O futebol e a morta

Cheguei no CFCH para ver uma defesa de tese sobre futebol. Eu havia visto a apresentação parcial do trabalho em seminário e fiquei curioso para ver o resultado final. Deixei o carro estacionado atrás do prédio, ao lado do Centro de Educação. Observei o espaço retrabalhado na estrutura lateral inferior do colosso vertical e pensei nas reclamações de meu amigo Bernardo acerca do desrespeito ao patrimônio moderno que constitui as modificações ali feitas. E ensimesmado refleti : eu sempre achei que o característico de nossa arquitetura – mais do que as linhas mestras desenhadas por um arquiteto, e redesenhadas pelos  usuários e outros arquitetos- eram as inumeras reapropriações e modificações realizadas ao longo dos anos sob o mero improviso das demandas práticas do espaço.

O pensamento veio rápido e, sem o vento típico do lugar, não mais voltou. Subi o elevador pensando coisas desconexas. Tentei inutilmente modificar meu Currículo Lattes na sala de computadores do PPGS. Saí da sala meio irritado e…

A mulher estava lá, no chão com a cabeça espragatada. Tomou o lugar da minha reflexão e o da de Bernardo (que estava lá só em meu pensamento). O CFCH virou um espaço simbólico marcado pelo suicidio desesperado de alguém. Por que não colocar grades, perguntaram alguns já acostumados com outras prisões civis. Por que não telas? Devolveu um de relance. Um outro, mais nobre, fala em crachás, mas é retrucado em seguida: “a maioria dos suicidas era estudante daqui.” Não houve tréplica.

Eu gostaria de ter assistido a defesa da tese até o fim. Mas tinha psicanálise, ou seja, o meio de campo estava embolado. Naquele campo molhado, cheio de lama, falei da morta e do impalpável pathos da morte. O futebol, apesar de ser vários (profissional, amador, pelada), perdeu o impacto. A torcida morbida continuava presente, olhando o corpo colado ao solo. A inerte se perdeu para sempre, sem drible de volta… “sem drible de volta” respondeu a analista. Sim, “sem drible de volta”. Respondi…