Continuação de minha tese: por um Graciliano Ramos sociologizado

É difícil escrever um post sobre os resultados de uma tese feita em quatro anos. Mas o interesse de fazê-lo está em partilhar as ideias presentes em um trabalho que foi motivado por inquitações que dizem respeito às desigualdades sociais.

 Fazer sociologia da literatura, estudar as condições de produção sociais -sempre materiais e simbólicas- da literatura, é sempre uma forma de se perguntar também sobre as lógicas que fazem com que o patrimônio cultural, que pode ou não ser reaproveitado como capital específico pelas gerações futuras, tenha sido prioritariamente propriedade de certas classes ou agrupamentos sociais. Graciliano Ramos constitue um caso de trajetória ideal típica, na qual seu esforço de se tonar escritor revela história de uma estratégia comum, de pessoas ligadas a um agrupamento social com traços relativamente bem definidos. A história desse agrupamento precisa ser descrita.  E nela a  estratégia encontrada por integrantes de setores decadentes de uma antiga oligarquia interiorana brasileira para preservar certo prestígio,  não mais o econômico, pode ser chave para o entendimento de processos sociais de nossa vida literária. Como entra em cena o prestígio cultural? Não seria através da apropriação (mais ou menos legítima) da cultura letrada, que alguns encontram maneira de preservar parte do prestígio ora perdido pela decadência econômica de suas famílias como na tese defendida por Sergio Miceli?  Uma explicação como essa, é claro, demanda nuances e podenrações do caso a caso. Mas o foco sociológico da desmistificação do escritor dá ensejo as perguntas espinhosas que o trabalho de tese pôs em evidência, criando caminho movediço para delicada questão de entender como o romance de 30 foi possível no Brasil. Escritores oriundos da periferia de produção intelectual, todos eles produzindo romances e estabelecendo um novo patamar de qualidade literária: como explicar isso? Por que o romance e não outra forma de expressão intelectual e artística? Por que o realismo como pano de fundo estilístico?

O estudo das trajetórias particulares ensinam que a biografia dos autores tem muito a dizer sobre suas escolhas e os caminhos percorridos, porque todos eles estão socialmente condicionados. Um escritor como Graciliano Ramos, apesar de tudo que se disse sobre a desconfiança que ele mesmo nutria no valor de sua obra, tinha plena consciência que o Rio de Janeiro era o lugar de legitimação de seus escritos.  É preciso estudar o que esconde essa consciência e o que daquele esforço pessoal e coletivo  produziu de fato a legitimação de Graciliano no cenário literário brasileiro. O que revela a relação ambígua de amor e rejeição do Velho Graça à sua terra de origem? Amava-a ao ponto de torná-la objeto de seus escritos. E a odiava ao ponto de várias vezes se perguntar, e isso é o que importava para ele, “para quem escreveria estando lá?”.  O Rio de Janeiro, e os escritores sabiam disso, era o lugar onde se produzia o universal-brasileiro em matéria de literatura. Não por acaso encontramos no IEB (Instituto de Estudos Brasileiros na USP) recortes de jornais feitos por Graciliano Ramos sobre tudo que havia sido escrito sobre seus romances recém publicados.

Minha tese não tratou diretamente desses problemas macro-sociológicos que são consequëncias lógicas das questões mais miúdas nela trabalhadas. Ela lida, é bem verdade, de maneira localizada com a ideia de classes sociais. O fato é que o problema refratário da tese é o seguinte: como Graciliano Ramos, nascido e criado no interior de Alagoas, conseguiu entrar no pantheon dos escritores consagrados do Brasil no século XX? Foi a essa pergunta ao mesmo tempo simples e ambiciosa que meu tratrabalho conseguiu formular de maneira sociologicamente satisfatória. A pergunta é sociológica porque se refere aos obstáculos e caminhos concretos da consagração do autor que, quando descritos, obstáculos e caminhos percorridos, revelam os artifícios sociais que são ocultados na celebração posterior a consagração. Dessa forma, decorre do trabalho realizado um outro a ser ainda elaborado: discorrer através de material adequado, possivelmente as cartas pessoais entre Graciliano Ramos e seus amigos de geração (Zé Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Jorge Amado, etc.), sobre as estratégias do jovem Graciliano para entrar no círculo de produção literária carioca da época. É esse o caminho que pretendo a partir de agora seguir. A caçada aos documentos continua. No link a seguir disponibilizo a minha tese para quem tiver interesse: graciliano_diagramacao_8[1]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s