Um sociólogo e a música clássica: de quem é a alta cultura?

A sociologia é uma ciência estranha. Quando começei a esdudá-la não imaginava que através dela fosse possível fazer exercícios de reflexão a respeito da vida cotidiana. Ela era apresentada como uma disciplina abstrata, prolixa e teórica. Hoje em dia, deformação ou formação de meu percurso, já não me é mais possível entender as coisas que me cercam sem um auxílio das ferramentas da bizarra ciência do social, que observa a realidade, decifra códigos culturais, identifica elementos de classe inteligindo suas lógicas de funcionamento…  O engraçado nisso é quando me pego tentando refletir sobre minha própria relação com a cultura e com a  sociologia, meu meio de acesso à dita “alta cultura” intelectualizada.

Lembro, para ilustrar essa relação intrigante, de uma conversa muito interessante que tive com um amigo músico. Falavamos sobre um encontro que eu tive, quase que sem querer, com um famoso maestro brasileiro ocasionado por um convite de meu pai.

 Vejam como é engraçada a expectativa criada na cabeça das pessoas. É incrível como muito da vida social funciona assim, através dessas expectativas imaginadas. As pessoas imaginam essas coisas que um “intelectual”  deve saber e daí inferem outras tantas de uma suposta extraordinária sapiência alheia.  Meu pai me convidara para um jantar com o amigo maestro porque, como eu havia estudado na França, eu teria, como não poderia ter?, afinidades culturais com o famoso regente brasileiro. Na verdade, sem a nuvem da expectativa do que suspostamente eu sei da cultura francesa(que com certeza não se confunde nem em uma redução mais caricatural necessariamente com um profundo conhecimento do tratamento dado aos vinhos e tipos de uvas), eu diria que até meu conhecimento pífio sobre o protocolo ao redor do tema vinho poderia ser motivo de constragimento não fosse a relação entre os dois, meu pai e maestro, amistosa e regida por outras lógicas hierarquicas que não apenas as que dicotomizam o popular e o erudito. Uma boa pegunta seja talvez a que questione quais seriam os não ditos daquela situação que revelam algo sobre relações culturais mais amplas?

Concretamente, se apagamos os não ditos contidos no “eu sei que você sabe”, para mim, oriundo de cultura popular, com minha educação musical restrita aos encontros fortuitos da vida, ao funk importado do rio de janeiro, ao rock dos anos 80, à MPB, ao MangueBeat, bem,vocês já entederam: para mim o famoso maestro era o inconfundível  ” o famoso quem?” Então, a verdade é que o jantar para esse erudito da música  que aqui vos escreve,  só poderia se tornar uma ocasião a mais para pensar sobre as relações complexas e imbricadas entre a cultura dita erudita e as que não são vistas nessa classificação.

Durante o jantar, eu lembrava de um mestrado de uma colega de curso lá em Lyon, que fez um intrigante e inteligente trabalho sobre as estratégias discursivas de profissionais que trabalham com artes plásticas em museus. Elaborando uma ferramenta metodológica pouco usual, a socióloga em pleno exercício de suas faculdades analíticas, levava catálogos com fotos de quadros famosos para curadores dos principais museus da região, e gravava a reação deles, seus vacilos, seus artifícios retóricos, etc. e analisava, em seguida, o que ela chamou de “saberes tácitos”: tudo aquilo que aqueles indivíduos pensavam que deviam saber e que por alguma razão ou haviam esquecido ou não sabiam. Muito interressante! Porque dalí decorre uma verdadeira análise sociológica do contorcionismo intelectual para esconder uma ignorância. O que é muito sintomático das expectativas latentes, recíprocas e funcionais que operam nesses universos profissionais analisados por ela. E não só neles, imaginem que em certos departamentos de ciências sociais, os alunos não se sentem autorizados a se introduzir na pesquisa empirica porque não conhecem “toda a teoria sociológica clássica”. Quantos não ditos institucionais dos sábios da sociologia teórica não estão aí a inibir a sociologia de se realizar em seus aspectos mais elementares em nome de um visão normativa do que seria uma persquisa empirica de qualidade?

Volto à conversa com meu amigo músico. Ele me falava sobre seu cotidiano:  ” Estou na guerra diária, dando concerto um atrás do outro e ganhando quase nada por isso, terminando uma série, dando aulas e tentando terminar uns projetos […] estudando para melhorar no violão, e pagando caro para ter aulas.” Ele ainda dizia em um momento: “é uma vida difícil, porque tudo leva dinheiro, pagar direitos autorais, por exemplo, o do Vila, é uma fortuna. Ainda tem pagar estudio, técnico, equipe, além de ensaiar, produzir, dirigir, tocar.”

Bem, a realidade social da “cultura erudita” de meu amigo não é definitivamente a mesma da “cultura erudita” do maestro do meu jantar. E no meu impressionismo sociológico tirado de minha conversa informal deduzi algumas propriedades sociais do desconhecido: – rapaz, o maestro parecia bem de vida, viu? Mas acho que ele deve ter vindo de família rica.

Eu dizia isso por conta da observação que fiz de seu comportamento no restaurante. A naturalidade com a qual discorria sobre certos temas, a maneira de se comportar à mesa no restaurante, nada conotava artificialidade, tudo parecia um prolongamento natural de seus atos, coisa que só alguém extremamente familiarizado com esse universo consegue fazer sem dificuldade, sem transparecer esforço. Na linguagem corrente falaríamos de sua elegância, diriamos que não parecia “um novo rico”.

Vejam, não quero produzir aqui nenhuma impressão de determinismo social. É claro que existem variáveis que podem levar um transfuga social a se elevar, pela cultura dita erudita, a um patamar de reconhecimento e sucesso social atribuídos pelo trabalho e talento propriamente musicais por ele adquiridos no percorrer de sua vida e formação. Eu, por exemplo, torço muito para que esse meu amigo de origem similar a minha consiga encontrar seu espaço nesse difícil universo. E no cerne de minha ignorância musical, acho que ele tem tudo para conseguir. O que tento destacar, porém, é que não é desprezível a informação segundo a qual ele terá de enfrentar, além das próprias dificuldades específicas do apredizado do seu metier, os obstáculos sociais oriundos de uma completa falta de contato familiar com os padões culturais de elite que são o chão da chamada cultura erudita ou clássica. Para chegar no campo de dificuldades que agora ele encontra, ele já deve ter vencido muitas outras dificuldades da ordem do “quem-tem-o-direito- e- as- qualidades- para- se- apropriar- do- legado- da- cultura- clássica” que torna o seu esforço de reconhecimento um enterno conflito de auto-afimação. A admiração de meu amigo para com o maestro e a sua vontade de mostrar o tamanho de minha ignorância são também sintomas sociais interessantes: “Jampa, você jantou com o João Gilberto do meio clássico não só no Brasil.” João Gilberto é o termo  da comparação necessária para eu entender o grau de minha incultura. Como todo sociólogo tem que ter noção de proporção, avaliei que eu estava num estágio bem inferior ao que eu mesmo imaginava. Só estaria pior se não conhecesse João Gilberto e o que ele representa para música brasileira. Mas, não sendo esse o caso, ele continuou: ” ele é um dos maiores regentes da história do Brasil do século XX para cá. Ele é regente titular e diretor artístico da Petrobrás Sinfônica etc.”  Quanto desconhecimento o meu! É verdade.

Volto ao jantar só para aguçar o senso de tensão. Lembro do regente dizendo que iria votar na Dilma. A razão? Ele conta que num encontro com a então ministra ela disse que gostaria de ouvir dele uma tal de Missa em Si Menor de J.S. Bach.  É engraçado, pensei, ouvir uma justificativa de voto dessas em plena era Lula. O maestro ainda completou: uma presidenta que sabe pedir isso, já vale pelo Brasil…

Por trás da cultura clássica e erudita, a realidade pode até escamotear, pela habilidade real de um músico de excelência, aquilo que a erudição diz da ignorância alheia. Pobre coitado que não conhece esse pedaço nobre da cultura humana. Seguro de minha sociologia mundana, quase alheia à alta cultura, reconheço minha ignorância, mas através dela não temo o pedantismo elitista de quem se faz importante desconhecendo a força da cultura marginal, nesse sentido, sempre crítica, mesmo quando pré-reflexiva. A sociologia da cultura deve assim, mesmo que de maneira blogueira, voltar-se contra os elementos elitistas contidos não na cultura clássica, o que seria um erro, mas nas posturas normatizantes expostas na arrogância do status quo da cultura erudita.

 

2 pensamentos sobre “Um sociólogo e a música clássica: de quem é a alta cultura?

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