Momento Tese

Caramba, é muito difícil para mim ficar tranquilo no momento de criticar uma obra monumental como a de Luiz Costa Lima. A intranquilidade pode existir por uma série de motivos. Por conhecê-la a pouco tempo, sinto-me constragido de situar meu trabalho com tanta ênfase em contraponto ao que Costa Lima vem defendendo há tanto tempo. Na verdade, o impasse aparece mais nitidamente, o mesmo acontece quanto a Antonio Candido(que conheço a mais tempo) , naquilo que a crítica e a teoria literária relegam como tarefa fundamental para sociologia.

Só consigo concordar com o que ele diz a esse respeito quando do lugar da sociologia (lugar de ponto de vista, de ajuda, de suporte à crítica) consegue-se colocar também no seu devido lugar os lugares da crítica e teoria literárias no mundo social.Existe ainda a hipótese de que o desconforto a cima referido ser fruto do peso de disposições cefichianas ( tomadas emprestadas de sua dinâmica conservadora de pesquisa). Quiça seja apenas o respeito por um caminho sincero e respeitável intelectualmente(o de Costa Lima), o que quero e espero que o meu também seja. Como no debate de idéias, respeito não deve corresponder à submissão passiva de argumentos, penso ver nos meus, quando conseguem se livrar do cefichianismo, momentos interessantes da afimação de uma maneira de ver a sociologia trantando de assuntos literários.

Vejam se concordam comigo. O ponto central do que digo está no seguinte, do que Costa Lima defende comento:

É preciso ter todo o cuidado. Mas está dito: não se pode, ao risco da igenuidade mais ignata, ler textos literários como se fossem documentos. Certo. Ao que tudo indica, com os olhos educados pela crítica moderna, ” em termo de modernidade”, Costa Lima desqualifica, em razão de uma perspectiva teórica de horizonte normativo (como não poderia deixar de ser?), a quase totalidade de leituras feitas da obra de Graciliano Ramos na época de sua publicação.

No subcapítulo intitulado ‘ Graciliano Ramos e a recusa do caeté’ ( Costa Lima, 2007, p. 437-446), após mostrar a semelhança de uma descrição feita por Graciliano a tantas outras feitas e tidas como ” relatos realistas”, Costa Lima reafirma o veio e o julgamento que caracteriza seu trabalho:

“[É] evidente a procura de documentar até o detalhe. Mas o tipo de realismo de Graciliano não resulta da fidelidade da apresentação de uma procissão interiorana senão a densidade como a cena se compõe: o absoluto distanciamento do narrador diz de forma sintética e pelas brechas entre as palavras da falsa religiosidade da cerimônia alegórica do desfile de ”destaques”. […] O descritivismo documentalista é superado pela proximidade da náusea e do grotesco. Essa é uma das poucas passagens de Caetés em que o escritor ultrapassa a mera documentação das aflições do medíocre narrador” (Costa Lima, op. cit., p.442).

É passar os olhos na documentação do Arquivo Graciliano Ramos e perceber que o olhar construído pela teoria literária e pela crítica, ao menos na versão aqui estudada, é, na medida em que tenta afirmar a autonomia da obra como critério de leitura mais correto, um contraponto idealizado da realidade histórica de uma época que, esta, é o que revela a análise dos documentos daquele contexto, leu Caetés com os olhos de um realismo chinfrim (chinfrim aos olhos da crítica dos dias de hoje, entenda-se), sociologizado e pouco afeito às nuances do “realmente ficcional” da literatura.

Será que estou extrapolando minha função de sociólogo?

Costa Lima, L. A Trilogia do Controle (2007), Topbooks, Rio de Janeiro.

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Um texto publicado

Aqui vai um texto de Clarissa Diniz co-escrito por mim que foi publicado ano passado num livro chamado “Souzousareta Geijutsuka”. O toque sociológico do texto, que busca entender os mecanismos de desvelamento das lógicas de legitimação encontradas no experimento (explicação aqui ) do artista Yuri Firmeza ( resuminho aqui) são bem interessantes. Espero que gostem. Por não ser sociologia em sentido estrito (a que eu gosto), hesitei um tempinho em colocar no meu currículo (de sociólogo). Pressionado, terminei cedendo.

Firmeza: historieta da contradição legitimadora
As lógicas de legitimação são a um só tempo objeto e sujeito da obra de Yuri Firmeza. Objeto porque é disso que trata seu trabalho, sujeito porque seu trabalho é isso – o debate acerca das lógicas legitimadoras através delas mesmas. Ao falar de através de, o artista faz ver – claramente – o quanto os objetos são constituídos não somente de suas matérias específicas, mas, mormente, dos mecanismos de agenciamento dessas matérias.
Com Souzousareta Geijutsuka, interessa a Firmeza demonstrar o quanto, no contexto do sistema de arte, uma obra é, em grande parte, o conjunto de conceitos e verdades socialmente construídas acerca dela. Souzousareta, por exemplo, era menos suas obras (representadas apenas por poucas fotografias) do que seu currículo – o fato de já ter supostamente exposto quatro vezes no Brasil, bem como em Tóquio e Nova Iorque: grandes centros produtores e corroboradores da arte internacional.
Assim, consciente dessas lógicas, Yuri desenvolveu uma ação que visava revelá-las, apostando em seu desvelamento como forma de crítica às práticas excessivamente sociais de arte que, prioritariamente interessadas nas legitimidades das obras com as quais lidam, por vezes negligenciam outros aspectos – habitualmente menos sistêmicos e, quem sabe, mais transcendentais- das mesmas. Ainda que a ênfase da sua crítica estivesse na mídia, sua atitude pode ser estendida a todas as instâncias legitimadoras da produção de arte ( a crítica, curadoria, instituições, mercado, público, entre outras) que, agentes dos processos de construção de reputações e validades sociais, são, na maior parte das vezes- como demonstrou a imprensa cearense-, meros instrumentos desse processo: de algum modo, Yuri fez ver que nós, produtores de legitimidades, somos mais manipulados por tais legitimidades do que de fato as manipulamos.
Também o artista, na dinâmica condição de ser- como todos- simultaneamente produto e produtor do sistema de disputa por legitimidade, dele não se desvia. Ainda que sua obra tenha – ao expor a fragilidade (ou mesmo a falsidade) do processo de construção da verdade midiática – colocado em xeque os jornais de Fortaleza, ela, contudo, não se desvencilhou desses mesmos processos. A partir de uma mentira legítima, Yuri, por sua vez, foi legitimado diante não só da imprensa, como do público, da crítica, etc. E mais: foi legitimado como um questionador das legitimações.
Tal qual sua obra – ao mesmo tempo sujeito e objeto de seu “tema” -, o artista, ao criticar a vulnerabilidade de nosso sistema de arte, foi corroborado por efeito reverso de tal susceptilidade: não fosse a imprensa tão, digamos, “ingênua”, Firmeza não teria sido tão legitimado. Sua ação, apesar de ter alcançados tamanha reverberação, não foi capaz, todavia, de instaurar outras dinâmicas legitimadoras para além daquelas por ele criticadas- aquelas em relação às quais ele é, inclusive, “benificiado”.
Ao fim do processo, mesmo que estejamos todos ainda completamente filiados ao jogo social colocado em questão, parece-nos, todavia, que dele tomamos maior consciência. O desvelamento intencionado pelo artista aconteceu, e os “mistérios” de um processo legitimador que se faz passar por verdadeiro e justo foram (ao menos parcialmente) “descorbertos”. Ainda que por um breve momento, o artista foi capaz de fazer sumir a aura das dinâmicas sociais que fazem parecer imparciais as legitimidades construídas. Abriu-se um espelho sobre nós, e foi impossível negar a realidade refletida a partir de nossas ações.
E, desfeita a ilusão da imparcialidade, resta a crueza da consciência de sabermos, mais uma vez, que somos nós que, de maneira sistêmica, somos os responsáveis por um campo de arte que não só fabrica verdades – como é natural e, provavelmente, inevitável-, como também as falseia. A um só tempo produtos e produtores deste sistema, é preciso que deixemos de lado a infame tentativa de procurar um culpado- como fez a imprensa cearense. Quando a responsabilidade fragmenta-se (como ocorre entre os menbros do campo da arte), a culpa dilui-se. É preciso, portanto e sobretudo, analisar o sistema em sua inteireza.
E analisar o sistema é autoanalisarmo-nos. É falar de através de – questioná-lo ao questionarmo-nos a nós mesmos, recursivamente. Sem maiores pretensões de suceder, é válido e urgente que, tal qual Yuri Firmeza, tentemos. Mudar um é mudar o outro, e isso faz pensar que, talvez, se Souzousareta fosse mais inventor que inventado, as lógicas de legitimação de nosso sistema não tivessem sido “apenas” desveladas, mas também postas, de fato, em entropia.
Façamos como o japonês que, ao deslocar a verdade do campo da resposta ao da pergunta, fez sacudir as estruturas do sistema. Apostemos, então, no potencial da pergunta, após a historieta de Firmeza, não quer calar: “mas como mudar?”.

O bispo que lembrou

É importante trazer a opinião da CNBB sobre o caso da menina estuprada. Jõao, tá vendo, você foi ouvido por setores da própria igreja. Eles lembraram que o crime maior foi o estupro, que não deveria ser esquecido por conta do debate sobre a excomunhão:

“O presidente da CBNBB reclamou que, diante da excomunhão, a gravidade do crime contra a menina acabou sendo esquecida. “Parece que diante da excomunhão se esqueceu de quem cometeu crime”. Ele destacou que é necessária punição ao estuprador, mas não como “vingança”. (texto na integra aqui)

Acho que é isso. Segundo a CNBB (apagando o fogo do inferno acendido pelo bisbo Dom José) o que houve foi uma lembrança a respeito de um pecado que existe e muitas vezes é esquecidoSó não dá para apagar o que o padre escreveu.

À Santa Morte de um bisbo: louvemos

Hoje pedi excomunhão por e-mail ( Via: Lula). Coisas da nova era. Foi minha primeira

vez. E a primeira vez a gente nunca esquece, não é seu padre?

Ora bolas, não creio em Deus e nutro certo desgosto pela Igreja Católica. Mas tendo a tentar ser tolerante com os principios defendidos pela Igreja. Eu tento, juro.

O contraponto do meu ateismo é meu respeito laico pela crença católica de meus familiares. Sempre transijo : preciso conviver pacificamente com dizeres racistas, com posturas anacrônicas, homofobicas, preconceituosas (que tem sua lógica na razão conservadora da Igreja) e não destruir laços e vínculos afetivos importantes para mim. Eis minha postura quando penso no que vivi com meus avós, por exemplo. Mas não, dessa vez não dá para respeitar. E me digo: ainda bem que meus avós já morreram e esse conflito vai ser evitado, que outro Deus os tenha.

O problema é que tenho aquela gostosa descrença provinda de realmente não saber, sabem? Então é fácil. Formado em sociologia, vejo-me descontente com a arrogancia insuperável da metafísica, tenho horror das palavrar fixadoras de essências improvadas e, provavelmente, improvaveis. E apesar de ainda escorregar muito pela fé escorregadia e teorreica das palavras começadas com maiusculas, eu sempre me corrijo quando pego-me falando em “realidades fixas” (na verdade creio que elas sejam mais “fixadas do que fixas”) , porque entendo que entre as palavras e as coisas existe, sempre, uma “política do entendimento”, uma “vontade de saber” que nos impele a se ater, também, sobre esse “aspecto de política” onde encontramos nossas mascaras , esconderijos recalcados de quem procura as “supostas verdades escondidas no mundo”.E quem procura e reconhece essas mascaras ainda tá bem, mas quem já tem respostas e ainda esconde que quer esconder certos interesses… ai meu Deus, que prezo tanto por Sua inexistência, tende piedade de Nós.

Entendi mais sobre a “lógica” da “defesa da vida” quando li o e-mail endereçado a nós, povo brasileiro, por um mensageiro-impiedoso-arauto-da-pseudo-inteligência-juridico-religiosa (Via: Idelber) do Deus do Bisbo Endiabrado Dom José do Cão Infernal.

Deus escrevera através Dele. E escrevera em letra Times New Roman. Uma mensagem muito bonita, onde falava que a justiça era coisa invertida. Aborto, sejamos justos, é um crime. Estupro de uma criança, ora bolas, é pecado pequeno. Mandou foto. Pense num Homem Bonito, Barbudo, Inteligente. Com aquela cara dele eu me disse orgulhoso: Homem, Adulto, Macho, sempre no comando!

Sem medo do eco, oremos: Morte Santa ao nosso bispo que defende com tanto vigor a morte santa para os outros

Ps: O “Vinde a mim as crianças” mais conhecido dos padres, sabemos, é bem outro… o melodrama do aborto , o apelo ao feto morto, tem muito de hipocrisia.

Até quando a paixão?

Conversar. Pense numa atividade esquisita. Você vê suas palavras faladas se pederem na efemeridade própria do que foi dito.

Meu primo me explicou: “estavamos todos juntos e discutindo. Falavamos sobre o tempo de duração das paixões e eu havia lido em algum lugar que a ciência havia provado que a paixão dura apenas e no máximo 2 anos. Será que é verdade? Se for, o que diabos faço com a minha mulher?”

Bem, resposta para o que fazer com a mulher dele eu não tenho. Até porque acho que ela não precisa, necessariamente, de um homem para viver bem e feliz. E óbvio, como é coisa pessoal demais, cada um sabe e não sabe o que faz de sua vida. E quando se decide ficar mais seriamente dividido, ficando intimamente na vida com outra pessoa, seja ela do sexo oposto ou não, o tempo se torna inimigo e aliado das coisas do amor. Mas eu sei bem de uma coisa. Nesses debates acolorados entre primos e primas (netos da especialíssima Maria Pereira), eu começaria, pelo seguinte conselho de sociólogo:

Sobre o que consideramos “científico”, levemos primeiro em conta outros aspectos do debate. De bom grado, eu que não sou “cientista” nem nada, teria muito cuidado ao aceitar um texto de vulgarização como sendo algo que traduz com justeza os resultados e os inqueritos de uma pesquisa.

Muitas vezes, o que os cientistas realmente dizem (ou querem dizer) a respeito de dados, objetos e fenômenos é distorcido pela liguagem inapropriada usada para dar acesso ao maior número de pessoas numa vulgarizção. Não digo isso desmerecendo o trabalho da vulgarização que em si, é importatíssimo. Quando este é bem feito, não tenho dúvidas, ele é mais um instrumento que ajuda também a ciência ganhar seu melhor lugar em sociedade, lugar esse que deve ser sempre debatido, mas nunca questionado em seu alicerce de liberdade nas pesquisas, na produção de conhecimento, acredito.

Dito isso, convém mostrar um exemplo…


“seres humanos são biologicamente programados para se sentirem apaixonados durante 18 a 30 meses”. Ela entrevistou e testou 5.000 pessoas de 37 culturas diferentes e descobriu que a paixão possui um “tempo de vida” longo o suficiente para que o casal se conheça, copule e produza uma criança. E então eu pergunto: E NO CASO DOS HOMOSSEXUAIS?? Se for parar pra pensar, a ciência nem ninguém explica muita coisa!!” (daqui)

O comentário vinha seguido de resposta de cunho minimamente sociológico que dizia:

“Olha, parece que a paixão não dura muito não. Se são três anos mesmo, como diz a ciência, eu não sei. Mas arriscando responder sua última pergunta, parece que o elo entre o animal e o homem está perdido para todo o sempre, se é que algum dia foi achado. Existe um abismo entre nós e o cachorro, por exemplo, que foi cavado pela linguagem e pela possibilidade da cultura. Então essa explicação baseada na biologia e reprodução que a ciência realmente propaga é uma furada e não explica tudo.”

Dos dois comentários tiro a seguinte reflexão: estou certo de que as coisas estabelecidas nas relações humanas tem uma natureza distinta da existente em fenômenos meramente descritiveis e explicaveis por metodologia indutiva proposta por certas “enquetes científicas”. É possível que a pesquisa revele algo sobre algumas manifestações daquilo que se convencionou chamar paixões num dado momento da história humana em diferentes culturas. Mas como todo “dado culturamente estruturado” as paixões possuem “dimensões artificiais demais de auto-apreciação” que exigiria do método de investigação utilizado, no mínimo, uma definição mais historicizada da categoria paixão. Isso revelaria, sem dúvidas, para desespero de certa ciência, muito mais coisas existindo entre a produção bioquimica de substancias geradoras de sensação de bem estar e encantamento do mundo no cerebro humano e as práticas culturais (namoro, encontro casual, traição conjugal etc.)que tornam possíveis a exitência daquilo que se convencionou chamar paixões, e só assim, encotrar aspectos mais específicos de sua “durabilidade.

Conselho decorrente: nunca tente justificar atitude sua (sempre moralmente orientada por certos valores que podem também sempre serem questionados) por argumentos supostamente científicos de que certas coisas teriam tempo para acabar em nossas vidas amorosas (socio-culturalmente estruturadas). É conselho, não verdade. Da sociologia do amor, que não fiz nem quis fazer aqui, fica só o substrato que diz: “amar se aprende amando”, todo amor é construcionista, com mais ou menos paixão.