Passado

“Jampa,

Existem livros que não podem ser lidos de uma só vez nem de uma vez só

Este é um deles. Por isso eu lembrei de te dar para que você possa saboreá-lo da melhor forma possível.

01 de Setembro de 1995. “

Alguém andava feliz com meu aniversário. Ele se deu o trabalho de comprar o ” Morte e Vida Severina e Outros Poemas Para Vozes” e dar um João inteligente para um outro, menos sabido tanto em prosa quanto em verso. Os anos passaram, eu passarinho, continuo um João-Sem-Verso-Nem-Prosa. Fiéis heróricos leitores.Fiéis. Heróicos. Leitores.

Feliz do homem e da mulher que consegue se repensar ao tentar pensar o mundo. Talvez a grande descorberta de Freud não tenha sido o inconsciênte alheio, mas o dele mesmo. É verdade, estamos presos a nós mesmos. 24 horas por dia. Que horror! Sendo assim, nada mais lógico do que aplicarmo-nos em si aquele método que acreditamos ser bom para explicar o outro. Afinal, o conhece a ti mesmo parece ser um elemento condicional da sanidade mental de qualquer saber pós-freudiano. Alguns em plena conscência de si não se sentem asquerosos, ainda. Outros percebem no asco a definição mesma de qualquer eu realmente profundo, só assim identificado. Eu divago e evito o sordidez imperiosa que é aceitar quem sou do jeito que sou. Tento tolerar o fato de estar “resistindo” ao meu objeto de estudo, também por ele dizer quem eu sou. Sentido-me fraco, falta-me a força-sevirina: como é escassa em mim a secura pedagógica da pedra do outro João. Tem João para tudo nessa vida. O meu pede socorro. E com ele o blogue, que definha, como sempre.

De 1995 para cá tanta coisa se passou. Amores. Universidades. Países. Perdido no mundo querendo se encontrar. Encontrando no mundo lugar para ficar perdido. Querendo no mundo encontrar lugar perdido.

Tudo piegas. Brega. Como eu…

… é minha qualificação… um ato "blogueiro petrobras"?

A grande dificuldade de lidar com uma “qualificação” é passar por ela sem entender o seu real siginificado e relevância. Então, não tendo me feito as perguntas nos moldes que me foram feitas, como num questionário sociológico mal construído, tenho que responder questões que não me fiz , e achar que elas são relevantes para meu trabalho, mesmo achando que, da maneira que elas são postas, elas não dizem nada a respeito das fraquezas e possíveis riquezas do meu trabalho…

Aqui vai primeiro quesito com sua resposta:

Justifique suas escolhas teóricas diante das
alternativas possíveis mais relevantes ao seu objeto,
problemas de estudo e objetivos a serem alcançados

Para justificar minhas escolhas teóricas diante das alternativas possíveis
relevantes ao meu objeto, reconstruo de maneira resumida as questões e problemas
sociológicos que acredito estarem ligados aos documentos que analiso. Explico e
justifico porque o meu referencial teórico se encontra difuso no corpo da tese (e não
explicitado em um capítulo autônomo) e identifico a base espistemológica que dá
coerência aos diferentes autores e abordagens que me servem de surporte para dar conta
dos problemas propostos.

Em meu trabalho, parti do princípio que para estabelecer um bom equilíbrio na
argumentação sociológica, eu não poderia fazer minhas escolhas teóricas de maneira
apartada da construção do objeto e problemática de pesquisa. Acredito que o
estabelecimento prévio de um referencial teórico me faria tomar com demasiada
facilidade a teoria como uma pré-explicação do fenômeno estudado.

Evitei me fazer questões do tipo “ a teoria dos campos de Bourdieu poderia me
ajudar a dar conta do objeto literatura no Brasil?”, e partir de tal questão para justificar
uma suposta superioridade teórica da teoria dos campos para integrar tipos de análises
divergentes.

Preferi instrumentalizar boa parte do potencial heurístico contido na
sociologia da socialização e diferenciação social do sociólogo francês, sem pretender
com isso que meu trabalho devesse supor a existência prévia de um campo literário no
Brasil. Ao invés disso, problematizo mais diretamente a realidade social estudada, a
partir da análise documental informada sociologicamente por elementos genéricos da
teoria social como os contidos nesse pilar da sociologia que é a idéia de diferenciação
social. Grande parte de minha verve curiosa está contida na expectativa mesma de
entender melhor como o mundo social funciona em contextos específicos, função que
atribuo à sociologia.

A teoria nesta tese é entendida estando mais próxima de sua origem grega, onde
o verbo theorein queria dizer “olhar para”, “contemplar” (Castro Rocha, 2004, p. 156),
coisa que se perde depois, mas que faz notar desde sua gênese a teoria necessitando
desse contato impuro com a realidade. Acreditando que dessa “relação impura” saiu o
que de melhor a teoria sociológica produziu, uso desse “espaço lógico próprio à
sociologia” para fugir da rigidez formalista que engessaria o trabalho numa falsa
dicotomia do tipo “referencial teórico x pesquisa empirica”. Como tão bem descreveu
Jean-Claude Passeron, a sociologia se efetua num espaço assertórico híbrido onde o
raciocínio sociológico é na prática um tipo de conhecimento muito distante da idéia de
“ciência experimental dos fatos sociais” como a sonhada por Durkheim (Passeron,
2006). A tese não resume sua démarche a um referencial teórico adotado simplesmente
contrapondo-o a outros. O que ela faz é atrelar o objeto às perspectivas sociológicas que
são teórica e epistemologicamente coerentes entre si, confrontando as últimas com a
realidade social, mesmo que isso seja feito em função de problemas ordenados por
questões teóricas oriundas da sociologia clássica (sobretudo Durkheim, Weber e Marx)
e contemporanea (Bourdieu, Passeron e Miceli, por exemplo).

A consequência disso na estruturação do trabalho é que organizei sempre as
partes da tese dividindo-as em capítulos que buscam sempre sair da análise mais
concreta para as teorizações e interpretações de veio sociológico. Acontecendo o mesmo
entre as próprias partes, sendo a última, por exemplo, um esforço de formalização das
análises empíricas e teóricas das duas primeiras (Cf. Sumário).

O referencial teórico usado para dar conta do objeto de estudo e problema
sociológico propostos nesta tese, foi construído em função de critérios epistemológicos
de historicidade e rentabilidade empírica das teorias a disposição da pesquisa. Autores
que fudamentaram teoricamente a sociologia dos intelectuais e das obras dentro de uma
perspectiva histórica de análise relacional e diferencial das disciplinas intelectuais
(Bourdieu, 1998 ; Chamboredon, 1986 ; Lahire, 2004, 2006 ; Lepenies, 1990 ; Moretti,
2008 ; Ramos, 1989) são utilizados de maneira difusa e diversa no corpo da tese,
sempre com precaução de mediar as apropriações feitas também pela leitura crítica dos
esforços interpretativos locais (Candido, 2000a, 2000b ; Guimarães, 2004 ; Lima, 2007 ;
Miceli, 1995, 2001a, 2001b ; Rocha, 1998, 2004 ; Waizbort, 2007) auxiliados pela
instrumentalização da leitura da crítica e história literária sociologicamente informadas
(Bueno, 2006 ; Candido, 1992, 2000a, 2000b ; Dubois, 2000 ; Schwarz, 1992, 2000).

A coerência interna dessas abordagens se encontra na tese na medida em que estão
sendo operadas para descrever, interpretar e objetivar fenômenos em contraposição às
análises formalistas (transhistoricas e/ou ahistóricas) como as presentes sistematicamente nas perspectivas de cunho eminentemente fenomenológico na sociologia da arte (Cf. Dubet , 1994 ; Boltanski, 1990 ; Heinich, 1994,1998, 1999, 2000, 2005) ou de maneira parcial no procedimento da crítica literária mesmo a mais sociolologicamente informada (Candido, 2000a, 2000b ; Lima 2007).

(Continua…)

A grande imprensa brasileira e o acidente do AF447

Deixo aqui apenas mais um ponto que comprova a histeria dos portais de “informação”. Não sei se é necessário existir lição de jornalismo nesses casos onde uma tragédia imensa deixa a todos sem muito norte. No calor das emoções até quem informa melhor fica ansioso quando informações que gostaríamos que fossem verdade aparecem. Mas de fato existe uma afobação muito grande em torno do ocorrido, o que já trouxe algumas declarações erradas porque pautadas em especulações precoces. Em texto de hoje do Le monde o secretário dos transportes Dominique Bussereau é citado em seu pedido de (traduzo): “[…] mais prudência sobre os dados da enquete” e é indicado quando diz “que a prioridade das buscas seja das caixas-pretas”. Em tom de simpatia indica o mesmo secretário ainda sinaliza: ” não é o caso de incriminar os brasileiros, que são ‘irmãos’ na dor.” O que me deu a impressão de impaciência com a precipitação das autoridades responsáveis brasileiras que, ao contrário das francesas, não se preocupam muito em dizer e depois terem que desdizer as coisas logo em seguida:

“Dans la matinée de jeudi, le général Ramon Cardoso, directeur du département de contrôle de l’espace aérien brésilien, avait annoncé que la marine avait récupéré une première pièce provenant de la soute à bagages de l’Airbus. Mais quelques heures plus tard, il a dû faire machine arrière : “Jusqu’à présent, aucune pièce de l’avion [d’Air France] n’a été récupérée”, a-t-il dit à la presse. Il a expliqué que la pièce remontée par un hélicoptère était “en bois” et qu’il “n’existait pas de pièces en bois sur cet avion” (l’Airbus, NDLR). Le général Cardoso a aussi affirmé que l’huile découverte à la surface de la mer était celle “d’un navire, pas d’un avion” car il s’agissait d’huile et pas de kérosène.”

Tradução: ” Na manhã de quinta-feira, o general Ramon Cardoso, diretor do departamento de controle do espaço aério brasileiro, anunciou que a marinha havia recuperado uma primeira peça oriunda do porta-bagagens do Airbus. Mas algumas horas mais tarde, ele teve que retroceder no que disse: ‘ Até o presente momento, nehuma peça do avião [da Air France] foi recuperada’, ele disse a imprensa. Ele explicou que a peça alçada por um helicoptero era “de madeira” e que ‘ não existia peças de madeira nesse avião’ ( o Airbus, NDLR). O general Cardoso afimou também que o oleo descoberto na superficie do mar era ‘de um navio, não de um avião’, porque se tratava de oleo e não de querosene.”

O interessante é que, antes mesmo desse anúncio, eu já havia ouvido das autoridades francesas que se deveria evitar qualquer tipo de precipitação nesse sentido, visto que na possível área do desaparecimento existe muito destroços desconhecidos de naufrágios de návios ilegais entre outras possibilidades.

Eu assisti os jornais franceses pela TV5 e sou testemunha da chamada que a imprensa e autoridades vem fazendo por lá pela prudência com as informações e especulações feitas a respeito do acidente. Acho que já seria hora de se pedir o mesmo por aqui, das autoridades e da imprensa também.