Releitura de Clássicos: Éducation et sociologie, de Émile Durkheim

Logo quando voltei ao Brasil em 2006, para fazer meu doutorado na UFPE, tive a seguinte impressão ao ouvir comentários de colegas sobre a sociologia da educação: o debate não foca os elementos analíticos da sociologia, atendo-se apenas aos elementos propositivos que se descolam das conclusões dos autores lidos. Quando não, perseguem dilemas teóricos irrelevantes em nosso contexto, porque distantes do universo de problemas próprios à educação local,  desconectados que estão da própria realidade.

Reli agora a pouco o pequeno livro de Durkheim intitulado Éducation et sociologie, que havia lido ainda durante a graduação quando dispunha de poucos elementos para situar historicamente o conteúdo daquele livro. Veio-me a idea de me perguntar: como é que as pessoas recuperam e debatem as ideias contidas naquele livro hoje em dia no Brasil?

Bem, meu desejo não é fazer uma análise exaustiva da recepção recente da obra (não seria o propósito aqui do blogue), mas trazer uma ilustração contrastiva daquilo que me causou impressão nos comentários sobre a sociologia da educação, no pátio do CFCH. Minha hipótese é de que existe um modo de leitura do texto que induz o leitor ao afastamento do propósito sociológico contido nas ideias mais radicais da sociologia da educação, todas embasadas numa teoria da educação como processo de socialização dos indivíduos.

O exercíco que me propus foi o seguinte. Googlei “Educação e Sociologia, Durkheim” e selecionei aleatoriamente alguns textos da lista dada pelo Google. Não tive a preocupação de saber se os textos escolhidos são representativos ou não de uma linha de pensamento hegemônico universitário. Como disse, o exercício é apenas uma meneira de ilustrar o que julgo insuficiente na forma de lidar com as leituras de obras de sociologia da educação. Li os textos e selecionei o que me pareceu mais apropriado para minha “demonstração”.

Problema – a importância da conclusão na leitura do link 2, vejamos o seguinte comentário:

” No livro Sociologia e Educação , o pensador e sociólogo Èmile Durkheim, argumenta que; a palavra educação, tem sido muitas vezes empregada em sentido demasiadamente amplo para designar o conjunto de influências que são exercidas sobre nossa inteligência ao longo da vida. Durkheim entende a educação como um fator cultural e social. A educação assim definida, – como um conjunto de influências exercida sobre os indivíduos – é responsável pelas atitudes e ações destes na sociedade. Portanto, dada essa a forma da educação, cada sociedade forma o tipo de homem de que deseja e necessita. A educação, do ponto de vista sociológico, é a atividade das gerações adultas exercida sobre as gerações que ainda não alcançou o estado de amadurecimento físico, intelectual, moral e social adequado. Durkheim define a educação como a “socialização da criança”. A educação em sua natureza e função, pode ser assim definida por vários pensadores. É a preparação do indivíduo para a vida social, cultural e moral. Constitui um fenômeno eminentemente social e cultural. Ao longo da história, diferentes sociedades tiveram os mais diferentes sistemas educacionais. Os indivíduos eram educados de acordo com as regras morais e sociais adotadas por cada sociedade e épocas diferentes. Assim foi a história da educação segundo Durkheim. Uma educação para cada época e para cada povo. Cada sistema foi sucedido por outro de acordo com a organização social vigente e as normas sociais e de condutas adotadas. Ocorre ainda, de normas de educação diferentes vigorar em espaços geográficos diferentes, como foi o caso de Atenas e Esparta na Grécia. Em resumo, Durkheim mostra que; diferentes povos, em diferentes lugares e em determinadas épocas, tiveram determinados sistemas de educação que privilegiavam seus ideais de organização social.” ( Meus Itálicos)

Não vou fazer digressão sobre a história das ciências sociais e o momento histórico que deu suporte à obra de Durkheim. Mas digamos que, para nós, em tempo e contexto tão distante, a conclusão a qual o sociólogo chegou não é de de fato o mais importante. Mais do que ela  são os caminhos que sua reflexão teve que percorrer (que inclusive explicam sua conclusão) que devem e podem servir de ferramentas atualíssimas para um pensamento sociológico sobre sistemas de educação específicos. É bom lembrar as palavras do próprio Durkheim ( lembrar também que ele mesmo não realizou stricto sensu trabalhos de sociologia da educação) ao relatar o estado embrionário da reflexão sociológica sobre a educação de seu país: “Nada é tão vão e estéril como esse puritanismo científico que, sob o pretexto que a ciência não está feita, aconselha a abstenção e recomenda aos homens de assistir em testemunho indiferente, ou ao menos resignados, a marcha dos eventos. Ao lado do sofisma da ignorância, existe o sofisma da ciência que não é menos perigoso. Sem dúvida ao agir nessas condições, corremos riscos. Mas a ação não vai jamais sem riscos; a ciência, tão avançada que ela possa ser, não saberia suprimí-los. Tudo que podemos pedir, é de colocar tudo que havemos de ciência, por mais imperfeita que seja, e tudo que havemos de consciência, para prevenir os riscos que estão em nós.” 

O livro de Durkheim deveria ser lido, como o foi por muitos na França (ajudando a formar o que hoje se entende por sociologia da educação), como uma espécie de manifesto em defesa de uma sociologia da educação ainda não existente. Seu título poderia muito bem ser: ” Por uma sociologia da educação”. O esforço de definição e de esclarecimento das terminologias “educação” e ” pedagogia” não são por assim dizer, como se deixa imaginar às vezes, elementos sociológicos stricto sensu, mas reflexões que buscavam justificar a necessidade de um pensamento sociologicamente informado sobre a educação. É claro que no livro  (que foi publicado pela primeira vez em 1922) encontramos muitos elementos que hoje fazem parte do patrimônio da sociologia. O principal deles, que não foi sequer mencionado em nenhum dos textos lidos, é o fato de que a diferença entre os modelos históricos de educação, utilizados por Durkheim como evidência sociológica, diferem em função daquilo que deve ser o objeto de análise da sociologia da educação, a saber: os modos de inculcação que cada sociedade elege para garantir a coesão social. Em outras palavras, os modos de ensino e apredizado existentes no interior das sociedades. Durkheim constata várias vezes e com muita ênfase no texto que esse era um trabalho ainda a ser feito. Na França, este trabalho foi realizado com mais força nos anos sessenta e setenta, 50 anos depois da publicação do livro de Durkheim. Ele foi realizado pelas gerações de sociólogos posteriores a Durkheim, com as grandes enquetes sobre a Escola e as instituições de ensino, das quais um grande exemplo é o livro A reprodução(aqui um belo pdf com recensão de Ana Paula Rosendo), de Bourdieu e Passeron.

Não discuto aqui os rumos que o debate sobre a educação no Brasil tomou nesse período. Tenho a impressão, porém, que é possível notar um certo vácuo nos estudos sociológicos sobre a educação no Brasil.  Não conheço estudos sistemáticos de envergadura sobre os impactos e as consequências sociais das desigualdades entre os diferentes tipos de escola (pública e privada), estudos sobre as diferenças entre as escolas públicas (de suburbios, de aplicação,  técnicas etc.), estudos sobre as diferentes escolas privadas (militares, religiosas, de suburbios, etc.), estudos sobre a uniformização da educação nas diferentes esferas (municipal, estudual e federal), estudos sobre o processo específico de socialização dado através das instituições escolares em seus diferentes níveis. Já vi muitos trabalhos de qualidade sobre educação, claro. Recentemente, por exemplo, li o livro do Sergio Miceli, já antigo, sobre as elites eclesiais brasileiras (ele analisa o papel das escolas religiosas na fomação das elites oligaquicas brasileiras no período de transição do Império para República Velha), que achei muito bom. Mas fico achando que falta um trabalho coletivo que revele dinamismos históricos mais recentes, que levem em conta os ajustes institucionais atuais realizados em função da democratização da educação e das dificuldades encontradas para qualificação funcional da escola como meio de socialização por e de excelência no Brasil.  Fico por aqui.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s