Reflexões sociológico pessoais sobre o intelectual e o político

 No dia 4 de dezembro de 2010 li uma interessante entrevista feita por Idelber com o professor Carlos Eduardo Rebello sobre a vida de Leon Trotski. Vou partir dela neste post para pensar um pouco sobre as relações tensas existentes entre o intelectual e o político. Acho que  pude eu mesmo vivenciar brevemente algumas dessas tensões nas características que tentarei descrever aqui.

 Um dos pontos mais interessantes da entrevista para mim discorreu sobre a relação entre a qualidade intelectual de Trotski e sua fragilidade na ação política concreta. Logo na primeira pergunta Idelber indagou o seguinte:

 

Quem leu León Trotski, mesmo em tradução, não costuma discordar: entre as figuras políticas do marxismo do século XX, foi o maior escritor e o mais poderoso no manejo da retórica. Ao mesmo tempo, foi o mais inapelavelmente derrotado na política na última década e meia da vida. Fale um pouco, por favor, dessas e de outras singularidades de Trotski. 

 

A resposta do professor Rebello foi muito instrutiva:

 

“Acredito que o paradoxo maior da carreira de Trotski está nele ter sido, na definição gramsciana da palavra, acima de tudo um intelectual, alguém que a partir de determinadas premissas, foi capaz de desdobrar sua concepção de mundo até as suas últimas conseqüências lógicas. No entanto, havia um lado do intelectual Trotski que nada tinha de gramsciano: sua indiferença freqüente ao seu papel “orgânico”, prático, de adequar esta visão geral de mundo às tarefas concretas do momento. Exatamente por isso, o ponto de inflexão da carreira política de Trotski esteve na sua relação com Lenin que, por mais que fosse um escritor pedestre e até mesmo um filósofo “vulgar”, no dizer de Zizek, foi capaz precisamente daquilo que Trotski sempre teve a maior dificuldade: adequar as suas posições políticas às tarefas práticas do momento. Trotski, mais de uma década antes de Lenin, já havia intuído o caráter socialista da Revolução Russa, ao qual Lenin só aderiu em 1917, no discurso da Estação Finlândia; mas o mérito de Lenin foi o de só sustentar esta posição publicamente quando percebeu a possibilidade de formar um consenso em torno dela. Trotski só foi capaz de funcionar como político prático enquanto em associação com Lenin. Quando Lenin esteve hostil – antes de 1917 – assim como depois da sua morte, Trotski exerceu um papel importante como visionário, como alguém capaz de perceber desenvolvimentos futuros, mas ao preço de sua incapacidade de agir de forma efetiva no momento presente.” (Meus itálicos)

O lastro sociológico que explica o paradoxo pode ser medido, na resposta, pela distância concreta existente entre o ideal abstrato contido na ideia gramsciana de intelectual orgânico e a sua possibilidade concreta de efetivação no mundo moderno, por Leon Trotski. Em outras palavras a distância real existente entre um homem que, como Trotski era capaz de “desdobrar sua concepção de mundo até as suas últimas conseqüências lógicas” e um homem que, como Lenin, era capaz de “adequar as suas posições políticas às tarefas práticas do momento.” Em que sentido é socialmente observável a incompatibilidade entre a precisão intelectual e o desempenho da ação política? 

Problematizando ainda de outra forma: pode um intelectual manter a integridade de seu ofício ao mesmo tempo em que desempenha um papel político importante? Ou ainda em outras palavras, pode ele, nesse mundo no qual o processo de especialização e de interdependência dele decorrente, detectado de diferentes maneiras pelas mentes mais poderosas que deram chão às ciências sociais ( Weber, Marx e Durkheim), pode o intelectual nesse mundo de imensa demanda de investimento temporal para a excelência nas diversas áreas de atuação na vida social, associar de maneira satisfatória atividades com características sociais tão dissonantes? A resposta baseada no exemplo histórico de Trotski mostra a dificuldade e complexidade do problema. Enquanto estava próximo de Lenin, foi uma coisa. Distante dele, outra.

Em uma sociologia atenta às lógicas práticas de construção do pensamento e da atividade política, o desmembramento das duas atividades parece impulsionar uma incompatibilidade histórica e prática intransponível entre as duas práticas: o tempo da experiência consequente do pensar a política (no modus operandi acadêmico) e o tempo da experiência concreta da vida política não são ajustáveis, visto que as exigências e os critérios de “qualidade” e “sucesso” de uma e outra atividades parecem ser excludentes entre si, principalmente no que diz respeito a temporalidade em que cada atividade se conduz.

De um lado, tem-se a urgência do cotidiano político, com sua atualização quase que imediata e continua. Urgência constante que  produz uma excelência baseada em critérios específicos atrelados ao próprio dia a dia da política, como é a capacidade de respostas instantâneas às novas situações de várias ordens. De outro lado, vemos o labor da resposta intelectual e sua demanda por uma temporalidade refletida(modus operandi atrelado à lógica formal), o tempo para reflexão ( é o tempo de descrições, análises, interpretações), que dão à avaliação intelectualizada seu mérito específico que nos diz  reipeito à clareza, à inteligibilidade, etc.  Ora, com essas características vamos encontrar quase sempre, daquele primeiro lado, a reação: olha… “as urgências aqui são outras”. 

Apesar disso, não deixa de ser interessante perceber que essas contradições encontram exemplos históricos de tensão onde os extremos dessas polaridades práticas (temporalmente incompatíveis) se encontram e tentam se ajustar de maneira mais ou menos convincente. Alguns casos que me vêm à cabeça no Brasil, como o de Florestan Fernandes em seu mandato parlamentar na década de 80, ou ainda, o exemplo do próprio Fernando Henrique Cardoso, com o famoso “esqueçam o que escrevi” são emblemáticos dessa tênue contradição. Na França, acompanhei de perto um caso muito interessante que foi o do engajamento político de Pierre Bourdieu no final de sua vida. Lendo a despedida de Jean-Claude Passeron depois da morte de Bourdieu tomei melhor consciência das implicações concretas e dos ricos que se corre ao topar a politização do intelecto ou, como do contrário, a intelectualização da política. Nos dois extremos, a derrota das partes parece estar garantida. Vale a leitura!

Vejo o seguinte, porém, nesses casos concretos, apesar de não existir uma conformação lógica das experiências de cada um (nenhum dos exemplos citados é extensível aos outros): pode-se observar os atritos gerados pelas expectativas solicitadas pelas “demandas específicas” de cada atividade, e delas solicitar lições. E é justamente isso que julgo intrigante e interessante como analista.

Na minha breve incursão na vida política local, sendo sociólogo de formação e querendo contribuir na construção de um projeto político para o PT de Pernambuco (que a meu entender precisa de renovação não só nos quadros, mas programática) percebi que essas tensões apareceram em muitas ocasiões. A meu ver, a incompatibilidade atinge de maneira mais forte aos que não percebem que os ajustes entre as demandas específicas de cada atividade devem ser feitos por quem muda de registro(do acadêmico para o político, por exemplo), mas que não há necessariamente incompatibilidade entre a inteligência intelectual (operacionalizada no debate político) e a atividade política propriamente dita (matizada pelo trabalho intelectual anterior, mas alterando-se seu objeto central que não mais pode ser o procedimento reflexivo nos moldes acadêmicos de antes). Essa transição não é fácil de ser feita e demanda uma certa conversão consentida, não só da parte de quem se propõe a tal mudança. No exemplo de Florestan Fernandes essa passagem se dá aparentemente pelo descrédito e a desilusão do autor de A revolução burguesa no Brasil com o que ele chamava de burocratização das universidades brasileiras (ver Freitag, aqui). Na sua vida de parlamentar, seu capital acadêmico se converteu em certa medida em político, sem necessariamente se dissolver completamente. O reconhecimento coletivo de seu mérito intelectual converteu seu mérito acadêmico em moeda política, isso, porém, ao custo da desilusão pessoal de Florestan em relação à universidade brasileira. São coisas que digo, claro, que precisariam de mais embasamento histórico da trajetória parlamentar do próprio Florestan. Mas considerando o que a Freitag diz a esse respeito:

Em sua terceira fase de produção (já como membro do PT e da Câmara) Fernandes nunca mais voltaria a trabalhar numa instituição de ensino superior. Em conversas e cartas exprimia seu desprezo pela burocratização da universidade e pelo carreirismo egocêntrico da maioria dos professores e pesquisadores, que repassavam essas atitudes às novas gerações de universitários. Os anos em que acreditara poder mudar a sociedade brasileira a partir de um conhecimento científico profundo da realidade com auxílio da ciência, da educação e do planejamento (categorias emprestadas à Mannheim) estavam perdidos para sempre. 

E  palavras como a do próprio Florestan sobre sua atividade parlamentar:

[Na Câmara] pude ver como atuam as elites econômicas, as elites culturais e as elites jurídicas, as elites militares, deputados e senadores predominantemente escolhidos dentro desses setores. Então pude conhecer melhor a sociedade brasileira, principalmente os processos pelos quais a concentração do poder, a concentração da riqueza e da cultura são mantidos de uma maneira ferrenha […]  

Poderíamos nos perguntar: como sociólogo, não teria ele visto já essas coisas? Mas de que forma pôde ele ver como parlamentar? São esses ajustes “desteorizantes”  que estão em questão e que operam, a meu ver, aquilo que pode-se chamar de conversão.

 Resta saber se existe real conversão sem tamanha desilusão…

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