Chavez reabrindo as veias…

Engraçado. Não esperava que o presente do presidente venezuelano a Obama tivesse tanta repercussão. Resultado, As Veias Abertas já é o segundo em vendas na Amazon (via Pedro Dória). Vale ver a caixa de comentário do Alex Castro sobre o mesmo assunto. Nela você encontra questões sobre a atualidade, validade, pertinência, registro de leitura de obras de cunho híbrido como a de Galeano. Lida às vezes sob o registro da história, a crítica é feita ao leitor de esquerda que veria nela não o que ela é (literatura, ensaio sem base empirica que guia a interpretação grosseira da realidade de dominação) e a ergue ao estatuto de obra de ciência histórica. Bom, é a dica do dia.

2 links feministas

Na internet aprendo muitas coisas importantes. Tenho tentado manter um contato sádio com o feminismo há algum tempo. Li ontém um texto de Sheila, muito bom, que analisa alguns discursos jurídicos sob o prisma de um olhar feminista. E hoje, ah essa blogosfera que não me deixa escrever minha tese, li esse muito inteligente texto sobre pornografia dentro de um olhar feminista bem heterodoxo (heterodoxo para maestreim feminista eu acrescentaria!). Aconselho fortemente a leitura que é, além de interessante, muito agradavel, nada a ver com os post-tijólos encontrados aqui nesse espaço. Um pouquinho para dar vontade:

“Toda vez que resmungo contra a objetificação e a humilhação da mulher nos filmes pornô, tomo o cuidado de escrever “pornô mainstream”. Que é o pornô feito pela “Hollywood xxx” norte-americana, uma indústria multibilionária, e as pequenas empresas que os copiam — tipo o “brasileirinhas”. Estes são os filmes mais conhecidos e acessíveis. Neste tipo de filmes, é comum que a misoginia role solta. É comum que a mulher seja tratada como menos do que uma lata de lixo. Tanto na frente das câmeras quanto nos bastidores. Robert Jensen, da universidade do Texas, fez uma ampla pesquisa sobre o assunto e detalha como isso acontece. Não é a primeira vez que eu linko os artigos dele. Recomento MUITO, embora você precise de estômago para ler. Na primeira vez que li, me senti tão mal pelas mulheres das quais ele fala que chorei feito uma pateta na frente do computador.

No entanto, é como eu disse naquele post ali abaixo. A gente tem de saber contra o que se está lutando. Objetificação, violência e discriminações são consequências da misoginia. Misoginia que nós aprendemos e internalizamos ao sermos submetidos às normas arbitrárias de gênero: “mulher de verdade se porta assim, homem de verdade se porta assado. Todo o resto será marginalizado”. Para acabar com um mal, é necessário cortá-lo pela raiz. Por isso que eu digo que a luta feminista é contra a cultura, não contra os veículos através dos quais esta cultura é reproduzida e reforçada. Nossa luta não é contra a pornografia. É contra a misoginia no mercado pornográfico. São coisas diferentes. Favor não confundir alhos com bugalhos.

Defender o fim da pornografia porque há uma caralhada de filmes misóginos, para mim, faz tanto sentido quanto defender o fim da publicidade porque há uma caralhada de propagandas misóginas. Ou defender o fim do cinema porque há uma caralhada de obras misóginas. Ou o fim da literatura porque há uma caralhada de livros misóginos. E assim por diante.”

UFPE via Universités en France: estranhamento antropológico na experiência acadêmica de um jovem suburbano (Parte II)

Já que promessa é dívida:

Lembrando…

Em novembro de 2008, escrevi uma rápida introdução à reflexão que venho agora terminar. Resumiria da seguinte forma aquele texto introdutório: tendo notado diferenças e semelhaças entre as experiências de estadia na França minha e do professor Luciano Oliveira, vi-me motivado a escrever sobre um “estranhamento” que não entrou no foco de reflexão do belo texto do professor.

Então é um texto de complemento ao que foi dito por Luciano com desdobramentos críticos possíveis, já que reflete especificamente sobre o estranhamento meu com universo acadêmico brasileiro ao voltar do francês.

A gramática de ida de um estranhamento: da UFPE à França

O choque ao entrar na universidade francesa foi imenso. Demorei para entender o sistema de organização da vida acadêmica. A complicação começou para mim, como diriam eles por lá, no começo. Diferentemente da organização do curso de Ciências Sociais no Brasil ( que você tem o primeiro diploma ao final de 4 anos ou 5 anos), lá o curso de sociologia, o que eu escolhi, era divido em diversas etapas mais curtas. Cada uma delas era marcada pela entrega de um diploma que garantia, objetivamente, a possibilidade de se postular vagas de trabalho num determinado nível de emprego, tal como acontece com os concursos públicos brasileiros. Na França, porém, o primeiro diploma você leva com apenas dois anos de universidade.

Então lá fui eu, cursar o que eles chamavam na época de DEUG (Diploma de Estudo Universitário Geral), o tal que tinha duração de 2 anos. Como consegui validar as disciplinas que havia feito na UFPE, entrei já no segundo ano. É engraçado como as vezes a trama oficial de uma instituição pode ser enganosa: ao ler termo a termo as formas de organização, o modelo organizacional das universidades brasileira e francesa, você encontra muito mais semelhanças do que realmente existem na realidade.

As ementas das disciplinas eram, no que diz respeito aos autores, e estranhamente, muito semelhantes às brasileiras. Claro, classico é classico, diriam. Mas toda a dinâmica era diferente. Cursei disciplinas obrigatórias e opcionais. As obrigatórias: sociologia geral, estatística, métodos. As opcionais: sociologia do trabalho, sociologia cognitiva, sociologia das organizações, sociologia da família, sociologia da velhice, etc. A cada semestre você podia escolher duas ou três opcionais. Os cursos eram divididos também em “aulas magistrais” e “trabalho dirigido”.

A aula magistral tinha um tom solene. Era bem expositiva, sem nenhuma interação entre professor e aluno. Nela, por conta disso, era muito grande o volume de conteúdo a ser anotado. Geralmente o que se via nelas eram sínteses históricas mais ou menos bem feitas (dependia do professor) a respeito de cada disciplina. O curso magistral, como era também chamado, era dado nos anfiteatros com a presença massiva de alunos (cheguei a ver aula com mais de trezentos estudantes). Você tanto tinha cursos mais gerais (socialogia geral) que tratavam de expor, de maneira as vezes bem simplificada, o pensamento dos clássicos (Weber, Durkheime, Marx, Mauss, Escola de Chigago, um pouco de Merton, etc.), como também, no mesmo formato, você tinha cursos de sociologias mais específicas, sociologia do trabalho, por exemplo, que situava historicamente como esses clássicos fudavam, naquela especialidade, a perpectiva sociológica.

Na minha cabeça esses cursos magistrais tinham a função de inculcar nos estudantes iniciantes as perspectivas históricas que fundam o raciocinio sociológico. Assim, a maioria deles estava organizada de maneira muito semelhante: começavam por uma descrição sobre como um determinado objeto era analisado ou entendido socialmente num dado momento histórico, passavam por uma contextualização da modernidade e o advento da sociologia a patir das revoluções indutrial e francesa, e concluiam com a especificação sociológica do objeto em questão(que podia ser o trabalho, a velhice, a economia etc.). Claro, esse modelo variava e ganhava ou perdia em sofisticação dependendo da qualidade do professor, mas no geral, isso tinha tom de ladainha, excetuando aí, claro, as aulas magistrais de estatística. Note-se: sssas aulas eram de cultura sociológica, digamos assim, eram aulas para decorar conteúdo tal como dado.

As aulas de trabalho dirigido eram aulas de interpretação de texto, o close reading dos anglossaxonicos. Basicamente treinavamos técnicas e mais técnicas de leitura. Análise estrutural, leitura vertical, etc. Tudo isso, em cima de textos escolhidos dos cursos magistrais. Nelas você tinha um contado maior com o professor havendo mais interação e diálogo. Note-se: aqui tinhamos e podíamos fazer uma distinção muito clara entre o procedimento decoreba das aulas magistrais e o das técnicas de leitura e pesquisa, dois procedimentos que, apesar de relacionados, tinham dinâmicas bem específicas. Essa distinção, como visto, está inscrita nas instituições na maneira mesma de dividir o trabalho de ensino.

Uma outra coisa importante que também notei: a carga horária de aulas é extremamente reduzida se comparada à brasileira. E ela vai diminuindo ainda mais na medida em que você vai passando as etapas. A título de exemplo, no mestrado, por exemplo, eu tinha apenas duas aulas por semana com duas horas de duração cada, e isso durante um semestre. O segundo semestre não havia aulas e você dedicava o seu tempo aos seminários de pesquisa e ao seu próprio trabalho.

O estranhamento em detalhe: ainda lá

Além da lingua francesa e suas especificidades, era para mim muito esquisito no início ver a aplicação com que a maioria dos estudantes simplesmente anotava tudo o que era dito nas aulas. Anotação dos cursos, ou seja, transcrever quase que palavra por palavra tudo que o professor diz, parecia para mim coisa de copista. Mas a transcrição é uma verdadeira instituição escolar à part entière na França.

Para que as notas se realisem por inteiro existem técnicas de abreviação de idéias e palavras e até mesmo de frases inteiras. Essas técnicas são todas assimiladas na escola francesa. Elas funcionam, quando bem feitas, como exercício para articulação lógica do pensamento. Mas para mim que estava acostumado a assistir aula ouvindo sem escrever absolutamente nada, tentando apenas entender o que o professor estava dizendo, aquilo tudo foi um grande tormento, além da surpresa de rever coisas do arco da velha sendo operadas ali naquele meio. Aprender de cor e salteado, era algo que achava não mais ouvir falar na minha vida.

Mas depois dessas surpresas vinheram as provas e entendi a razão de ser daquela técnica.É que os professores fazem provas que são na verdade “maneiras de transcrever o que se falou durante o curso”. O que para mim, ao menos naquele momento, não deixava de ser justo, na medida em que de fato se subentende, sempre, numa situação de avaliação escolar, que o que está sendo avaliado é o conteúdo assimilado durante o curso oferecido. E, falando em justiça, o anonimato das provas, que eram corrigidas identificadas apenas com número de matrícula, não podendo o professor saber julgar por critérios pessoais uma prova de tal ou de qual aluno, também foi algo novo para mim na universidade.

Outra coisa que me marcou foi a presença desse pressuposto pouco didático muito forte no ambiente universitário francês, que ao meu ver, se traduz na fórmula mesma da aula magistral: a distância entre o professor e o aluno é também marcada pela fraqueza de uma relação pedagógica instaurada sob premissa de que os “alunos devem alcançar a seu custo o nível dos professores e não o contrário”, o que faz com que, muitas vezes, pouco ou nenhum esforço seja feito por parte dos mestres para que se retire das diversas “maneiras de dizer a mesma coisa” uma que funcione, como quer a pedagogia, para facilitar a entrada dos alunos naquele universo árido da sua disciplina específica.

Sociologias francesas

Na França estudei em várias universidades, em diferentes cidades, situadas em diferentes regiões do país do fromage, mas também a terra de Durkheim, Bataille, Bourdieu, Aron, Sartre, Koyré, Lévis-Straus, etc. a lista não tem fim. O que percebi? Notei que cada universidade tem uma linha. Cada uma assimila de maneira mais ou menos coerente os incontornaveis dos autores incontornaveis.A cada geração de intelectuais franceses você encontra correspondentes de um pensamento que se tornou necessário. Assim, mesmo com a superioridade econômica e de produção das universidades americanas, dos EUA ao Brasil você encontra essas leituras francesas que se tornaram obrigatórias, em vários sentidos, porque instauraram novos ângulos, novos paradigmas providos de força e autonomia para imanar ao sistema mais geral de produção intelectual referências sem as quais seu trabalho estaria “incompleto”.

Na verdade, o que eu gostaria de salientar é que apesar dessa diversidade de linhas, existe uma estabilidade que é dada pela estrutura geral da educação universitária. Por exemplo, estudei em três cidades diferentes, em três universidades: Nancy, Monpellier e Lyon. As três bem diferentes entre si, mas todas elas trabalham naquele esquema das aulas magistrais e trabalhos dirigidos, efetuando assim, cada uma delas dentro de seu filtro específico, a distinção entre acumulação e produção de conhecimento sociológico.

Na primeira o foco era sociologia do trabalho. Existiam dois grupos que disputavam espaço e poder dentro da universidade e essa disputa também se traduzia nas opções intelectuais, expressas por afinidades ou contrastes com idéias já firmadas dentro universo acadêmico conhecido: de um lado, grosso modo, você tinha uma corrente que se identificava com a tradição durkheimiana orietada pelo viés histórico como a trazida pela obra de Pierre Bourdieu. Do outro, um grupo se indentificava, de maneira mais ou menos explícita, com a orientação de trabalho do individualismo metodologico cujo mais alto representante francês era nanquele momento Raymond Boudon e cuja filiação na tradição francesa se dava no vínculo e imbricação daquele pensamento com a filosofia da liberdade de Sartre.

Na segunda a grande influência era de Michel Marfesolli. A assimilação dos dois grandes expoentes da sociologia francesa (Boudon e Bourdieu) se dava de maneira completamente diferente. Os dois eram lidos como representantes nefastos de uma ciência racionalista, positivista, empiricista,etc. Tive professores como Jean-Marie Brohm, que era de uma erudição enorme, de uma impressionante cultura filosófica, que pautava seus trabalhos nas referencias da fenomenologia, da psicanálise, do marxismo (esse tipo de salada só tinha espaço lá em Montpellier). Foi com ele que fiz meu primeiro trabalho de final de curso, que era uma análise dos cadernos de Nijinsky (gosto deste texto de um psiquiatra sobre o caso do bailarino). Para mim aquilo não era sociologia, mas hoje percebo como o exercicio foi bastante expressivo para mim por conta do contexto daquela universidade. Percebi, com aquilo, que apesar de toda a diferença entre uma e outra universidade, existia um espécie de coeficiente mínimo comum, um denominador comum que fazia da sociologia uma disciplina que era ensinada da mesma maneira nas diversas universidades. Tive aulas de estatística lá, por exemplo, e os professores apesar de defender àquela “filosofização” toda da sociologia, ensinavam os procedimentos técnicos de análise que hoje fazem parte do patrimônio comum da disciplina.

Já em Lyon encontrei um grupo forte trabalhando com sociologia da socialização, o GRS (Groupe de Recherche sur la socialisation).O grupo era e é animado e dirigido pelo sociólogo Bernard Lahire que se auto-intitula um bourdieusiano heterodoxo. Na univesidade de Lyon, no GRS, defini as linhas de trabalho e o enquadramento teorico-medotodologico que hoje guiam o meu trabalho de tese. A universidade também era bem diversa e encontrei, pela primeira vez, um grupo de pesquisa que trabalhava com a sociologia das ciências inspirada na obra de Bruno Latour. Tenho até uma amiga que trabalhava a simetria de não sei o que num contexto onde se discute o impacto na natureza em regiões com turbinas de minério… Sinceramente, nunca entendi do que se tratava.

Vontando à UFPE: descreveria assim meu estranhamento …

Meu processo de formação na França, que durou 6 anos mais ou menos, gerou uma forte aculturação. Voltei para fazer um doutorado no CFCH e descobri: todo o esforço de assimilação que fiz para entrar naquele universo, de adaptação à cultura e às práticas intelectuais ali operando, causaram um grande impacto em mim.

O estranhamento do retorno se deu de maneira muito intensa e forte nos primeiros momentos. Eu voltei querendo desbravar sociologicamente o Recife, Pernambuco, o Brasil, mas encontro um ambiente intelectual extremamente avesso ao trabalho rasteiro, mas extremamente importante, da sociologia empirica. Sinto-me isolado, apesar de ter sido acolhido com entusiasmo pelos professores e orientadores. As práticas de produção do programa me pareceram ancoradas muito fortemente numa perspectiva que não distingue com devida ênfase o trabalho de acumulação do saber do de produção de conhecimento através da pesquisa: base forte de minha formação francesa. Assim, fui acolhido no seio do PPGS (program de pós-graduação em sociologia) sendo avaliado por um projeto de pesquisa, e, durante o percorrer do doutorado, o primeiro ano é todo dedicado a disciplinas teóricas, me vi tendo que reviver um processo reflexivo que ancora seu procedimento na acumulação de cultura sociológica de maneira completamente apartada do universo da pesquisa.

Essa apartação é extremamente nociva porque produz trabalhos quando empiricos, vázios de propósito sociológico proprimente dito (são muitas vezes mera sociografia em linguagem estatística rasteira formulada nas tabelas do SPSS). Quando teóricos, são apenas isso, ou seja, são teóricos em demasia, o que se tranforma em suma, em sua grande maioria, na generalizão precoce de explicações que ainda não fizeram sua prova em contextos como o do nordeste brasileiro. O que ocorre nesses casos é a impultação da explicabilidade formal da teoria a um contexo exogeno ao de sua aplicação inicial. O que implica, bem das vezes, num reforço à situação de colonialismo mental a qual nos submetemos de muito bom grado aos grandes centros de produção acadêmica.

Diria mais, não é só na quase absoluta falta de disciplinas que estudem , digamos assim, a tradição sociológica brasileira e os problemas específicos que um sociólogo precisa enfrentar aqui na periferia para produzir conhecimento válido a respeito do mundo social que me sentia só, mas na postura mesma de inquerir o mundo social sem “tocar” nele, jogando conceitos de la para cá e de cá para lá, sem a responsabilidade cosequente de contruir interpretações válidas a partir de fatos sociais verificáveis do ponto de vista de “experimentação empirica”, ou seja, de dados que possam ser analisados de maneira independente do ponto de vista que vai analisá-los. Seria por isso, e apenas nesse sentido, que a sociologia trabalharia dentro de um quandro onde suas teses podem ser refutadas e ou validadas. Não conheço outra forma. Com isso, quero crer, não é preciso entrar numa sangria desatada na busca de uma cientificidade popperiana ou coisa dessa natureza. O propósito híbrido da construção da episteme sociologica admite um espaço assertivo mais ameno, onde a idéia de verificação anda de mãos dadas com a certeza de que a linguagem sociológica só anda para frente diante do arbitrio que representa a interpretação em liguagem corrente, ou seja, fora do jargão mais formalizado, por exemplo, da estatística, usada pelos sociólogos como ferramenta.

Mas não me arrependo da volta. É nesse estranhamento aqui que vou descobrindo empiricamente o significado profundo do que são as chamadas condições sociais (materiais e simbólicas) de produção do conhecimento sociológico em Pernambuco (ao menos, no que diz respeito ao meu realmente amado CFCH). Sem esta experiência tenho a impressão de que minha sociologia seria uma espécie de paisagismo exótico do Brasil para francês ver. Claro, hoje as relações de dominação intelectuais são bem mais complexas do que a simples idéia de colonialismo cultural poderia dar conta, mas sendo colonialismo cultural ou outro nome que se queira dar, parece-me claro o quanto precisamos percorrer para nos livrar de algumas dessas práticas para obter mais autonomia. É isso em todo caso que meu estranhamento diz…

Notícula sobre Blogosfera: ela me impressiona

O mundo dos blogues é dos universos que entrei em contato nos últimos anos o mais surpriendente de todos, para mim. Falo mais do brasileiro, aquele que acompanho mais, mesmo que, esse “mais”, seja um “nem tanto assim”. O que me impressiona: volume de informação, a maneira como se discute abertamente sobre as maneiras mais corretas e adequadas de ser um bom “blogueiro”, a força palpitante dos debates acolorados existindo muitas vezes de maneira imediata aos fenômenos que desencadearam questões, o como a blogosfera se tornou um lugar onde jornalistas discutem blogueiramente seu papel, função, mérito, etc., e como tudo isso revela, ao mesmo tempo em que apaga, é verdade, fronteiras entre práticas jornalísticas (antes obscuras aos profissionais exteriores ao universo da imprensa) e outras práticas intelectuais de nossos dias. Tudo isso acho muito bom, apura nosso senso crítico. O jornalismo, por exemplo, aos meus olhos se abriu enquanto prática como nunca havia feito antes. Existem muitos jornalismos, e ainda, alguns jornalistas.

Meu último post mais “informativo” do que o de hábito me fez pensar nessas coisas. Não sou um “blogueiro” decente, admito. Descobri que tinha que ser, lendo blogues de excelente qualidade, que postulavam como “postura mínima”, no caso de textos com elementos não opinativos, a transparência das fontes, o esforço da demonstração do fato, coisas que são, acredito, qualidades do que se convencionou chamar de “bom jornalismo”. Não sou bom com essas coisas, seria um péssimo jornalista.

Mas eu adoro meu blogue. E embora respeite e admire muito quem consegue “informar”(opinando, pensando em cima de fatos, analisando e recompondo contextos), um blogue é um blogue oras, e, é claro, pode ser outras coisas que um blogue jornalístico (de opinião ou denuncia, de reportagem ou especulativo). Bem. Isso é mais uma justificativa para manter meu espaço diante de minha apurada incapacidade de ser bom como tantos outros. Continuarei tentando sê-lo, de outras formas também.

A Folha de S. Paulo e Dilma (Reprodução da carta aberta de Antonio Roberto Espinosa)

(De Antonio Roberto Espinosa
Jornalista, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela USP, autor de Abraços que sufocam. – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe. )

Caros amigos,

A Folha de São Paulo preparou uma “armadilha” para a Dilma usando uma entrevista que concedi a uma das suas repóteres da sucursal de Brasília. Encaminhei a carta abaixo à redação. E peço que todos os amigos que a façam chegar a quem acharem necessário: redações de jornais, revistas, emissoras de TV e pessoas que talvez possam ser afetadas ou se sintam indignadas pela má fé dos editores do jornal. Como sabem, sou favorável à transparência, por achar que a verdade é sempre o melhor caminho e, no fundo, revolucionária.

Á coluna painel do leitor Seguem cópias para o Ombudsman e para a redação. Vou enviar cópias também a toda a imprensa nacional. Peço que esta carta seja publicada na próxima edição. Segue abaixo:

Prezados senhores,

Chocado com a matéria publicada na edição de hoje (domingo, 5), páginas A8 a A10 deste jornal, a partir da chamada de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro de Delfim Neto”, e da repercussão da mesma nos blogs de vários de seus articulistas e no jornal Agora, do mesmo grupo, solicito a publicação desta carta na íntegra, sem edições ou cortes, na edição de amanhã, segunda-feira, 6 de abril, no “Painel do Leitor” (ou em espaço equivalente e com chamada de capa), para o restabelecimento da verdade, e sem prejuízo de outras medidas que vier a tomar. Esclareço preliminarmente que:
Não conheço pessoalmente a repórter Fernanda Odilla, pois fui entrevistado por ela somente por telefone. A propósito, estranho que um jornal do porte da Folha publique matérias dessa relevância com base somente em “investigações” telefônicas;
Nossa primeira conversa durou cerca de 3 horas e espero que tenha sido gravada. Desafio o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para que o leitor a compare com o conteúdo da matéria editada. Esclareço que concedi a entrevista porque defendo a transparência e a clareza histórica, inclusive com a abertura dos arquivos da ditadura. Já concedi dezenas de entrevistas semelhantes a historiadores, jornalistas, estudantes e simples curiosos, e estou sempre disponível a todos os interessados;
Quem informou à Folha que o Superior Tribunal Militar (STM) guarda um precioso arquivo dos tempos da ditadura fui eu. A repórter, porém, não conseguiu acessar o arquivo, recorrendo novamente a mim, para que lhe fornecesse autorização pessoal por escrito, para investigar fatos relativos à minha participação na luta armada, não da ministra Dilma Rousseff. Posteriormente, por e-mail, fui novamente procurado pela repórter, que me enviou o croquis do trajeto para o sítio Gramadão, em Jundiaí, supostamente apreendido no aparelho em que eu residia, no bairro do Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro. Ela indagou se eu reconhecia o desenho como parte do levantamento para o seqüestro do então ministro da Fazenda Delfim Neto. Na oportunidade disse-lhe que era a primeira vez que via o croquis e, como jornalista que também sou, lhe sugeri que mostrasse o desenho ao próprio Delfim (co-signatário do Ato Institucional número 5, principal quadro civil do governo ditatorial e cúmplice das ilegalidades, assassinatos e torturas).Afirmo publicamente que os editores da Folha transformaram um não-fato de 40 anos atrás (o seqüestro que não houve de Delfim) num factóide do presente (iniciando uma forma sórdida de anticampanha contra a Ministra). A direção do jornal (ou a sua repórter, pouco importa) tomou como provas conclusivas somente o suposto croquis e a distorção grosseria de uma longa entrevista que concedi sobre a história da VAR-Palmares. Ou seja, praticou o pior tipo de jornalismo sensacionalista, algo que envergonha a profissão que também exerço há mais de 35 anos, entre os quais por dois meses na Última Hora, sob a direção de Samuel Wayner (demitido que fui pela intolerância do falecido Octávio Frias a pessoas com um passado político de lutas democráticas).

A respeito da natureza tendenciosa da edição da referida matéria faço questão de esclarecer:

1) A VAR-Palmares não era o “grupo da Dilma”, mas uma organização política de resistência à infame ditadura que se alastrava sobre nosso país, que só era branda para os que se beneficiavam dela. Em virtude de sua defesa da democracia, da igualdade social e do socialismo, teve dezenas de seus militantes covardemente assassinados nos porões do regime, como Chael Charles Shreier, Yara Iavelberg, Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Fernando Ruivo e Carlos Alberto Soares de Freitas. O mais importante, hoje, não é saber se a estratégia e as táticas da organização estavam corretas ou não, mas que ela integrava a ampla resistência contra um regime ilegítimo, instaurado pela força bruta de um golpe militar;

2) Dilma Rousseff era militante da VAR-Palmares, sim, como é de conhecimento público, mas sempre teve uma militância somente política, ou seja, jamais participou de ações ou do planejamento de ações militares. O responsável nacional pelo setor militar da organização naquele período era eu, Antonio Roberto Espinosa. E assumo a responsabilidade moral e política por nossas iniciativas, denunciando como sórdidas as insinuações contra Dilma;

3) Dilma sequer teria como conhecer a idéia da ação, a menos que fosse informada por mim, o que, se ocorreu, foi para o conjunto do Comando Nacional e em termos rápidos e vagos. Isto porque a VAR-Palmares era uma organização clandestina e se preocupava com a segurança de seus quadros e planos, sem contar que “informação política” é algo completamente distinto de “informação factual”. Jamais eu diria a qualquer pessoa, mesmo do comando nacional, algo tão ingênuo, inútil e contraproducente como “vamos seqüestrar o Delfim, você concorda?”. O que disse à repórter é que informei politicamente ao nacional, que ficava no Rio de Janeiro, que o Regional de São Paulo estava fazendo um levantamento de um quadro importante do governo, talvez para seqüestro e resgate de companheiros então em precárias condições de saúde e em risco de morte pelas torturados sofridas. A esse propósito, convém lembrar que o próprio companheiro Carlos Marighela, comandante nacional da ALN, não ficou sabendo do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Por que, então, a Dilma deveria ser informada da ação contra o Delfim? É perfeitamente compreensível que ela não tivesse essa informação e totalmente crível que o próprio Carlos Araújo, seu então companheiro, diga hoje não se lembrar de nada;

4) A Folha, que errou a grafia de meu nome e uma de minhas ocupações atuais (não sou “doutorando em Relações Internacionais”, mas em Ciência Política), também informou na capa que havia um plano detalhado e que “a ação chegou a ter data e local definidos”. Se foi assim, qual era o local definido, o dia e a hora? Desafio que os editores mostrem a gravação em que eu teria informado isso à repórter;

5) Uma coisa elementar para quem viveu a época: qualquer plano de ação envolvia aspectos técnicos (ou seja, mais de caráter militar) e políticos. O levantamento (que é efetivamente o que estava sendo feito, não nego) seria apenas o começo do começo. Essa parte poderia ficar pronta em mais duas ou três semanas. Reiterando: o Comando Regional de São Paulo ainda não sabia com certeza sequer a freqüência e regularidade das visitas de Delfim a seu amigo no sítio. Depois disso seria preciso fazer o plano militar, ou seja, como a ação poderia ocorrer tecnicamente: planejamento logístico, armas, locais de esconderijo etc. Somente após o plano militar seria elaborado o plano político, a parte mais complicada e delicada de uma operação dessa natureza, que envolveria a estratégia de negociações, a definição das exigências para troca, a lista de companheiros a serem libertados, o manifesto ou declaração pública à nação etc. O comando nacional só participaria do planejamento , portanto, mais tarde, na sua fase política. Até pode ser que, no momento oportuno, viesse a delegar essa função a seus quadros mais experientes, possivelmente eu, o Carlos Araújo ou o Carlos Alberto, dificilmente a Dilma ou Mariano José da Silva, o Loiola, que haviam acabado de ser eleitos para a direção; no caso dela, sequer tinha vivência militar;

6) Chocou-me, portanto, a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário. Prova disso é que nenhum de nós foi incriminado por isso na época pelos oficiais militares e delegados dos famigerados Doi-Codi e Deops e eu não fui denunciado por qualquer um dos três promotores militares das auditorias onde respondi a processos, a Primeira e a Segunda auditorias de Guerra, de São Paulo, e a Segunda Auditoria da Marinha, do Rio de Janeiro.

Osasco, 5 de abril de 2009Antonio Roberto EspinosaJornalista, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela USP, autor de Abraços que sufocam – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe.