Caxambu em fragmentos 1

…caramba, essa viagem não acaba. Esse ônibus continua a ziguezaguear como se estivesse em cima do símbolo matemático do infinito. Não quero vomitar. Não posso passar mal, não peguei a porra do saquinho de plástico. Não entendi porque haviam tantos na entrada. O motorista parecia tão tranquilo. Nada em seu semblante transparecia prever tormento na natureza da viagem…

***

A sede havia passado. E o enjôo começou a sumir. Eu tinha a Piauí nas mãos. Li o interessante diário da jovem polonesa Marysia Wróblewska. Ele me fez lembrar de muitas coisas pelo avesso. Com aquela coisa de que as vezes, tentando fugir de clichês, a gente termina se tornando um deles. (Não que a polonesinha seja de todo um clichê, não é isso. Mas não seria um clichê uma jovem inteligente e já culta querer fugir dos clichês ao chegar num país de tantos lugares comuns?) Por outro lado, é muito bom ver os mundos que podem ser descobertos por alguém com uma boa educação: abrir-se para conhecer o outro e aprender mais sobre os próprios limites (a disposição dela ao sair de seu cantinho para conhecer algo tão diferente é muito bonita).

Distraído, a leitura me levou para as palavras de pessoas amadas que aterrizaram nessa terra incrível e quase inexplicável que é o Brasil e seus tantos brasis. Palavras que descrevem com espanto o centro de gravidade do corpo feminino estando na bunda, palavras que titubeiam a dor quase sempre disfarçada dos brasileiros ao falarem de sua alegria real, mas sem sal. Afinal, ninguém consegue assumir que ninguém é capaz de assumir completamente o fardo que é viver em meio a nossa violência urbana. Quem sofre, cuida. Mas cuidar termina sendo se manter no medo ao tentar evitar o pior. Padecemos nessa redundância sem sentido.

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Bebi na fonte da Majestade Leopoldina, logo senti os benefícios da realeza: grandes poderes trazem maiores responsabilidades. Daí sentei ainda sentido dos saculejos no juízo causados pela viagem. Fiquei num banquinho esperando o efeito terapêutico da àgua chegar.

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Ainda estava cansado. Mas ainda assim li a matéria sobre Serra. Gostei bastante. Mas talvez porque por demais acostumado com o jornalismo ora marketeiro ora detratante de nossa grande imprensa, achei que o equilíbrio dado por Daniela Pinheiro ao retratar um Serra mais complexo, menos caricato, tendia um pouco em desfavor do pré-candidato. As vozes em off denuciavam com muita ênfase os esforços naturais de pessoas próximas e queridas ao tentarem proteger seu ente de possíveis usos impróprios de suas palavras. Esse recurso técnico, muito usado em entrevistas sociológicas e em descrições entnográficas para contextualizar elementos discursivos de entrevistas, tem um incrível efeito de aclarar as intenções por trás da fala. Em todo caso, é uma matéria de bom, muito bom jornalismo. Ela traça um perfil do lado de Serra, jogando meio que contra ele, através desses recursos do qual eu cito um (a descrição das vozes em off), o que é uma meneira a meu ver muito inteligente de equilibrar uma matéria onde a voz inimiga não pode dar o contraponto realmente ponderado sobre o assunto.

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Hoje acordei às cinco da manhã. Jorge foi novamente super atencioso comigo. Tomamos o café da manhã juntos. Havia um taxi me esperando embaixo para me levar até a rodoviária. Entrei sim, no que viria a ser o inferno das curvas sem fim…

3 pensamentos sobre “Caxambu em fragmentos 1

  1. Jampa, le tambem a materia do Camaleao natais! Depois tu puderes comenta o artigo do Francisco de Oliveira.. acho q ele eh o extremo da ferradura.. o avesso do avesso do avesso .. viciado nessa revista.. aproveita aiTas muito mal acostumado viajando so de boeing… toma um dramin q nao tem curva q te mate!!Abraco e estamos as ordens!!

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