Balanço do Oxymore: fronteiras da história de um blogue

Esse post vem falar do aniversário simbólico do Oxymore. Apesar de não ser exatamente o aniversário do blogue, já que ele teve início formal em março de 2004, existe um momento histórico que é de longe bem mais importante do que a data formal que o inaugurou: a eleição do meu pai para prefeito da cidade do Recife em 2000 (volto a isso mais adiante no texto).

Claro, o Oxymore surgiu e se firmou da confluência de várias pequenas coisas. Poderia citar algumas, sem ordenar a importância de cada uma delas:

– a sugestão de um amigo que me convenceu de que um blogue podia ser mais do que um mero espaço para publicação do vazio interior das pessoas. Para isso, ele primeiro argumentou: “ rapaz, um blogue pode ser também um espaço para debates, troca de idéias, etc.” Depois ele me mostrou (leiam esse antigo mas atualíssimo comentário de Cesar no Don Quijote, o segundo post dele , sobre o “caso Edward Said” e seu posicionamento sobre o conflito israelo-palestino). Fui convencido de vez porque vi na prática um blogue funcionando como espaço onde se escreviam muitas coisas interessantes e inteligentes sobre os mais diversos assuntos.

– ter saído do país e ter ido morar e estudar na França. Estar longe me estimulava a querer manter algum contato com o meu Brasil falando coisas sobre ele.

– o blogue era uma maneira relativamente fácil de manter contato com as pessoas queridas do Brasil que saberiam um pouco do que fazia e estudava.

Mas apesar todos esses elementos serem importantes, acredito que o mais determinante para a forma e conteúdo que o blogue tem ainda hoje tenha sido outro: eleições de 2000 e vou tentar explicar as razões. Não sem antes explorar outras aspectos menores.

Do primeiro contato com o mundo dos blogues retenho meu problema incial. Eu precisei responder a seguinte pergunta: será que como Cesar eu teria coisas interessantes a dizer sobre acontecimentos do mundo, sobre filmes, livros lidos, etc. ? Na minha cabeça a resposta era clara, eu não tinha. Ora bolas, de alguma forma o Oxymore é o resultado da não aceitação de minha resposta. Até hoje ele é a prova (para mim) de que a consciência de minha prórpria incapacidade não me serve como desculpa para nada nessa vida. Tanto, que a boa pergunta a se fazer hoje é de que forma o blogue se tornou um elemento de superação pessoal que continua funcionando para além de interesses meramente individuais meus.

Apesar de ter mudado muito nesses quase cinco anos de funcionamento, o blogue sempre manteve um certo padrão. Acho que hoje posso dizer que a linha diretriz encontrada aqui foi delineada já no seu primeiro momento de existência. Fiquem à vontade para discordar, mas, pessoalmente, eu vejo todo sentido em afirmar que minha atividade blogueira foi um esforço para me situar diante das novas configurações que se colocavam para mim naquele momento inicial. Eu quis fazer desse esforço algo de valor para um público mais amplo que meu próprio umbigo. Sinceramente não sei se consegui. E talvez por isso esse post faça ainda mais sentido.

O que fiz das limitações e medos inciais? Eu diria o seguinte: por conta de minha insegurança (e de incapacidades concretas) eu assumi uma postura que designaria mista na produção dos textos que hoje formam o conjunto até aqui postado. Mista porque ela se expressa através testemunhos pessoais que gostariam de ter um valor minimamente coletivo. Explico isso.

É preciso reconhecer que eu ainda não sabia ao certo a amplitude que um blogue poderia ter. Terminei por conta disso dando uma certa “amplitude quase familiar” aos textos, uma dimensão quase íntima contida nas recordações que nada mais eram do que posts direcionados aos amigos citados naquelas lembranças e que, na minha cabeça, eram os únicos que leriam os textos.

Mas essa tentativa de recordar foi algo mais também. Trazer minhas reflexões sobre coisas vividas, normalmente as que tivessem mais a ver com minha atividade intelectual, era uma maneira de buscar desmistificar um pouco minha própria trajetória para mim e para os outros (os amigos). Essa maneira de me relacionar com os textos tinha uma razão de ser que funcionava como modus operandi da produção. O que estruturava\estrutura o blogue era\é uma espécie de consciência difusa que me fazia/faz sentir fazer parte de maneira um pouco diferente da história política recente do país.

Na verdade, vejo hoje que na minha cabeça a única contribuição individual de interesse coletivo minha para um espaço como é o do Oxymore seria a o do testemunho. O que de interessante eu tinha para dizer só poderia vir do fato de ser filho de um dos principais expoentes da política de esquerda local. Mas é preciso entender isso de uma forma muito específica. O mais impotante não é o fato, mas aquilo que está escondido por trás dele. A importância da trajetória do meu pai no meu blogue estaria menos na posição por ele ocupada(veriador, depudato, prefeito), e mais no caminho, no percurso de transições bruscas que as vitórias políticas do PT e de meu pai desencadiaram na minha própria vida. O Oxymore tem sido através de mim um retrato social de alguém que sintetiza internamente um pouco das tensões das disparidades sociais do Recife.

O que quero dizer com isso? Que o interesse maior do Oxymore para o seu autor está naquilo que ele conseguiu fazer até agora. A meu ver o grande mérito do blogue foi o de expor alguém que, mal ou bem – através dos anseios, oscilações, afirmações, comentários, análises, erros de português, do estilo pouco convencional, dos temas tratatos, dos receios internos de falar sobre alguns assuntos – enfim, expor alguém que condensa, pelos defeitos e qualidades, os traços de uma trajetória de ascensão social e política num país estruturado e se desenvolvendo em meio a um fosso social incomensuravel.

Imaginei que simplesmente contar coisas a partir desse ponto de vista, do de alguém que evoluia em tensão dentro desse processo socio-político maior, que desse contar e contar-me num work in progress de si e das inúmeras “tensões sem síntese” geradas pelo rebuliço de me ver mudando de classe social, de estatuto, de ambições, imaginei que disso tudo sobraria algo interessante para quem pudesse e quisesse se servir.

No dia primeiro meu pai deixou de ser prefeito da cidade. Talvez ele não tenha muito idéia de como o avanço dele balança firme com o resto de nós, os da família. É provável que o impacto da trajetória dele não seja o mesmo em cada um separadamente.O Oxymore, nesse seu tempo de existência, tentou resgatar e registrar os aspectos mais significativos dessa relação implícita que é tão mais evidente quando os elementos que a fundam se dissipam no passado, mesmo que ainda recente.

Lembro-me bem dos tempos em que já no segundo mandato de deputado dele (ele foi veriador por dois anos, e depois três vezes deputado estadual), ainda morávamos na UR-6 por alguma razão. Qual seria? Por que ficamos nesse lugar onde amigos de infância entram no crime e se matam entre si? Seria a presença dos meus avós ainda então vivos? Seria um sentimento difuso de culpa que nos dizia que sair do suburbio seria uma espécie de traição social? O fato é que nossa condição social havia mudado. Daquele ponto em diante, tudo era possível. Meu pai ser prefeito da cidade. E eu criar um blogue. Lugar onde eu não quis confudir a lógica das minhas coisas com as coisas da lógica (minha e dos outros). E que hoje comemora um aniversário simbólico, com toda coerência antinômica desse mundo que se chama o Oxymore.

(continua… em breve)

6 pensamentos sobre “Balanço do Oxymore: fronteiras da história de um blogue

  1. Jampa, muito interessante o balanco. BOm saber que voce encontrou um tom certo para o seu blogue. Embora discorde que ele eh um blogue de “testemunho”. Ha bem mais que isso. Um grande abraco!

  2. As respostas estão dadas. O tempo da vivência não deixa que as repostas sejam dadas de maneira esquemática. E o presente é uma representação imperfeita daquilo que o passado pode indicar. Toda consistência, inclusive a do blogue, depende desse reconhecer que certas coisas não dependem das respostas dadas, mas sim das perguntas feitas. Porque para certas perguntas simplesmente não temos respostas. As respostas bem dadas as vezes são essas que não diluem as perguntas que as tornaram possíveis. Mas isso só é possível quando reconhecemos que uma antinomia as vezes é de fato uma tensão sem síntese perfeita. E toda vida garrega tensões… é filosofia de boteco, mas é isso primo. Abraço.

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