Comentário sobre a “verdadeira” oposição

O cenário político pernambucano é lastimável. E a verdadeira medida disso está na péssima qualidade da oposição. Pode-se medir isso que digo pela tentativa de tirar proveito das querelas internas do PT, feita pelo deputado Raul Junlgmann, do PPS, ver aqui. Falta foco político. O que vale para esquerda, se perder o prumo, vale mais ainda para direita. Junlgmann menospreza a inteligência das pessoas ao insinuar que tudo na política é e deve ser transparente e que os oponentes tem que tonar pública a razão de ser de suas disputas. Esquece que o povo sabe que na política existe o “jogo político” e que nem tudo é dito, por questões de estratégia de manutenção de poder, ou de sua conquista. Eis uma posição vazia de significado político porque todos sabem que se tudo estivesse à mostra,  não existiria a necessidade do fazer política. Em outras palavras, se ele mesmo não inventar um Wikileaks dos bastidores da política, esse tipo de reação não causará efeito algum.  Só expõe, como bem disse de outra forma Marisa Gibson, a lentidão da oposição para se arrumar diante de uma conjuntura na qual, segundo a colunista, não há espaço para palanques separados.

Blogue do Jampa e política

Esse blogue não é político. Quem se aventura a ler os posts precendentes percebe que poucas foram as vezes que me arrisquei a opinar em questões das disputas internas do PT.  No twitter meu perfil já tem sido outro, minhas tuitadas são quase sempre tomadas de posição contundentes. Hoje, mais uma delas repercutiu num blogue de política local, aqui. Reproduzo a seguir minha resposta:

Caro Josué Nogueira,

Entendo que possa ler a reação lá no twitter como uma “mágoa dos aliados do ex- prefeito”. Contudo, a avaliação que é feita tem conteúdo político.  Você tem um nome dentro do partido responsável pela maior parte das importantes vitórias eleitorais, e que vem sendo tratado com muito desrespeito.
Você tem um prefeito que fala besteiras (tá tudo registrado, não é opinião) a respeito das finanças do governo que ele mesmo fazia parte, e alguém que, como representante desse projeto, defendeu-se publicamente, o deputado João Paulo. E ai o cara vem com essa balela de que o ex-prefeito tava querendo continuar na prefeitura, um discurso extremamente fácil porque não é passível de comprovação…
O embate político tem sido de baixíssimo nível. E quem perde mais é o partido que cambaleia no poder(com a barganha de cargos) e se desliga do foco político do projeto ora vitorioso eleitoralmente. É sempre bom não esquecer que o poder é mais transitório do que a política. É um ponto de vista político, menos emotivo do que parece ser.
Saudação,
Jampa. ”

Dito isso, diria que esse blogue continuará com o mesmo enfoque de antes. Mas vai ao poucos dar mais ênfase ao que há de político na política.

Primeiras impressões do #tuiteira

@ despretensão é uma dádiva literária. Proponho que essa frase seja dita por ela, a protagonista, em algum lugar do livro numa futura reedição.  Queria colocar essas palavras na boca da tuiteira viciada em tantas coisas, porque para mim elas sintetizam o monólogo polifônico que é narrado em primeiríssima pessoa por @MariaLúcia. Será que ela aparece assim na minha time line?

@ Sobre a forma fragmentada que o diálogo interno toma no romance – a pretensão aqui é por minha conta, não pela quase falta dela no autor-, com a separação de parágrafos marcada pelo síbolodo do @, eu diria que é uma solução sutil que o desdobramento cabe ao leitor fazer. Então eu faço assim o meu:

@  habituado ao Twitter e toda a sua fragmentação sincrônica contida em mensagens que se sobrepõem umas às outras, o leitor percebe ao se projetar na formatação do texto -através da leitura do romance- o quanto a vida del@ pode ser um escorrer para baixo existencial no infinito que é o tuitaço.   Mais uma vez: cabe ao leitor não querer adequar meu despropósito(de crítico) ao mérito (do autor).

@ Então que danem-se as alusões a uma literatura desleixada, típicas da chamada Geração Beat , porque elas não camuflam o novelo próprio que performa bem, a meu ver, as ambivalências positivas e negativas (quase nunca julgadas moralmente na narrativa) da personagem.

@Estou lendo e por essas razões simples já estou gostando. Já valeu os trinta contos. Mas deveria lê-lo depois de umas tragadas de Orloff ou de ter lido uma tirada do Charles Bukovski. Com a vista embaçada poderia ter lido palvras despretenciosas sem dar a atenção séria que sempre dou as coisas lidas. Sem vodka, tendo também eu a concordar com @hapias: “a vida é a espera da morte. Ou do fim de semana. O que chegar primeiro.”  Dizem que o sociólogo vê recorrência em tudo. Quantos fins de semana já vivi?  Mas como não perceber que sem a repetição o novo não exite? Lula Falcão escreveu um pequeno Ereções, ejaculações e exibicionismos da era do Twitter. E @MariaLúcia ele deu a vida virtual para que pudessemos aproveitar da gordura salutar do seu sangue saturado de álcool e outras coisitas más!

#tuiteira… de Lula Falcão

Ontém foi o lançamento do livro Todo dia me atiro do térreo. Ou, mais simplesmente #tuiteira. Estou lendo o dito cujo e em breve volto aqui para fazer alguns comentários. Dedicarei as boas impressões @lulafalcão, as más @jampa2010, porque já é 2011 e o rapaz  já poderia perder o vínculo com um ano passado… bora Jampa, muda aquele troço rapá!

Nota de Esclarecimento

Veja, na íntegra, a nota de esclarecimento do ex-prefeito e deputado federal, João Paulo, sobre as últimas declarações do atual prefeito relacionadas às finanças da Prefeitura do Recife.

Nota de Esclarecimento

Ciente das suas responsabilidades perante a população, a administração dos recursos públicos e em defesa do aprovado trabalho realizado nos oitos anos em que esteve à frente do executivo municipal. E ainda conforme os Balanços Contábil e Financeiro Consolidado da Prefeitura do Recife do ano de 2008, assinados pelo atual prefeito, em 9 de fevereiro de 2009, e publicados no Diario Oficial do município, o ex-prefeito do Recife e deputado federal, João Paulo (PT), considera oportuno esclarecer:   

1 – O saldo financeiro em caixa em 2008 para o ano seguinte foi de R$ 233.423.716,39 e não de R$ 10 milhões, como disse o atual prefeito em entrevista ao jornal Folha de Pernambuco, na edição deste domingo (16).

2 – No Relatório de Gestão Fiscal  de 2008,  o demonstrativo dos  Restos a Pagar correspondeu a R$ 78.554. 679,17 e não R$ 110 milhões, como também afirmou o atual prefeito.

3 – No final de 2008, a Prefeitura do Recife não só  cumpriu com todos os indicadores da Lei de Responsabilidade Fiscal como manteve atualizadas as Certidões Negativas, o que  viabilizou o recebimento dos recursos previstos no PAC Federal,  da ordem de R$ 1 bilhão, que deverão ser executados pela atual gestão.   

4 – Para dar continuidade às obras do Parque Dona Lindu e de outros equipamentos, havia, no orçamento 2009, recursos da ordem de R$ 58.977.000,00, disponíveis por meio do Programa Requalificação de Espaços de Interesse Público.

 5 – Todas essas informações estão disponíveis no site oficial da Prefeitura do Recife, no item contas públicas:   www.recife.pe.gov.br

O ex-prefeito João Paulo ressalta que “por todo esse trabalho, que teve como diretriz central o cuidado com as pessoas, a sua administração conquistou 88% de aprovação da população e foi possível fazer o sucessor no primeiro turno, apresentando o melhor resultado do Partido dos Trabalhadores entre as capitais no Brasil”.

Recife, 17/01/2011

Atenciosamente,

Assessoria de Imprensa do Deputado Federal João Paulo.

Um sociólogo e a música clássica: de quem é a alta cultura?

A sociologia é uma ciência estranha. Quando começei a esdudá-la não imaginava que através dela fosse possível fazer exercícios de reflexão a respeito da vida cotidiana. Ela era apresentada como uma disciplina abstrata, prolixa e teórica. Hoje em dia, deformação ou formação de meu percurso, já não me é mais possível entender as coisas que me cercam sem um auxílio das ferramentas da bizarra ciência do social, que observa a realidade, decifra códigos culturais, identifica elementos de classe inteligindo suas lógicas de funcionamento…  O engraçado nisso é quando me pego tentando refletir sobre minha própria relação com a cultura e com a  sociologia, meu meio de acesso à dita “alta cultura” intelectualizada.

Lembro, para ilustrar essa relação intrigante, de uma conversa muito interessante que tive com um amigo músico. Falavamos sobre um encontro que eu tive, quase que sem querer, com um famoso maestro brasileiro ocasionado por um convite de meu pai.

 Vejam como é engraçada a expectativa criada na cabeça das pessoas. É incrível como muito da vida social funciona assim, através dessas expectativas imaginadas. As pessoas imaginam essas coisas que um “intelectual”  deve saber e daí inferem outras tantas de uma suposta extraordinária sapiência alheia.  Meu pai me convidara para um jantar com o amigo maestro porque, como eu havia estudado na França, eu teria, como não poderia ter?, afinidades culturais com o famoso regente brasileiro. Na verdade, sem a nuvem da expectativa do que suspostamente eu sei da cultura francesa(que com certeza não se confunde nem em uma redução mais caricatural necessariamente com um profundo conhecimento do tratamento dado aos vinhos e tipos de uvas), eu diria que até meu conhecimento pífio sobre o protocolo ao redor do tema vinho poderia ser motivo de constragimento não fosse a relação entre os dois, meu pai e maestro, amistosa e regida por outras lógicas hierarquicas que não apenas as que dicotomizam o popular e o erudito. Uma boa pegunta seja talvez a que questione quais seriam os não ditos daquela situação que revelam algo sobre relações culturais mais amplas?

Concretamente, se apagamos os não ditos contidos no “eu sei que você sabe”, para mim, oriundo de cultura popular, com minha educação musical restrita aos encontros fortuitos da vida, ao funk importado do rio de janeiro, ao rock dos anos 80, à MPB, ao MangueBeat, bem,vocês já entederam: para mim o famoso maestro era o inconfundível  ” o famoso quem?” Então, a verdade é que o jantar para esse erudito da música  que aqui vos escreve,  só poderia se tornar uma ocasião a mais para pensar sobre as relações complexas e imbricadas entre a cultura dita erudita e as que não são vistas nessa classificação.

Durante o jantar, eu lembrava de um mestrado de uma colega de curso lá em Lyon, que fez um intrigante e inteligente trabalho sobre as estratégias discursivas de profissionais que trabalham com artes plásticas em museus. Elaborando uma ferramenta metodológica pouco usual, a socióloga em pleno exercício de suas faculdades analíticas, levava catálogos com fotos de quadros famosos para curadores dos principais museus da região, e gravava a reação deles, seus vacilos, seus artifícios retóricos, etc. e analisava, em seguida, o que ela chamou de “saberes tácitos”: tudo aquilo que aqueles indivíduos pensavam que deviam saber e que por alguma razão ou haviam esquecido ou não sabiam. Muito interressante! Porque dalí decorre uma verdadeira análise sociológica do contorcionismo intelectual para esconder uma ignorância. O que é muito sintomático das expectativas latentes, recíprocas e funcionais que operam nesses universos profissionais analisados por ela. E não só neles, imaginem que em certos departamentos de ciências sociais, os alunos não se sentem autorizados a se introduzir na pesquisa empirica porque não conhecem “toda a teoria sociológica clássica”. Quantos não ditos institucionais dos sábios da sociologia teórica não estão aí a inibir a sociologia de se realizar em seus aspectos mais elementares em nome de um visão normativa do que seria uma persquisa empirica de qualidade?

Volto à conversa com meu amigo músico. Ele me falava sobre seu cotidiano:  ” Estou na guerra diária, dando concerto um atrás do outro e ganhando quase nada por isso, terminando uma série, dando aulas e tentando terminar uns projetos […] estudando para melhorar no violão, e pagando caro para ter aulas.” Ele ainda dizia em um momento: “é uma vida difícil, porque tudo leva dinheiro, pagar direitos autorais, por exemplo, o do Vila, é uma fortuna. Ainda tem pagar estudio, técnico, equipe, além de ensaiar, produzir, dirigir, tocar.”

Bem, a realidade social da “cultura erudita” de meu amigo não é definitivamente a mesma da “cultura erudita” do maestro do meu jantar. E no meu impressionismo sociológico tirado de minha conversa informal deduzi algumas propriedades sociais do desconhecido: – rapaz, o maestro parecia bem de vida, viu? Mas acho que ele deve ter vindo de família rica.

Eu dizia isso por conta da observação que fiz de seu comportamento no restaurante. A naturalidade com a qual discorria sobre certos temas, a maneira de se comportar à mesa no restaurante, nada conotava artificialidade, tudo parecia um prolongamento natural de seus atos, coisa que só alguém extremamente familiarizado com esse universo consegue fazer sem dificuldade, sem transparecer esforço. Na linguagem corrente falaríamos de sua elegância, diriamos que não parecia “um novo rico”.

Vejam, não quero produzir aqui nenhuma impressão de determinismo social. É claro que existem variáveis que podem levar um transfuga social a se elevar, pela cultura dita erudita, a um patamar de reconhecimento e sucesso social atribuídos pelo trabalho e talento propriamente musicais por ele adquiridos no percorrer de sua vida e formação. Eu, por exemplo, torço muito para que esse meu amigo de origem similar a minha consiga encontrar seu espaço nesse difícil universo. E no cerne de minha ignorância musical, acho que ele tem tudo para conseguir. O que tento destacar, porém, é que não é desprezível a informação segundo a qual ele terá de enfrentar, além das próprias dificuldades específicas do apredizado do seu metier, os obstáculos sociais oriundos de uma completa falta de contato familiar com os padões culturais de elite que são o chão da chamada cultura erudita ou clássica. Para chegar no campo de dificuldades que agora ele encontra, ele já deve ter vencido muitas outras dificuldades da ordem do “quem-tem-o-direito- e- as- qualidades- para- se- apropriar- do- legado- da- cultura- clássica” que torna o seu esforço de reconhecimento um enterno conflito de auto-afimação. A admiração de meu amigo para com o maestro e a sua vontade de mostrar o tamanho de minha ignorância são também sintomas sociais interessantes: “Jampa, você jantou com o João Gilberto do meio clássico não só no Brasil.” João Gilberto é o termo  da comparação necessária para eu entender o grau de minha incultura. Como todo sociólogo tem que ter noção de proporção, avaliei que eu estava num estágio bem inferior ao que eu mesmo imaginava. Só estaria pior se não conhecesse João Gilberto e o que ele representa para música brasileira. Mas, não sendo esse o caso, ele continuou: ” ele é um dos maiores regentes da história do Brasil do século XX para cá. Ele é regente titular e diretor artístico da Petrobrás Sinfônica etc.”  Quanto desconhecimento o meu! É verdade.

Volto ao jantar só para aguçar o senso de tensão. Lembro do regente dizendo que iria votar na Dilma. A razão? Ele conta que num encontro com a então ministra ela disse que gostaria de ouvir dele uma tal de Missa em Si Menor de J.S. Bach.  É engraçado, pensei, ouvir uma justificativa de voto dessas em plena era Lula. O maestro ainda completou: uma presidenta que sabe pedir isso, já vale pelo Brasil…

Por trás da cultura clássica e erudita, a realidade pode até escamotear, pela habilidade real de um músico de excelência, aquilo que a erudição diz da ignorância alheia. Pobre coitado que não conhece esse pedaço nobre da cultura humana. Seguro de minha sociologia mundana, quase alheia à alta cultura, reconheço minha ignorância, mas através dela não temo o pedantismo elitista de quem se faz importante desconhecendo a força da cultura marginal, nesse sentido, sempre crítica, mesmo quando pré-reflexiva. A sociologia da cultura deve assim, mesmo que de maneira blogueira, voltar-se contra os elementos elitistas contidos não na cultura clássica, o que seria um erro, mas nas posturas normatizantes expostas na arrogância do status quo da cultura erudita.