Até quando a paixão?

Conversar. Pense numa atividade esquisita. Você vê suas palavras faladas se pederem na efemeridade própria do que foi dito.

Meu primo me explicou: “estavamos todos juntos e discutindo. Falavamos sobre o tempo de duração das paixões e eu havia lido em algum lugar que a ciência havia provado que a paixão dura apenas e no máximo 2 anos. Será que é verdade? Se for, o que diabos faço com a minha mulher?”

Bem, resposta para o que fazer com a mulher dele eu não tenho. Até porque acho que ela não precisa, necessariamente, de um homem para viver bem e feliz. E óbvio, como é coisa pessoal demais, cada um sabe e não sabe o que faz de sua vida. E quando se decide ficar mais seriamente dividido, ficando intimamente na vida com outra pessoa, seja ela do sexo oposto ou não, o tempo se torna inimigo e aliado das coisas do amor. Mas eu sei bem de uma coisa. Nesses debates acolorados entre primos e primas (netos da especialíssima Maria Pereira), eu começaria, pelo seguinte conselho de sociólogo:

Sobre o que consideramos “científico”, levemos primeiro em conta outros aspectos do debate. De bom grado, eu que não sou “cientista” nem nada, teria muito cuidado ao aceitar um texto de vulgarização como sendo algo que traduz com justeza os resultados e os inqueritos de uma pesquisa.

Muitas vezes, o que os cientistas realmente dizem (ou querem dizer) a respeito de dados, objetos e fenômenos é distorcido pela liguagem inapropriada usada para dar acesso ao maior número de pessoas numa vulgarizção. Não digo isso desmerecendo o trabalho da vulgarização que em si, é importatíssimo. Quando este é bem feito, não tenho dúvidas, ele é mais um instrumento que ajuda também a ciência ganhar seu melhor lugar em sociedade, lugar esse que deve ser sempre debatido, mas nunca questionado em seu alicerce de liberdade nas pesquisas, na produção de conhecimento, acredito.

Dito isso, convém mostrar um exemplo…


“seres humanos são biologicamente programados para se sentirem apaixonados durante 18 a 30 meses”. Ela entrevistou e testou 5.000 pessoas de 37 culturas diferentes e descobriu que a paixão possui um “tempo de vida” longo o suficiente para que o casal se conheça, copule e produza uma criança. E então eu pergunto: E NO CASO DOS HOMOSSEXUAIS?? Se for parar pra pensar, a ciência nem ninguém explica muita coisa!!” (daqui)

O comentário vinha seguido de resposta de cunho minimamente sociológico que dizia:

“Olha, parece que a paixão não dura muito não. Se são três anos mesmo, como diz a ciência, eu não sei. Mas arriscando responder sua última pergunta, parece que o elo entre o animal e o homem está perdido para todo o sempre, se é que algum dia foi achado. Existe um abismo entre nós e o cachorro, por exemplo, que foi cavado pela linguagem e pela possibilidade da cultura. Então essa explicação baseada na biologia e reprodução que a ciência realmente propaga é uma furada e não explica tudo.”

Dos dois comentários tiro a seguinte reflexão: estou certo de que as coisas estabelecidas nas relações humanas tem uma natureza distinta da existente em fenômenos meramente descritiveis e explicaveis por metodologia indutiva proposta por certas “enquetes científicas”. É possível que a pesquisa revele algo sobre algumas manifestações daquilo que se convencionou chamar paixões num dado momento da história humana em diferentes culturas. Mas como todo “dado culturamente estruturado” as paixões possuem “dimensões artificiais demais de auto-apreciação” que exigiria do método de investigação utilizado, no mínimo, uma definição mais historicizada da categoria paixão. Isso revelaria, sem dúvidas, para desespero de certa ciência, muito mais coisas existindo entre a produção bioquimica de substancias geradoras de sensação de bem estar e encantamento do mundo no cerebro humano e as práticas culturais (namoro, encontro casual, traição conjugal etc.)que tornam possíveis a exitência daquilo que se convencionou chamar paixões, e só assim, encotrar aspectos mais específicos de sua “durabilidade.

Conselho decorrente: nunca tente justificar atitude sua (sempre moralmente orientada por certos valores que podem também sempre serem questionados) por argumentos supostamente científicos de que certas coisas teriam tempo para acabar em nossas vidas amorosas (socio-culturalmente estruturadas). É conselho, não verdade. Da sociologia do amor, que não fiz nem quis fazer aqui, fica só o substrato que diz: “amar se aprende amando”, todo amor é construcionista, com mais ou menos paixão.

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