Jabá de duas teses das mais queridas da minha tese…

A melhor tese que li sobre Graciliano Ramos para fazer meu doutorado foi a de IEDA_LEBENSZTAYN, defendida em 2009, no Departamento de Letras Clássicas da USP.  Apesar de meu foco crítico, dado pela minha versão sociológica dos fatos, alterar em pontos cruciais a minha relação com o texto de Graciliano Ramos se comparado com a dela, lamentei e muito ter tido conhecimento tardio do trabalho excelente da pesquisadora e crítica. Tenho certeza que eu poderia ter dado mais refinamento aos meus argumentos se apoiados nas informações e análises críticas da tese em questão.

Diria que a pesquisa dela me fascina por várias razões. Seria suficiente elencar apenas às mais caras ao sociólogo da literatura, tais quais as informações sobre opiniões de um grupo de  jovens que despontava então para vida intelectual da época tendo que enfrentar situações específicas de seu meio. Ora, minha pesquisa sobre Graciliano Ramos me levou a me perguntar sobre a época de fomação do menino Graciliano (conhecida muita vezes apenas pelos próprios relatos autobiográficos do autor), sobre como aprendeu seu metier, de onde vinham e como se constituíram, para falar no jargão atual da sociologia, as modalidades de excelência do seu exercício literário? Sem isso, como poderíamos entender a ligação entre o processo de legitimação e consagração de sua obra e o próprio projeto estético-literário engajado contido em seus escritos? A tese de Ieda Lebensztayn nos dá mais dos que pistas sobre essas questões.

É interessante perceber que parte do material que serve de base para o roteiro interpretativo da tese são os textos críticos da revista Novidade. O lado interessante, se comparado à análise sociológica que fiz, é que a consequência da análise crítica, mesmo que centrada no texto crítico, é uma desconstrução de uma grande narrativa a respeito da classificação do chamado Romance do Nordeste . Comumente classificados como modernistas de segunda geração(Bosi, por exemplo) muitas vezes sem ter tido nenhum contato direto com os artífices da semana de 22, os romancistas do nordeste, notadamente Graciliano Ramos e José Lins, para falar de dois entre os mais conhecidos, aparecem no trabalho de Ieda como parte de um grupo que, a meu ver, “explica mais e melhor”, através da narrativa miúda criada pela análise dos textos da Novidade, do que as classificações históricas precedentes, muito abstratas e genéricas. Isso é mérito de uma crítica preocupada com uma leitura realmente contextualizada da produção literária da época. Na minha opinião, o trabalho sociológico deve atingir um efeito de contextualização semelhante partido das premissas sociológicas que analisam as conexões entre condições materiais e simbólicas de produção de textos literários e a feitura mesma desses textos. Em seguida é possível vislumbrar a análise de seus significados, através das análises das disputas simbólicas que transparecem nos esforços de legitimação e classificação dessas obras, trabalho que me dispus a fazer com muita dificuldade em minha tese, em parte por não dispor desse material. Nesse sentido, vale muito a pena ler a descrição fascinante da pesquisadora da insistência que ela teve que ter, não só para encontrar o material, mas para ter acesso a ele. Nas páginas 9, 10, e 11 do PDF que linquei para vocês lá em cima, é possível ler, por exemplo, como o “nehumha Novidade”, reposta que recebeu da secretária do arquivo onde parecia se encontrar os números da revista, torna-se uma ironia fina da condição de pesquisador, pois é sabida a dificuldade que se tem em nossos arquivos de se localizar e de se identificar documentos raros como este.

Além do trabalho de Lebensztayn, aos interessandos na relação entre sociedade e culutura intelectual-acadêmica, saindo um pouco da literatura, mas nem tanto, recomendaria o também excelente Entre Sociólogos de Carolina Pulici, publicado pela Edusp. Livro instigante que faz excelente escolha documental para tratar as relações de conflito entre os membros das cadeiras de Sociologia I e os da de Sociologia II na USP entre os anos 1950-1960. Se o que é fazer sociologia  no Brasil era uma pergunta a partir da qual se pressupunha que hegemonia uspiana precisava ser inquerida nos seus pormenores, uma pergunta que, por isso, exigia definições a respeito do que é fazer “sociologia uspiana”, taí um livro com bastante elementos para reflexão.

Bem, acabo aqui meu Jabá dos mais queridos da minha tese…

Atualização 29/12/ 2010: complemento do jabá, informação saída do forno, já aparece na internet a publicação da tese Ieda Lenbensztayn, aqui ó. Tá lá, bonitinho para quem quiser comprar.

P.S:  Alguns amigos me perguntaram porque meu elogio ao livro de Pulici se o link leva para uma resenha severa do Rodrigo Ramassote sobre as principais teses do livro. Eu sinceramente acho que apesar de pecar por um certo esquematismo ao se apropiar das ferramentas da sociologia bourdieusiana, o tipo de documentação utlizado por ela, traz uma luz toda especial aos aspectos mais concretos da dinâmica de disputa no interior de um grupo considerado homogênio. É claro que as perguntas do Ramassote são cortantes: o que há de novo no que ela diz? O autocentramento uspiano já não rendundou (com as análises do Luiz Carlos Jakcson, de Maria Arminda etc.) na explicitação dessas diferenças entre Florestan e Candido, por exemplo?  Bem, eu acho que essa redundancia ainda não alcançou o teor de reflexividade capaz de dar conta das principais contradições da produção uspiana. Termina sendo algo muito autocelebratório. E acho que esforço de Pulici ajuda a perceber isso. Eu considero que o material que ela utiliza desmembra alguns não ditos, e digo isso apesar de concordar com a existência das semelhanças que o Ramassote descreve tão bem no mestrado dele quando compara as estratégias institucionais de Candido e Florestan. O difícil aí é conciliar a atividade analítica e potencial interpretativo dessas semelhanças e diferenças, situando, por exemplo, a posição de conflito e cooperação dentro da história dessas figuras na instituição. Sim, essas duas coisas podem coexistir, mas a celebração futura, contemplada pelas diversas análises atuais da sociologia do passado, ao buscar  explicação para si mesma, deveria ser capaz de entender que a usp que estuda a usp produz um discurso de emulação institucional. Eu acho que o texto dela, apesar de fazer o mesmo, aponta, por conta do material utulizado para análise, para um questionamento sobre isso. Bem, não sei se me faço entender porque gosto do texto dela, mas tentei me fazer mais claro.

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