Por que o progresso não traz a ordem na blogosfera: Idelber x Nassif

 Não é sem interesse começar esse texto resgatando a  importância histórica das polêmicas em nosso país. A cultura brasileira é movida por elas. Basta lembrar das clássicas: Nabuco X Alencar, Machado de Assis X Sylvio Romero e  Roberto Schwarz X Haroldo de Campos, algumas das mais célebres no campo da intelectualidade. Ao contrário do que sugere a turma cordial do deixa-disso,  que também faz parte de nossa cultura, as polêmicas podem ser ricas por explicitar os  critérios de ação e juízo de um campo intelectual. É esse o objetivo de se analisar o caso da polêmcia Idelber X Nassif, mostrando diferenciações dentro de um campo que se pretendia unificado (ala dita progressista da blogosfera). Daí a acusação, da turma do “deixa-disso”, que Idelber estaria sendo “divisionista”. O que está por trás dessa suposição e quais as implicações para um debate sereno sobre a atividade crítica na internet?

Enfatizo que minha intenção principal não é reconstruir a polêmica entre Idelber e Nassif, até porque isso já foi feito até demais. Nem é questão aqui tomar partido entre dois dos blogueiros mais famosos da blogosfera brasileira, ou simplesmente, da blogoseira, como dizia o saudoso Hermenauta. Acho, porém, que pelo nível da contenda, não vale recusar o momento e apenas tomar partido. Por exemplo, eu acho que o Idelber tem razão : o Nassif pisou na bola  quando tentava reparar o erro contido na expressão de seu machismo. Eu penso isso. Penso também, contudo, que isso é pouco. É preciso colocar o dedo na ferida com força. Por isso quero, dentro dos limites cabíveis, avaliar o que pode estar por trás das recentes acusações mutuas entre os dois e que geraram posts interessantemente violentos, indicando algo sobre o que está realmente em jogo nas diferenças entre os dois estilos de blogagem e suas possibilidades no exercício da crítica internética. A saber, a horizotalidade ou a verticalidade (hieraquização) na relação com a produção de opinião e a repercusão de informações na internet. Machistas todos somos num momento ou em outro quando baixamos a guarda. E merecemos ouvir as críticas cabíveis quando não percebemos nosso despropósito. Na polêmica em questão isso tudo aconteceu… Mas por quais razões reais?

Por que não fazer o exercício, como fazia Freud, de nos dar o direito de especular um pouco mais. E se a reação ao machismo e a reação à reação nos diz algo mais sobre o espaço de disputa no interior da esquerda blogueira? Será que, como aliados, queremos ir além e fazer a ferida sangrar?

A questão que dói, é a que implusionou o Nassif a uma retratação pelo machismo por ele operado. Talvez isso não seja, porém, o que mais dói em nós leitores de blogues. O reconhecimento do erro levou Nassif a expor e-mails pessoais colocando em questão as razões pelas quais outro blogueiro querido, o Idelber, teria sido injusto e desleal com ele, em outro momento. Com isso saia do foco a questão do machismo, e o caso levava duas pessoas reputadas e respeitadas na blogoseira a se desrespeitarem daquela forma. Que fique claro, no debate a respeito do termo “feminazi”, foi uma goleada atleticana.

Digo isso mesmo não querendo tomar partido das partes, nem ser o foco do  meu texto a reconstrução da contenda.  É preciso dar conta, porém, de alguns elementos de contexto para enquadrar os elementos da disputa aqui retidos para análise. Isso porque eles não são os mesmos do debate gerado pelo termo “feminazi”.

Resumo: tudo começara, aparentemente, no blogue do Nassif. Um certo dia um comentarista, chamado André, publicou comentário sobre o feminismo associando-o ao radicalismo de algumas de suas integrantes ao termo “feminazi” o que gerou uma reação imediata e um bate-boca pouco cordial entre André e algumas militantes feministas na caixa de mensagens do blgue do Nassif. Bem, a coisa ganhou ares maiores quando o comentário ganhou cifra de post… Ora, algumas feministas, com razão, disseram: “o que era comentário ganhou o aval do Nassif, que concorda com o uso do termo em questão”.  À reação virulenta das feministas, Nassif respondeu com ironia e desdem no Twitter (ver aqui). A polêmica já estava feita quando Idelber, com razão, toma partido das feministas, o que causa certo embaraço a Nassif, que ao perceber o desgaste e o erro, coloca em relevo, já na sua retratação, as supostas más intensões de Idelber, que, mentiroso, estaria visando pessoalmente o próprio Nassif.

Na minha opinião, como já disse, o Nassif saiu perdendo no debate, mas isso não é o que mais importa para blogosfera.

Não por acaso, creio eu, a querela gerou  textos que tentam re-afirmar, digamos assim, os critérios de excelência no exercício da blogagem entre os dois blogueiros. O do Idelber, foi esse aqui. O do Nassif, esse outro, já linkado mais acima, mas me refiro sobretudo a parte intitulada “Acadêmicos na blogosfera”. Aliados num espectro político mais amplo à esquerda,  suas  diferenças eclodiram com mais força num momento em que a oposição parece ter perdido as pernas da credibilidade, fazendo com que a demarcação das especificidades militantes de cada um, desse margem ao espaço de disputa conflitiva, um verdadeiro desvelamento de um conflito silencioso que vinha sendo travado há algum tempo, mas de maneira cifrada, acirrando a vaidade de cada um. Mas o que fica de interessante dessa batalha de egos?

O que tento evidenciar aqui é que para além do machismo, e apesar de existir o mito segundo o qual na internet há espaço para todos, o que se revela através da querela entre os dois famosos blogueiros de esquerda, é uma luta pela legitimação de práticas blogueiras específicas , o que indica um esforço de delimitação do espaço simbólico de atuação política das partes. O esforço de classificação contido nas idetificações mutuas como “blogue de esquerda”, “blogue progressista”, “jornalista-blogueiro”, “blogueiro acadêmico”, “blogueiro-histórico” etc. ,  são marcas latentes do que está em jogo nessa disputa.

De um lado Nassif, que tenta fazer a delimitação da seguinte forma:

“Ao contrário dos blogueiros intelectuais, os jornalistas não se pretendem donos de blogs autorais. Nosso papel foi encarar as brigas pesadas, abrir janelas de visibilidade para os novos protagonistas que apareciam, fazendo jornalismo. Foram essas janelas que permitiram o aparecimento de novos personagens enriquecendo a mitologia da blogosfera, mas tirando o exclusivismo dos antigos donos das cátedras.”

Dessa forma, o Nassif entra na luta depois de situar à sua maneira a história da blogosfera, posicionando o seu papel e falando da limitação dos blogues autorais. Qual a maior diferença entre ele e o Idelber? O Nassif diz:

“Alguns acadêmicos estavam muito atarefados para participar dessas guerras. Acordaram de uma longa hibernação no dia seguinte ao do fim da guerra e constataram que a blogosfera tinha se tornado grande demais, diversificada demais, para comportar donos, gurus. Ganhou dimensão política, especialmente após a coletiva de Lula aos blogueiros que se destacaram na grande guerra. Viram seu mundo invadido por uma nova fauna, diversificada e que ganha visibilidade imediata graças à grande rede informal tecida no período das grandes batalhas.”

Nassif insinua que alguns blogueiros acadêmicos não entenderam o papel e o funcionamento de um blogue como o dele, que, respeitando mais a verticalização da informação e das opiniões, publica comentários dos leitores, dando visibilidade a ideias divergentes. O que faz sentido, quando acompanhamos o debate sobre o uso do termo “feminazi” pelo André no blogue do Nassif. Ora, se pensarmos bem,  a verticalização existe no blogue do Nassif, mas ela se dá no espaço que ele mesmo concebe às opiniões contrárias, por ele levada ao estatus de post.

Dessa forma, fica ainda mais claro que na crítica ao Idelber é ao formato do blogue e aquilo que isso denuncia o que está em jogo:

“Quando um post do Cloaca é repercutido nos blogs do PHA, Azenha, Rodrigo e no meu, ajuda a blogosfera a conhecer rapidamente seu trabalho. O pioneiro da blogosfera, que se considerava quase um dono de cátedra, vê novos atores brotando a cada minuto, de forma muito mais eficiente e rápida, e entra em pânico: como é que eu fico?

Em certo sentido, repete – no ambiente da blogosfera – a mesma resistência de setores da classe média com a ascensão dos novos protagonistas: estão invadindo a minha praia! E aí precisam encontrar um culpado.”

O que Cesar  em conversa por e-mail me alertou é que Nassif sugere que, por ter parado um ano, Idelber, o pioneiro, quando volta, encontra a blogosfera completamente modificada.  “Acuado pela falta de espaço,[anlisa Cesar] Nassif acusa Idelber de resolver atacar.”  É muito interessante a luta entre os termos “novo” e “velho” estabelecida por Nassif.  Classificar é desclassificar, como já disse um célebre sociólogo.  Objetivamente Nassif é oriundo da velha mídia e está na esfera pública brasileira há bastante tempo.  Não obstante, Idelber é considerado o pioneiro na net e Nassif se considera participante da “nova blogosfera”. Esta que se criou, segundo o discurso de Nassif, quando Idelber hibernava e agora já não tem nem precisa de gurus nem donos. Subjacente a essa questão, está outra, nunca tocada por Nassif, que é a da profissionalização do blogueiro. Nassif é blogueiro por profissão. Idelber é um professor de uma universidade estadunidense. (Mais uma vez obrigado Cesar, pelo excelênte tato sociológico). Precisou parar por conta de compromissos profissionais. No entanto, Nassif interpreta essa fato como um “descompromisso” com as causas políticas, alegando que “alguns acadêmicos estavam muito atarefados para participar dessas guerras”.  O conflito é rico de significados, entre “nova”e “velha” blogosfera (quem é o novo? quem é o velho?), entre jornalistas e blogueiros não-profissionais, e que tipo de ética da blogagem sairá dessa batalha.

Percebemos além disto que o Nassif não está para brincadeiras. Mais do que isso, que os métodos que vai utilizar para desmerecer o Idelber estão próximos do que ele acusa ter sido vítima. É como se Nassif dissesse: meu blogue é mais eficiente porque dá visibilidade aos que antes faziam trabalho de formiga. Dessa forma, para diminuir o foco sobre a questão do machismo-  que ele não quer mais discutir, até porque ele sabe que está errado nesse ponto-, começa a tratar o Idelber como inimigo  intra-classe, “a classe média resistente a ascensão dos novos protagonistas”.  O Nassif nesse ponto foi duplamente injusto com o Idelber. Primeiro porque o blogueiro acadêmico criticado por ele  foi duramente acusado do contrário em seu blogue (a meu ver justamente) por ter sido arrogante e paternalista ao defender uma família de parvenus  num aeroporto (aqui, aqui e sobretudo aqui, ver caixa de comentários). Do meu ponto de vista, o Idelber pode ser criticado, naquele texto, por ter sido uma espécie de sociólogo- justiceiro sem nuance sociológica, justamente por usar um sistema de classificação social solto para identificar tipos de classe média que, segundo ele, interagiam no aeroporto. A falta de nuance sociológica revelou uma atitude paternalista, arrogante e elitista abundantemente criticada naquela caixa de comentários.

 Mas o que uma coisa tem a ver com outra?O que a injustiça do Nassif diz do debate como um todo?

Tratou-se de um momento em que o blogueiro foi acuado dentro do próprio blogue pela maioria dos comentaristas. Percebam que meu ponto de vista crítico com relação ao conteúdo da crônica de Idelber não se altera quando tento dar outro rendimento ao caso do aeroporto de Miami. Mas o que importa, de fato, quanto ao que está em jogo entre o Idelber e o Nassif, é que o primeiro deixou a caixa de comentário aberta – prática quase inexistente entre os blogueiros-jornalistas oriundos da velha mídia, e foi para o embate, dentro da caixa de comentários.

E mais uma vez o leitor pode se perguntar, mas o que uma coisa tem a ver com outra? O foco central de minha análise chama a atenção para as categorias de classificação utilizadas na querela para apontar as coisas que estão em jogo nos diferentes estilos de blogagem.  Um dos focos dessa tentativas de classificação, como vimos até aqui, visa separar estilos de blogues entre categorias como “novo x velho”, “prático implicado x teórico desengajado”. Ora, chama a atenção nesses “novos tempos” que antigamente, os blogueiros tinham mais controle sobre o que poderia ser dito sobre eles, já que tinham controle total da caixa de comentários. Hoje em dia com o twitter, por exemplo, isso me parece obsoleto. Tanto é que o grande embate na questão do Nassif (a polêmica do faminazi) não se deu na caixa de comentários de seu blogue, mas no twitter. E é preciso notar que Nassif demonstrou bastante ansiedade, para não dizer total descontrole,  sobre o que disseram dele no twitter. Trata-se de um lugar onde ele não tem nem pode ter controle. Eis um primeiro ponto a ser pensado. Mas voltemos às análises.

 Esses elementos demonstram a meu ver que o que está em jogo nesse caso específico não são as opiniões políticas e ideológicas a respeito do feminismo, mas o espaço a ser ocupado na blogosfera. O Idelber não pode ser resistente à acensão de novos protagonistas sociais de maneira geral(como mostra a igenuidade sociológica com que ele tratou a questão no caso do aeroporto), mas ele o é, segundo Nassif, na blogosfera. É  isso que o Nassif tenta insinuar com a metáfora da resistência do Idelber (que é um “blogueiro histórico”, eu adoro essas classificações) a blogues de “parvenus” (“jornalista-blogueiro”), que é como o Nassif se encara na blogosfera. Parece-me que apesar de inadequada como acusação, a crítica do Nassif seja significativa de uma batalha ainda por ser elucidada nos seus pormenores.

Na minha opinião o Nassif foi, por isso, duplamente  injusto: primeiramente na identificação de classe (Idelber equiparado à classe média resistente), e, depois,  ao  expor uma tensão de bastidores a respeito de suposto plágio que o Idelber teria sofrido em seu blogue, que não tinha nada a ver com a questão. Nassif usava assim, contra o Idelber, um falso weekleakdonassif:

“Prezado Idelber

uma leitora do grupo que está me detonando entrou no Blog para me

“acusar” de não ter dado crédito a um artigo seu. Tive a curiosidade

de conferir seu timeline e li acusação semelhante sua, embora sem

citar meu nome de usuário.

Diariamente publico em média 50 posts, grande parte de comentaristas

do Blog. Sempre alerto para colocarem link e fonte

(http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-5-de-setembro-da-folha).

Mas não tenho condição de conferir todos os posts e saber quem é o

autor. Sempre que alertado por algum comentário, procuro corrigir

imediatamente a informação.

Se você tivesse tido a iniciativa de me mandar um email que fosse, um

recado pelo twitter, imediatamente a autoria seria corrigida. Em vez

disso, leio twitts seus com essas insinuações:

@ManiOhS @vleonel Deve ser o mesmo assistente que copia e publica

traduções minhas sem creditar ou linkar a fonte…

As mesmas, aliás, feitas pela leitora. Confesso não ter entendido esse

movimento. Muitas vezes posts meus saem em outros blogs sem o link.

E não vejo nenhuma intenção de boicote ou de se apropriar de temas

alheios. Muitas vezes os posts são clonagens de posts colocados pelos

leitores em seus respectivos blogs no Brasilianas.

Se conferir o Blog, há uma infinidade de posts do Azenha, Rodrigo,

PHA, suas (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-resposta-de-dilma-sobre-o-ira).

Se tivesse sido alertado por você, imediatamente teria providenciado a

correção da autoria. Acredito que entre pessoas maduras, esse é o

melhor procedimento, inclusive para evitar esse acúmulo desnecessário

de mágoas.

Independentemente do episódio, peço que me envie links ou títulos dos

posts em que não há crédito a você, para que possam ser devidamente

corrigidos.

Abraço,

Nassif”

Depois de mostrar o e-mail pessoal usa, o que me parece mais grave, a resposta do Idelber:

” Carissimo Nassif:

Te respondo muito precariamente, de uma roda de choro, em Ouro Preto, pelo telefone. Vou conferir tudo e fazer, com calma, um post bem ponderado. Te adoro, meu cumpadi.

Idelber”

Para depois insinuar deslealdade da parte de Idelber: “No dia seguinte, novo post em seu blog, colocando mais gasolina na fogueira que estava começando a apagar.”

Não é meu papel aqui medir o grau de honestidade entre os dois. Lendo apenas o texto do Nassif, porém, é  possível encontrar alguns não ditos. É importante lembrar, para contextualização, principalmente por conta de tudo que separa o Idelber do Nassif, que apesar de se dizer contra a velha a mídia – o que de fato acho que ele é em certo sentido –  Nassif adquiriu boa parte de seu capital simbólico na atuação dele na Folha de S. Paulo. Foi lá que ele tornou-se conhecido, sim, e por conta da velha mídia. Assim como Paulo Henrique Amorim e Azenha. É verdade que eles dão “visibilidade” aos Cloacas da vida, porque são famosos. Não se pode desmentir esses fatos. Mas o que venho chamar a atenção é que não há nenhuma reflexão por parte de Nassif sobre as origens dessa posição-chave que permite dar “visibilidade” a outros blogueiros. A contraposição com a trajetória de Idelber é didática nesse sentido, pois trata-se de alguém sem nenhum vínculo com a grande mídia e que conseguiu prestígio na blogosfera adquirindo capital simbólico a partir da própria blogagem(claro, o fato de ser professor universitário implica em outra forma de fazer render o capital simbólico na blogagem).

Do outro lado, é interessante  perceber que a resposta do Idelber tenha sido, também, uma reafirmação dos princípios norteadores de seu blogue. Porque é isso mesmo que está em questão. E, ao ser acusado de falta de lealdade, responde claramente:

“Mas posto que o Nassif fala de lealdade, deixe-me definir meu conceito de lealdade na rede: 1. explicitar publicamente discordâncias sempre que se tratar de coisa pública, ou seja, post publicado na rede, por exemplo; 2. não reproduzir posts sem crédito e link; 3. não publicar informações pessoais de ninguém em meio a polêmicas, tipo lugar onde fulana trabalha etc.; 4. Jamais publicar correspondência privada passiva sem autorização de quem escreveu. 5. Jamais “baixar o nível” numa polêmica falando da vida pessoal de ninguém.”

É a maneira de blogar que está em jogo. É ela que é o foco central do debate por trás das querelas sobre machismo e feminismo. Para mim, a melhor síntese dessa conversa, até agora,  está muito bem colocada por Hugo Albuquerque . Em um comentário muito atento dele encontramos:

“[…] A reação corporativista de lado a lado, aliás, foi reveladora. O episódio foi um catalisador que antecipou um debate sobre algo que estava passando desapercebido na blogosfera, a formação de uma lógica hierarquizada de rede, na qual os blogs-jornalísticos ditavam a pauta e a natureza da crítica devidamente legitimados, mistificados e blindados em relação a qualquer questionamento. A primeira vez que um deles sofreu uma cobrança mais séria bastou para que, ao invés de entrarem em um debate, dessem uma grita se dizendo vítimas de uma fantasmagórica “crítica destrutiva”. E a revelação da reação foi auto-explicativa. Aliás, isso me mostrou como a situação era pior do que eu supunha.”

O “P.S” de Hugo deixa ainda mais claro o ponto vista aqui tratado:

“P.S.: Quando eu falo em jornalistas-blogueiros, estou dizendo em gente que veio da velha mídia e, embora se oponha a ela, ainda traz consigo uma certa lógica de comunicação hierarquizada e estranha à própria blogagem. Existem jornalistas que têm blogs e blogam de verdade como o João Villaverde, por exemplo.”

A blogagem de verdade tem uns verbos bem estranhos, mas muito importantes, como linkar, por exemplo. Acho, porém, que outras questões ligadas a história de vida precedente de cada blogueiro explica bastante as tomadas de posição e características de seus blogues. Seria preciso um debate sério e honesto sobre quais práticas garatem com mais clareza a horizontalidade na relação com a opinião e a informação.

Disse que não tomaria partido, mas, relendo, acho que tomei sim, em consequência da análise. Vejo no blogue do Nassif, apesar da importância que ele tem no sentido de dar visibilidade a outros blogues mais autorais, também da qualidade de comentaristas e do jornalismo que podemos lá encontrar, apesar disso, encontramos muitos resquícios de práticas da velha mídia que ele com toda sinceridade luta contra.

  É, a internet definitivamente trouxe novas liberdades, mas com elas chegam também novas maneiras de reproduzir hierarquias bem antigas… acadêmicas e jornalísticas. De minha parte deixo esse pequeno esforço de tirar proveito de uma polêmica  muito rica de significados dentro de um universo que faço parte sem nenhum interesse de protagonismo.

Ps. Esse post foi imensamente enriquecido com os comentário críticos de Cesar.

Jabá de duas teses das mais queridas da minha tese…

A melhor tese que li sobre Graciliano Ramos para fazer meu doutorado foi a de IEDA_LEBENSZTAYN, defendida em 2009, no Departamento de Letras Clássicas da USP.  Apesar de meu foco crítico, dado pela minha versão sociológica dos fatos, alterar em pontos cruciais a minha relação com o texto de Graciliano Ramos se comparado com a dela, lamentei e muito ter tido conhecimento tardio do trabalho excelente da pesquisadora e crítica. Tenho certeza que eu poderia ter dado mais refinamento aos meus argumentos se apoiados nas informações e análises críticas da tese em questão.

Diria que a pesquisa dela me fascina por várias razões. Seria suficiente elencar apenas às mais caras ao sociólogo da literatura, tais quais as informações sobre opiniões de um grupo de  jovens que despontava então para vida intelectual da época tendo que enfrentar situações específicas de seu meio. Ora, minha pesquisa sobre Graciliano Ramos me levou a me perguntar sobre a época de fomação do menino Graciliano (conhecida muita vezes apenas pelos próprios relatos autobiográficos do autor), sobre como aprendeu seu metier, de onde vinham e como se constituíram, para falar no jargão atual da sociologia, as modalidades de excelência do seu exercício literário? Sem isso, como poderíamos entender a ligação entre o processo de legitimação e consagração de sua obra e o próprio projeto estético-literário engajado contido em seus escritos? A tese de Ieda Lebensztayn nos dá mais dos que pistas sobre essas questões.

É interessante perceber que parte do material que serve de base para o roteiro interpretativo da tese são os textos críticos da revista Novidade. O lado interessante, se comparado à análise sociológica que fiz, é que a consequência da análise crítica, mesmo que centrada no texto crítico, é uma desconstrução de uma grande narrativa a respeito da classificação do chamado Romance do Nordeste . Comumente classificados como modernistas de segunda geração(Bosi, por exemplo) muitas vezes sem ter tido nenhum contato direto com os artífices da semana de 22, os romancistas do nordeste, notadamente Graciliano Ramos e José Lins, para falar de dois entre os mais conhecidos, aparecem no trabalho de Ieda como parte de um grupo que, a meu ver, “explica mais e melhor”, através da narrativa miúda criada pela análise dos textos da Novidade, do que as classificações históricas precedentes, muito abstratas e genéricas. Isso é mérito de uma crítica preocupada com uma leitura realmente contextualizada da produção literária da época. Na minha opinião, o trabalho sociológico deve atingir um efeito de contextualização semelhante partido das premissas sociológicas que analisam as conexões entre condições materiais e simbólicas de produção de textos literários e a feitura mesma desses textos. Em seguida é possível vislumbrar a análise de seus significados, através das análises das disputas simbólicas que transparecem nos esforços de legitimação e classificação dessas obras, trabalho que me dispus a fazer com muita dificuldade em minha tese, em parte por não dispor desse material. Nesse sentido, vale muito a pena ler a descrição fascinante da pesquisadora da insistência que ela teve que ter, não só para encontrar o material, mas para ter acesso a ele. Nas páginas 9, 10, e 11 do PDF que linquei para vocês lá em cima, é possível ler, por exemplo, como o “nehumha Novidade”, reposta que recebeu da secretária do arquivo onde parecia se encontrar os números da revista, torna-se uma ironia fina da condição de pesquisador, pois é sabida a dificuldade que se tem em nossos arquivos de se localizar e de se identificar documentos raros como este.

Além do trabalho de Lebensztayn, aos interessandos na relação entre sociedade e culutura intelectual-acadêmica, saindo um pouco da literatura, mas nem tanto, recomendaria o também excelente Entre Sociólogos de Carolina Pulici, publicado pela Edusp. Livro instigante que faz excelente escolha documental para tratar as relações de conflito entre os membros das cadeiras de Sociologia I e os da de Sociologia II na USP entre os anos 1950-1960. Se o que é fazer sociologia  no Brasil era uma pergunta a partir da qual se pressupunha que hegemonia uspiana precisava ser inquerida nos seus pormenores, uma pergunta que, por isso, exigia definições a respeito do que é fazer “sociologia uspiana”, taí um livro com bastante elementos para reflexão.

Bem, acabo aqui meu Jabá dos mais queridos da minha tese…

Atualização 29/12/ 2010: complemento do jabá, informação saída do forno, já aparece na internet a publicação da tese Ieda Lenbensztayn, aqui ó. Tá lá, bonitinho para quem quiser comprar.

P.S:  Alguns amigos me perguntaram porque meu elogio ao livro de Pulici se o link leva para uma resenha severa do Rodrigo Ramassote sobre as principais teses do livro. Eu sinceramente acho que apesar de pecar por um certo esquematismo ao se apropiar das ferramentas da sociologia bourdieusiana, o tipo de documentação utlizado por ela, traz uma luz toda especial aos aspectos mais concretos da dinâmica de disputa no interior de um grupo considerado homogênio. É claro que as perguntas do Ramassote são cortantes: o que há de novo no que ela diz? O autocentramento uspiano já não rendundou (com as análises do Luiz Carlos Jakcson, de Maria Arminda etc.) na explicitação dessas diferenças entre Florestan e Candido, por exemplo?  Bem, eu acho que essa redundancia ainda não alcançou o teor de reflexividade capaz de dar conta das principais contradições da produção uspiana. Termina sendo algo muito autocelebratório. E acho que esforço de Pulici ajuda a perceber isso. Eu considero que o material que ela utiliza desmembra alguns não ditos, e digo isso apesar de concordar com a existência das semelhanças que o Ramassote descreve tão bem no mestrado dele quando compara as estratégias institucionais de Candido e Florestan. O difícil aí é conciliar a atividade analítica e potencial interpretativo dessas semelhanças e diferenças, situando, por exemplo, a posição de conflito e cooperação dentro da história dessas figuras na instituição. Sim, essas duas coisas podem coexistir, mas a celebração futura, contemplada pelas diversas análises atuais da sociologia do passado, ao buscar  explicação para si mesma, deveria ser capaz de entender que a usp que estuda a usp produz um discurso de emulação institucional. Eu acho que o texto dela, apesar de fazer o mesmo, aponta, por conta do material utulizado para análise, para um questionamento sobre isso. Bem, não sei se me faço entender porque gosto do texto dela, mas tentei me fazer mais claro.

Reflexões sociológico pessoais sobre o intelectual e o político

 No dia 4 de dezembro de 2010 li uma interessante entrevista feita por Idelber com o professor Carlos Eduardo Rebello sobre a vida de Leon Trotski. Vou partir dela neste post para pensar um pouco sobre as relações tensas existentes entre o intelectual e o político. Acho que  pude eu mesmo vivenciar brevemente algumas dessas tensões nas características que tentarei descrever aqui.

 Um dos pontos mais interessantes da entrevista para mim discorreu sobre a relação entre a qualidade intelectual de Trotski e sua fragilidade na ação política concreta. Logo na primeira pergunta Idelber indagou o seguinte:

 

Quem leu León Trotski, mesmo em tradução, não costuma discordar: entre as figuras políticas do marxismo do século XX, foi o maior escritor e o mais poderoso no manejo da retórica. Ao mesmo tempo, foi o mais inapelavelmente derrotado na política na última década e meia da vida. Fale um pouco, por favor, dessas e de outras singularidades de Trotski. 

 

A resposta do professor Rebello foi muito instrutiva:

 

“Acredito que o paradoxo maior da carreira de Trotski está nele ter sido, na definição gramsciana da palavra, acima de tudo um intelectual, alguém que a partir de determinadas premissas, foi capaz de desdobrar sua concepção de mundo até as suas últimas conseqüências lógicas. No entanto, havia um lado do intelectual Trotski que nada tinha de gramsciano: sua indiferença freqüente ao seu papel “orgânico”, prático, de adequar esta visão geral de mundo às tarefas concretas do momento. Exatamente por isso, o ponto de inflexão da carreira política de Trotski esteve na sua relação com Lenin que, por mais que fosse um escritor pedestre e até mesmo um filósofo “vulgar”, no dizer de Zizek, foi capaz precisamente daquilo que Trotski sempre teve a maior dificuldade: adequar as suas posições políticas às tarefas práticas do momento. Trotski, mais de uma década antes de Lenin, já havia intuído o caráter socialista da Revolução Russa, ao qual Lenin só aderiu em 1917, no discurso da Estação Finlândia; mas o mérito de Lenin foi o de só sustentar esta posição publicamente quando percebeu a possibilidade de formar um consenso em torno dela. Trotski só foi capaz de funcionar como político prático enquanto em associação com Lenin. Quando Lenin esteve hostil – antes de 1917 – assim como depois da sua morte, Trotski exerceu um papel importante como visionário, como alguém capaz de perceber desenvolvimentos futuros, mas ao preço de sua incapacidade de agir de forma efetiva no momento presente.” (Meus itálicos)

O lastro sociológico que explica o paradoxo pode ser medido, na resposta, pela distância concreta existente entre o ideal abstrato contido na ideia gramsciana de intelectual orgânico e a sua possibilidade concreta de efetivação no mundo moderno, por Leon Trotski. Em outras palavras a distância real existente entre um homem que, como Trotski era capaz de “desdobrar sua concepção de mundo até as suas últimas conseqüências lógicas” e um homem que, como Lenin, era capaz de “adequar as suas posições políticas às tarefas práticas do momento.” Em que sentido é socialmente observável a incompatibilidade entre a precisão intelectual e o desempenho da ação política? 

Problematizando ainda de outra forma: pode um intelectual manter a integridade de seu ofício ao mesmo tempo em que desempenha um papel político importante? Ou ainda em outras palavras, pode ele, nesse mundo no qual o processo de especialização e de interdependência dele decorrente, detectado de diferentes maneiras pelas mentes mais poderosas que deram chão às ciências sociais ( Weber, Marx e Durkheim), pode o intelectual nesse mundo de imensa demanda de investimento temporal para a excelência nas diversas áreas de atuação na vida social, associar de maneira satisfatória atividades com características sociais tão dissonantes? A resposta baseada no exemplo histórico de Trotski mostra a dificuldade e complexidade do problema. Enquanto estava próximo de Lenin, foi uma coisa. Distante dele, outra.

Em uma sociologia atenta às lógicas práticas de construção do pensamento e da atividade política, o desmembramento das duas atividades parece impulsionar uma incompatibilidade histórica e prática intransponível entre as duas práticas: o tempo da experiência consequente do pensar a política (no modus operandi acadêmico) e o tempo da experiência concreta da vida política não são ajustáveis, visto que as exigências e os critérios de “qualidade” e “sucesso” de uma e outra atividades parecem ser excludentes entre si, principalmente no que diz respeito a temporalidade em que cada atividade se conduz.

De um lado, tem-se a urgência do cotidiano político, com sua atualização quase que imediata e continua. Urgência constante que  produz uma excelência baseada em critérios específicos atrelados ao próprio dia a dia da política, como é a capacidade de respostas instantâneas às novas situações de várias ordens. De outro lado, vemos o labor da resposta intelectual e sua demanda por uma temporalidade refletida(modus operandi atrelado à lógica formal), o tempo para reflexão ( é o tempo de descrições, análises, interpretações), que dão à avaliação intelectualizada seu mérito específico que nos diz  reipeito à clareza, à inteligibilidade, etc.  Ora, com essas características vamos encontrar quase sempre, daquele primeiro lado, a reação: olha… “as urgências aqui são outras”. 

Apesar disso, não deixa de ser interessante perceber que essas contradições encontram exemplos históricos de tensão onde os extremos dessas polaridades práticas (temporalmente incompatíveis) se encontram e tentam se ajustar de maneira mais ou menos convincente. Alguns casos que me vêm à cabeça no Brasil, como o de Florestan Fernandes em seu mandato parlamentar na década de 80, ou ainda, o exemplo do próprio Fernando Henrique Cardoso, com o famoso “esqueçam o que escrevi” são emblemáticos dessa tênue contradição. Na França, acompanhei de perto um caso muito interessante que foi o do engajamento político de Pierre Bourdieu no final de sua vida. Lendo a despedida de Jean-Claude Passeron depois da morte de Bourdieu tomei melhor consciência das implicações concretas e dos ricos que se corre ao topar a politização do intelecto ou, como do contrário, a intelectualização da política. Nos dois extremos, a derrota das partes parece estar garantida. Vale a leitura!

Vejo o seguinte, porém, nesses casos concretos, apesar de não existir uma conformação lógica das experiências de cada um (nenhum dos exemplos citados é extensível aos outros): pode-se observar os atritos gerados pelas expectativas solicitadas pelas “demandas específicas” de cada atividade, e delas solicitar lições. E é justamente isso que julgo intrigante e interessante como analista.

Na minha breve incursão na vida política local, sendo sociólogo de formação e querendo contribuir na construção de um projeto político para o PT de Pernambuco (que a meu entender precisa de renovação não só nos quadros, mas programática) percebi que essas tensões apareceram em muitas ocasiões. A meu ver, a incompatibilidade atinge de maneira mais forte aos que não percebem que os ajustes entre as demandas específicas de cada atividade devem ser feitos por quem muda de registro(do acadêmico para o político, por exemplo), mas que não há necessariamente incompatibilidade entre a inteligência intelectual (operacionalizada no debate político) e a atividade política propriamente dita (matizada pelo trabalho intelectual anterior, mas alterando-se seu objeto central que não mais pode ser o procedimento reflexivo nos moldes acadêmicos de antes). Essa transição não é fácil de ser feita e demanda uma certa conversão consentida, não só da parte de quem se propõe a tal mudança. No exemplo de Florestan Fernandes essa passagem se dá aparentemente pelo descrédito e a desilusão do autor de A revolução burguesa no Brasil com o que ele chamava de burocratização das universidades brasileiras (ver Freitag, aqui). Na sua vida de parlamentar, seu capital acadêmico se converteu em certa medida em político, sem necessariamente se dissolver completamente. O reconhecimento coletivo de seu mérito intelectual converteu seu mérito acadêmico em moeda política, isso, porém, ao custo da desilusão pessoal de Florestan em relação à universidade brasileira. São coisas que digo, claro, que precisariam de mais embasamento histórico da trajetória parlamentar do próprio Florestan. Mas considerando o que a Freitag diz a esse respeito:

Em sua terceira fase de produção (já como membro do PT e da Câmara) Fernandes nunca mais voltaria a trabalhar numa instituição de ensino superior. Em conversas e cartas exprimia seu desprezo pela burocratização da universidade e pelo carreirismo egocêntrico da maioria dos professores e pesquisadores, que repassavam essas atitudes às novas gerações de universitários. Os anos em que acreditara poder mudar a sociedade brasileira a partir de um conhecimento científico profundo da realidade com auxílio da ciência, da educação e do planejamento (categorias emprestadas à Mannheim) estavam perdidos para sempre. 

E  palavras como a do próprio Florestan sobre sua atividade parlamentar:

[Na Câmara] pude ver como atuam as elites econômicas, as elites culturais e as elites jurídicas, as elites militares, deputados e senadores predominantemente escolhidos dentro desses setores. Então pude conhecer melhor a sociedade brasileira, principalmente os processos pelos quais a concentração do poder, a concentração da riqueza e da cultura são mantidos de uma maneira ferrenha […]  

Poderíamos nos perguntar: como sociólogo, não teria ele visto já essas coisas? Mas de que forma pôde ele ver como parlamentar? São esses ajustes “desteorizantes”  que estão em questão e que operam, a meu ver, aquilo que pode-se chamar de conversão.

 Resta saber se existe real conversão sem tamanha desilusão…

Continuação de minha tese: por um Graciliano Ramos sociologizado

É difícil escrever um post sobre os resultados de uma tese feita em quatro anos. Mas o interesse de fazê-lo está em partilhar as ideias presentes em um trabalho que foi motivado por inquitações que dizem respeito às desigualdades sociais.

 Fazer sociologia da literatura, estudar as condições de produção sociais -sempre materiais e simbólicas- da literatura, é sempre uma forma de se perguntar também sobre as lógicas que fazem com que o patrimônio cultural, que pode ou não ser reaproveitado como capital específico pelas gerações futuras, tenha sido prioritariamente propriedade de certas classes ou agrupamentos sociais. Graciliano Ramos constitue um caso de trajetória ideal típica, na qual seu esforço de se tonar escritor revela história de uma estratégia comum, de pessoas ligadas a um agrupamento social com traços relativamente bem definidos. A história desse agrupamento precisa ser descrita.  E nela a  estratégia encontrada por integrantes de setores decadentes de uma antiga oligarquia interiorana brasileira para preservar certo prestígio,  não mais o econômico, pode ser chave para o entendimento de processos sociais de nossa vida literária. Como entra em cena o prestígio cultural? Não seria através da apropriação (mais ou menos legítima) da cultura letrada, que alguns encontram maneira de preservar parte do prestígio ora perdido pela decadência econômica de suas famílias como na tese defendida por Sergio Miceli?  Uma explicação como essa, é claro, demanda nuances e podenrações do caso a caso. Mas o foco sociológico da desmistificação do escritor dá ensejo as perguntas espinhosas que o trabalho de tese pôs em evidência, criando caminho movediço para delicada questão de entender como o romance de 30 foi possível no Brasil. Escritores oriundos da periferia de produção intelectual, todos eles produzindo romances e estabelecendo um novo patamar de qualidade literária: como explicar isso? Por que o romance e não outra forma de expressão intelectual e artística? Por que o realismo como pano de fundo estilístico?

O estudo das trajetórias particulares ensinam que a biografia dos autores tem muito a dizer sobre suas escolhas e os caminhos percorridos, porque todos eles estão socialmente condicionados. Um escritor como Graciliano Ramos, apesar de tudo que se disse sobre a desconfiança que ele mesmo nutria no valor de sua obra, tinha plena consciência que o Rio de Janeiro era o lugar de legitimação de seus escritos.  É preciso estudar o que esconde essa consciência e o que daquele esforço pessoal e coletivo  produziu de fato a legitimação de Graciliano no cenário literário brasileiro. O que revela a relação ambígua de amor e rejeição do Velho Graça à sua terra de origem? Amava-a ao ponto de torná-la objeto de seus escritos. E a odiava ao ponto de várias vezes se perguntar, e isso é o que importava para ele, “para quem escreveria estando lá?”.  O Rio de Janeiro, e os escritores sabiam disso, era o lugar onde se produzia o universal-brasileiro em matéria de literatura. Não por acaso encontramos no IEB (Instituto de Estudos Brasileiros na USP) recortes de jornais feitos por Graciliano Ramos sobre tudo que havia sido escrito sobre seus romances recém publicados.

Minha tese não tratou diretamente desses problemas macro-sociológicos que são consequëncias lógicas das questões mais miúdas nela trabalhadas. Ela lida, é bem verdade, de maneira localizada com a ideia de classes sociais. O fato é que o problema refratário da tese é o seguinte: como Graciliano Ramos, nascido e criado no interior de Alagoas, conseguiu entrar no pantheon dos escritores consagrados do Brasil no século XX? Foi a essa pergunta ao mesmo tempo simples e ambiciosa que meu tratrabalho conseguiu formular de maneira sociologicamente satisfatória. A pergunta é sociológica porque se refere aos obstáculos e caminhos concretos da consagração do autor que, quando descritos, obstáculos e caminhos percorridos, revelam os artifícios sociais que são ocultados na celebração posterior a consagração. Dessa forma, decorre do trabalho realizado um outro a ser ainda elaborado: discorrer através de material adequado, possivelmente as cartas pessoais entre Graciliano Ramos e seus amigos de geração (Zé Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Jorge Amado, etc.), sobre as estratégias do jovem Graciliano para entrar no círculo de produção literária carioca da época. É esse o caminho que pretendo a partir de agora seguir. A caçada aos documentos continua. No link a seguir disponibilizo a minha tese para quem tiver interesse: graciliano_diagramacao_8[1]