Caxambu em fragmentos 3

Ontém os trabalhos foram todos de pensamento social brasileiro.Comparação entre Alberto Torres e Rui Barbosa, análise sobre o conceito de mudança social no pensamento de Maria Isaura Pereira de Quiroz, comparação entre Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos.

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Primeiro comentário do debatedor Sergio Miceli: eu não gostei dos trabalhos. Então não vou comentá-los individualmente porque vocês são jovens e eu não quero desencorajá-los. Eu vou apenas dizer o que é que falta no trabalho de todos vocês…

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Existia um clima tenso na sala. Os rostos dos apresentadores estavam sem expressão. Ouviam Miceli dissecar sobre a irrelevância de se comentar os comentaristas já tão comentados. De se fazer isso sem levar em conta a fortuna crítica daquele autor. De aceitar a relevância do autor como dada, sem probelmatizá-la. Cadê a justificativa? Dava para se ouvir os suspiros por conta do silêncio sepulcral que se dera como reflexo das palavras do debatedor. O que faltava naqueles trabalhos?

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E o Miceli usava todo o arsenal bélico e fino da sociologia da cultura para reduzir ao quase nada todos os elementos ainda resistentes de uma história das idéias, segundo ele, extremamente mal feita.

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Não houve resposta em mesmo nível. O que é uma pena. Eu gostaria de ter visto um posicionamento contrário, do Leopoldo W., por exemplo, que apresentara um trabalho engenhoso sobre Villa Lobos no dia anterior e que não recorria sistematicamente aos pressupostos da sociologia da cultura e dos intelectuais. Mais próximo da crítica literária, partindo inclusive de uma reflexão do Antonio Candido do Formação da Literatura Brasileira, ele discorre justamente sobre um ponto de inflexão formal na obra de Villa Lobos que fugiria, naquele ponto, a determinantes externas de cunho social.

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Mas não houve refute individual, só recalque coletivo. Quiseram ler as críticas do Miceli como críticas de ordem metodológicas. Ora, se bem entendo os argumentos ali colocados, e se os levo às suas últimas consequências (que é a própria reflexividade), seria preciso encontrar o argumento institucional não mais apenas na história feita dos intelectuais estudados, mas na história sendo feita daqueles jovens que não escreveram aqueles trabalhos num vázio institucional. A pergunta é: quem são os orientadores daqueles trabalhos, quais são os critérios analíticos oriundos das ementas de aula das instituições que os formaram, identificadores reais das normas as quais guiaram seus esforços reais de interpretação daquelas obras? Sem essa pergunta só tiramos o curativo da ferida e a deixamos descoberta.

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Os trabalhos eram bons? Todos ficaram de acordo com Miceli: não. Sobrou como sempre para o lado mais fraco: o dos pesquisadores entrantes que se caracterizam pela fragilidade na relação de poder estabelecida com os representantes ilustres do pensamento social brasileiro.

Caxambu em fragmentos 2

Chego à sala vazia. Aos poucos as pessoas vão chegando. Capto conversas desconexas sobre um assunto ou outro. As pessoas se conhecem entre elas. Sorridentes, felizes do reencontro.

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E eu só nesse mundo.

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O GT de pensamento social é um antro feudal da intelectualidade brasileira. Estão todos falando a mesma língua (do pensamento social)? Não importa. É a sociabilidade e não os embates intelectuais que apontam meu desconforto.

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O lugar pode ser descrito como um feudo. Um lugar onde quando os plebeus se arrogam a falar algo, as “besteiras” ditas transparecem no desconforto dos “Senhores” que se apressam a dizer “pode finalizar essa pergunta”, o que logo minha tecla sap traduziu por: “vamos discutir algo realmente interessante”. Para mais a frente completar: “algo no nosso nível de apreensão”.

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Isso deveria parecer natural para mim. Deveria. Afinal, nas regras do jogo acadêmico, o que está realmente em jogo, ou seja, a qualidade argumentativa própria do “pensamento social” ali posto, deveria ser tido como prioridade. É verdade, deveria me dizer, não vamos peder tempo com perguntas tôlas e sem sentido. Isso faz parte de uma lógica de produção que gera excelência no pensamento.

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Mas aquela sociabilidade me deixou a flor da pele, angustiado: o que é aquilo? Que desconforto é esse?

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Os trabalhos foram bons, de alta qualidade, mas algo que não saberia descrever bem me incomodou profundamente, mais do que em outros congressos que participei. Sim, as exposições foram muito cuidadosas, com intelectuais experientes, talentosos e porque não dizer: eruditos.

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Eu achava que estava preparado, mas nem na França vi semelhante imagem de autoreferenciamento coletivo. Não é intextualidade. É o comportamento das pessoas entre elas que evidencia a forma endogâmica de um grupo que pouco se mistura, ou, para dizer o mínimo, se se mistura, só o faz com alguns “iguais”.

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Eu entrei mudo e saí calado nesse primeiro dia. E meu calar tão raro nessas ocasiões onde os temas me são tão caros tem a ver com meu espanto em ver de maneira tão explícita a segregação regional da sociologia brasileira. USP, UNICAMP, PUC, definitivamente não são em nada parecidas com as uefepeéis da vida.

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Leopoldo Waizbort apresentou um trabalho novo dele sobre Villa Lobos, solicitando uma leitura formalista da obra do compositor… Segundo comentário dele, já respondendo as perguntas, esse trabalho de conhecimento substantivo da obra é fundamental para garantir um equilibrio entre as análises históricas (segundo ele hegemônicas no caso dos estudos de Villa Lobos) e as análises formalistas.

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Outro trabalho que eu gostei foi o de Paulo Renato Guérios. “O uso de trajetória de vida como estratégia de análise sociológica: o caso de Heitor Villa Lobos”. Aqui minha percepção se concentrou mais no trabalho de reflexão metodológica do autor que lidava com uma reflexão a respeito das formas de integrar estudo de trajetória e o contexto social. Isso a partir de uma comparação entre os estudos de trajetória sociológicos e algumas interpreções de Villa Lobos que levavam em conta seu contexto social.

Caxambu em fragmentos 1

…caramba, essa viagem não acaba. Esse ônibus continua a ziguezaguear como se estivesse em cima do símbolo matemático do infinito. Não quero vomitar. Não posso passar mal, não peguei a porra do saquinho de plástico. Não entendi porque haviam tantos na entrada. O motorista parecia tão tranquilo. Nada em seu semblante transparecia prever tormento na natureza da viagem…

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A sede havia passado. E o enjôo começou a sumir. Eu tinha a Piauí nas mãos. Li o interessante diário da jovem polonesa Marysia Wróblewska. Ele me fez lembrar de muitas coisas pelo avesso. Com aquela coisa de que as vezes, tentando fugir de clichês, a gente termina se tornando um deles. (Não que a polonesinha seja de todo um clichê, não é isso. Mas não seria um clichê uma jovem inteligente e já culta querer fugir dos clichês ao chegar num país de tantos lugares comuns?) Por outro lado, é muito bom ver os mundos que podem ser descobertos por alguém com uma boa educação: abrir-se para conhecer o outro e aprender mais sobre os próprios limites (a disposição dela ao sair de seu cantinho para conhecer algo tão diferente é muito bonita).

Distraído, a leitura me levou para as palavras de pessoas amadas que aterrizaram nessa terra incrível e quase inexplicável que é o Brasil e seus tantos brasis. Palavras que descrevem com espanto o centro de gravidade do corpo feminino estando na bunda, palavras que titubeiam a dor quase sempre disfarçada dos brasileiros ao falarem de sua alegria real, mas sem sal. Afinal, ninguém consegue assumir que ninguém é capaz de assumir completamente o fardo que é viver em meio a nossa violência urbana. Quem sofre, cuida. Mas cuidar termina sendo se manter no medo ao tentar evitar o pior. Padecemos nessa redundância sem sentido.

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Bebi na fonte da Majestade Leopoldina, logo senti os benefícios da realeza: grandes poderes trazem maiores responsabilidades. Daí sentei ainda sentido dos saculejos no juízo causados pela viagem. Fiquei num banquinho esperando o efeito terapêutico da àgua chegar.

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Ainda estava cansado. Mas ainda assim li a matéria sobre Serra. Gostei bastante. Mas talvez porque por demais acostumado com o jornalismo ora marketeiro ora detratante de nossa grande imprensa, achei que o equilíbrio dado por Daniela Pinheiro ao retratar um Serra mais complexo, menos caricato, tendia um pouco em desfavor do pré-candidato. As vozes em off denuciavam com muita ênfase os esforços naturais de pessoas próximas e queridas ao tentarem proteger seu ente de possíveis usos impróprios de suas palavras. Esse recurso técnico, muito usado em entrevistas sociológicas e em descrições entnográficas para contextualizar elementos discursivos de entrevistas, tem um incrível efeito de aclarar as intenções por trás da fala. Em todo caso, é uma matéria de bom, muito bom jornalismo. Ela traça um perfil do lado de Serra, jogando meio que contra ele, através desses recursos do qual eu cito um (a descrição das vozes em off), o que é uma meneira a meu ver muito inteligente de equilibrar uma matéria onde a voz inimiga não pode dar o contraponto realmente ponderado sobre o assunto.

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Hoje acordei às cinco da manhã. Jorge foi novamente super atencioso comigo. Tomamos o café da manhã juntos. Havia um taxi me esperando embaixo para me levar até a rodoviária. Entrei sim, no que viria a ser o inferno das curvas sem fim…