida por ele sendo narradas e ou descritas. No efeito de ficção a vida mundana ganha contornos extra-ordinários e a simples presença da mídia televisiva superdimensiona os fatos.

Narrativa da Narrativa

Assim…

No caso dessa tragédia real não shakespeariana, Eloá não amava mais Lindemberg. Inconformado, o rapaz partiu para o tudo ou nada do sentimento de posse. Como um Paulo Honório urbano Lidemberg não admitia dividir Eloá com ninguém. Covarde, preferiu coloca-la em cativeiro e depois mata-la a ceder os desígnios do acaso amoroso. Pressionado por todos (mídia, policia, entre outros),o amor doentio do jovem se desfez em dor sem volta e sem reparo. Para ele, para ela. De quem é a culpa? Claro, do rapaz.

Mas indo além da obviedade de que Lidemberg deve responder pelos crimes por ele cometidos, existe algo mais a se pensar para compreensão do ocorrido em termos do interesse público do caso: em que medida não foi o próprio criminoso também vítima de uma orquestração de forças (sociais, psíquicas, dos deuses gregos da mídia, da polícia) que o levaram a por fim de maneira tão covarde ao amor de sua vida? A essa pergunta nós deveríamos debater para procurar respostas a respeito da irreversibilidade e redundância de nossos destinos de brasileiros miseráveis (miserável aqui em sentido social da palavra).Digo de antemão não crer existir nessa proposição uma intenção de vitimizar o criminoso.

Pessoalmente acredito que os responsáveis institucionais dessa tragédia particular são no mínimo dois: a polícia incompetente que não soube lidar com a pressão da mídia cedendo à espetacularização do crime e a mídia irresponsável que na ânsia de audiência não soube manter-se em sua função. (ver comentários a esse respeito aqui –cf comentários). E mais, isso porque borrar as fronteiras entre ficção e realidade sem mostrar quem está mediando a estrangulação desses limites deveria ser considerado crime…

Claro que outras lógicas operaram no caso. Para o Colcha de Retalhos, por exemplo, a questão de gênero mediou o sentimento de posse do rapaz o que explicaria em certa medida o final trágico. Tudo bem, eu acredito que o fato de ser homem deve ter em alguma instância impactado no tipo de desespero de Lindemberg. Mas volto à inversão da lógica do real pela do ficcional: se considero a origem simples de Lidemberg, origem real de um jovem pobre saindo da adolescência, fica difícil não acreditar que a mídia não tenha sido o trunfo final do destino trágico dessa história, na sua operação de produzir a ficção do real. O que ela continua fazendo sem dó no decorrer de sua cobertura. Acuado, superdimencionando suas próprias atitudes em cadeia nacional, Lidemberg fez o que fez. Culpado, sim. Deve pagar pelos crimes que cometeu, sim.

Mas a culpa, dizia Camus, tem algo de supra-jurídico. A ignorância a atenua em direito, mas não em consciência, como no caso de Édipo Rei. Eu diria mais, a culpa tem algo de extra-social (ela é mais social ainda) no que ela tem de social nos indivíduos. Existindo em Lidemberg, não se encerra nele. E é sobre essa culpabilidade extensiva ao mundo social que o debate público deveria se ater mais fortemente. Pois a mídia e a polícia nos devem explicações, assim como os malvados deuses gregos… Afinal, mídia e polícia foram, a meu ver, os representantes modernos da hostilidade do mundo que, como numa peça de Shakespeare, apareciam como mediadores da esperança de um final diferente, mas foram, finalmente e verdadeiramente, os fatores da obstinação do destino. Destino de Eloá. Destino de Lidemberg. E nosso destino também. Porque o problema para nós cidadãos continua o mesmo: nossa impotência diante de certos Deuses…