UFPE via Universités en France: estranhamento antropológico na experiência acadêmica de um jovem suburbano (I Parte)

Conheço pouco Luciano Oliveira. De encontro, lembro de uma única vez. Em sua sala marcamos para conversarmos acerca de Graciliano Ramos, personagem central de uma tese tratando da relação complexa entre sociologia e literatura no Brasil. Na ocasião eu percebi duas coisas dele. Por um lado, sua amabilidade para comigo. Ele me pareceu um sujeito extremamente educado, prestando atenção no que eu lhe falava mesmo deixando transparecer que considerava minhas preocupações um pouco tolas. (Elas devem ser de fato) Lembro que quando falei da polêmica que analisara em meu mestrado a respeito da verossimilhança de Paulo Honório, ele me disse em tom de brincadeira: “Paulo Honório escrevia do jeito que Graciliano imaginou e pronto”. Eu achei engraçado e amigável aquela maneira de relevar minhas preocupações. Não existia desrespeito, mas era como se ele me dissesse: “não tente tirar leite de pedra menino”. Como cabeça dura que sou, disse-me, meu propósito foi legítimo. Por outro lado, senti certo descontentamento da parte dele com o universo universitário. Algo no que ele me dizia soava aos meus ouvidos como: “não faço parte disso aqui”. As vezes me sinto assim também.

Pois bem, essas impressões do homem me ficaram. E a elas se juntaram outras de textos dele que li. Delas (das impressões) retiro motivação para esta pequena reflexão blogueira que pretendo desenvolver em duas partes.Deles (dos textos de Luciano) retiro as nuances do que quero dizer, tomo dalí os elementos nos quais me apoiar. (Essa primeira parte aqui, leitor, é uma justificativa metodológica do texto.)

Num artigo sobre Graciliano Ramos, por exemplo, que infelizmente não posso citar porque não tenho as referências, mas onde, foi assim que o li, com um olhar de “amador” (porque amante da obra e admirador do homem que a escreveu), Lucinano procurava indentificar e decifrar aquilo que a crítica chamou a atenção como sendo a imbricação necessária do homem Graciliano ao escritor. Uma bela homenagem. É um texto que guardo comigo e que com certeza vou usar em minha tese compondo com e contrapondo contra seus argumentos.

Gosto muito de um outro que me foi indicado por Alfredo Cesar. Acho-o fantástico. Um pequeno estudo de caso sobre a opinião de alunos de Direito no Recife sobre a pena de açoite para pichadores. E confesso: o que me mais me encantou nesse texto foi a atitude metodológica de exposição que, mostrando passo a passo o seu desenvolvimento, delineia com verdadeira honestidade os critérios da construção do objeto.

Nesses textos coerentemente com as minhas impressões do encontro percebo o mesmo contraste: algo que me aproxima do olhar e ao mesmo tempo me distancia na postura. Seria essa dupla impressão fruto de nossas experiências ao mesmo tempo similares e tão dispares?

Se me pergunto com sinceridade o que me leva a querer escrever sobre essa minha ínfima relação com o professor Luciano Oliveira, eu diria que mais do que nosso pequeno encontro e os artigos a cima evocados, foi seu texto de blogue que me impulsionou a reagrupar essas impressões e recordações e querer tratá-las de um ponto de vista mais… mais auto-analítico, digamos assim.

Lendo seu Brasil via Paris: descobertas de um estudante brasileiro no país dos bricoleurs senti uma vontade irresistível de entender meu sentimento paradoxal de empatia e estranhamento durante minha leitura deste artigo. Um sentimento daqueles que você tem quando, tendo partilhado uma experiência análoga, termina por perceber os pontos de semelhança e diferença e se perguntar encasquetado: “não sendo a mesma pessoa daquela vivência vivi situações e sensações semelhantes, mas por que algo daquela experiência recontada, portanto tão parecida, escapa a minha compreensão?”

Pensei, pensei, pensei. Por que não esboçar um paralelo? Algo do tipo contrastar alguns elementos do que julguei essencial no texto do Professor Luciano Oliveira, que é esse revelar a importância da viagem para construção de um olhar antropológico, de estranhamento a respeito do mundo que antes nos parecia familiar, comparando com minha própria experiência de estadia na França. Melhor. Que tal falar de um aspecto deixado de lado no relato/análise dele e que talvez mais do que todos os outros represente o calo recalcado de quem sai e volta de uma experiência acadêmica num país tido como desenvolvido: o estranhamento com o próprio meio universitário e acadêmico.

Traçar uma “comparação” com esse viés específico tem duas vantagens:

1) eliminar em parte o problema segundo o qual seria inapropriado tornar inteligível esse contraste entre a minha experiência e a dele na França porque se tratam de vivências que não se deram em mesmo tempo histórico e que foram vividas entre pessoas muito diferentes. Nesse sentido, contra esse argumento, eu diria que é justamente porque não se trata de uma comparação termo a termo, mas sim de uma avaliação a respeito da ausência ou quase ausência no olhar antropológico de Luciano Oliveira sobre o estranhamento com o mundo acadêmico mesmo (o nosso universo de produção cultural por excelência, a UFPE), que nos traria de quebra, em nosso favor, elementos para avaliar uma condição que é a nossa( a de intelectuais de um país periférico, num estado periférico). Claro, não se pode deixar de ter em mente o seguinte: em 1986, ano do início do doutorado de Luciano Oliveira na França, eu ainda estava me confrontando com meus dilemas de adolescente suburbano. Morando em um bairro de subúrbio violentíssimo (Ur-6 Ibura), entrando numa escola de classe média (Marista Recife), e, no período em que ele se tornava doutor, não sei nem se sabia onde era a França no mapa do mundo). Contudo, a Education Nationale continuou basicamente a mesma e as políticas de educação na França pouco se alteraram com as alternâncias de governo, como Luciano bem situou, educação na França é responsabilidade de Estado, fazendo com que a escolha de tratar do nosso estranhamento em função da experiência universitária seja uma fonte riquíssima de reflexividade. E isso porque se perguntar realmente sobre as condições de possibilidade da sociologia no Brasil, em Pernambuco e em Recife passa necessáriamente por uma preocupação sobre o tipo de sociologia que é produzida num país onde a educação não é (ao menos em sentido francês, do republicanismo francês, uma questão de Estado)
2) assim, mesmo sendo difícil comparar a França de 2000 (ano em que fui para lá) a de 1986(ano em que o Luciano Oliveira foi) – e sempre tendo em mente que no horizonte de comparação temos como mediadores do estranhamento antropológico um jovem estudante de graduação oriundo de classe popular marcado por uma trajetória de fracasso escolar recente e um mestre oriundo da classe média –, a escolha pelo contraste no próprio universo acadêmico pode ser extremamente interessante justamente por servir de reflexão a respeito não mais de generalidades da cultura brasileira, mas de elementos práticos de compatibilidade e incompatibilidade entre ethos acadêmicos do centro e da periferia do mundo de produção intelectual.
to be continue…
( A ser editado com o decorrer da análise).

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