Apresentação de minha defesa de doutorado (Excerto)

 Eu gostaria de começar essa apresentação agradecendo a presença de todos vocês. Dos integrantes da mesa, a professora dr. e minha orientadora Lília Junqueira, o professor dr. Sérgio Miceli, o professor dr. Alfredo Cesar, o professor dr. Luciano Oliveira e o professor dr. Paulo Marcondes, às pessoas do público, minha família e amigos e os demais que prestigiam essa defesa de doutorado.

 Leio esse texto que escrevi em momento de tranquilidade. Na verdade, era grande o meu medo de a emoção me impedir de fazer uma apresentação clara e inteligível. Por essa razão, decidi ler calmamente algo que traduzisse também meu receio, imaginando que a situação de avaliação poderia trazer à tona lembranças fortes de uma trajetória intelectual improvável, agora podendo ser inciciada, testada e avaliada diante dos trâmites oficiais da instituição universitária, sob o olhar rigoroso e crítico dos pares que formam esta banca. Gostaria de agradecer desde já a leitura antenta e cuidadosa que sei todos vocês fizeram do meu trabalho.

Não sei o quanto do meu nervosismo decorre de outro elemento. Do fato de eu ter consciência de haver na sociologia a qual pratiquei uma recusa à parte do mundo que escolhi para fazer parte. Para utilizar as palavras que Antonio Candido usou para falar da tese de Sérgio Miceli, a recusa em aceitar de maneira passiva fazer parte da “grande família dos intelectuais”. Tavez venha daí a sensação desconfortável de estar traindo a quem eu gostaria de ver reconhecendo a qualidade de meu trabalho. Na medida que, aqui e acolá, durante a feitura da tese, confrontava-me com questões descritivas como o que é que chamamos de sociologia da literatura, ou, de maneira mais geral, com pergutas do tipo o que é fazer sociologia, sem usar definições fixas nem de manuais, captando, porém, aquilo que a tradição considera como sociologia da literatura; ao usar também os preceitos da própria sociologia para confrontá-los aos procedimentos mais corriqueiros da crítica literária(tidos por muitos como única forma de fazer boa sociologia da literatura), foi ao me confrontar com tudo isso que ia percebendo com mais clareza que o que estava em jogo era mesmo a capacidade reflexiva da sociologia de se afirmar como disciplina científica. E a minha, é claro, de me afirmar como sociólogo da maneira que eu gostaria de ser visto e reconhecido.

 Dizer que os intelectuais, grupos do qual se subentente que o sociólogo faça parte, obedece as mesmas lógicas sociais de fucionamento que de outros agentes sociais, gera sempre desconforto a aqueles que, por uma ou outra razão, fizeram da atividade intelectual (que é sempre reificada e encantada pela ignorância que temos a respeito da sua condição social de produção) um recanto conformado e conformista, lugar em que o que se quer preservar é a posição social que é assegurada pelo próprio estatuto de intelectual. Meu desconforto era uma evidência de que tal lógica também estava presente comigo no decorrer de meu trabalho.

O mais importante do meu trabalho, porém, talvez esteja mesmo nas entrelinhas: falar de sociologia dos intelectuais é algo de fato muito genérico. Minha tese mostra que é preciso articular ferramentas de várias sociologias específicas, associar a sociologia da cultura e dos intelectuais, por exemplo, à sociologia do trabalho, através da ideia de condições de trabalho intelectual. Isso se quisermos de fato fazer uma sociologia da literatura e dos intelectuais que preze pela vida concretas desses agentes. Isso é necessário porque a categoria intelectual é tão ampla e abrangente que oculta nela os elementos sociais de identificação das formas de agir dos próprios intelectuais. Falar de Graciliano Ramos como escritor, o que diabos quer dizer isso? Como e de que vive um escritor? Eis pergunta que ajuda a materializar o intelectual e me levou a procurar responder muitas dúvidas a respeito da vida e da obra do Velho Graça. Na minha cabeça a sociologia tem um papel fundamental ao tentar responder esse tipo de questão, inclusive como forma de enquadramento do seu próprio potencial reflexivo. […]

Convite para bate-papo sobre literatura e cinema

Estarei trocando ideias sobre o filme São Bernardo, de Leon Hirsziman, na próxima quinta-feira, dia 10, às 17 horas. O debate acontecerá no quadro de um cineclube que tem como um de seus propósitos debater a relação entre literatura e cinema. O projeto tem curadoria das pesquisadoras Ângela Gandier, Gabriela Saldanha e Raquel do Monte. Ângela é doutoranda em Teoria da Literatura pela UFPE e professora do ensino superior de Literatura. Gabriela é mestre em Multimeios/ Cinema pela Unicamp e atua na área jornalística. Raquel é doutoranda em Comunicação pela UFPE e jornalista. Mais informações, aqui. Quem estiver livre e gostar de cinema e literatura, será uma ótima ocasião para conversar a respeito. O Espaço Pasárgada fica na Rua da União, 263, no bairro da Boa Vista.

Daniel Coelho: nota sobre seu mérito político

É preciso reconhecer algo a respeito da cena política pernambucana: a luta solitária de Daniel Coelho para continuar sendo oposição merece nota de muito respeito. Na minha opinião, não resta dúvida:  Daniel Coleho é o elemento mais novo surgido na politica de Pernambuco. E isso não é pouco, para quem tanto ouviu falar em renovação de meia boca. A voz isolada dele é uma aguda alfinetada: num estado de conformismo e coronelismo, onde todos deputados querem ser do governo, o cara luta para firmar posição. Tiro meu chapéu.

 O problema que o deputado tem enfrentado é revelador de um estado de coisas: os partidos políticos em pernambuco tornam-se partidos de verdade quando se trata de proteger, parece piada, a flexibilidade vexatória de seu adesismo governista. A reação do PV   é absurda. Nós que acompanhamos a campanha eleitoral de 2010, e vimos o comportamento de Daniel Coelho, percebemos a coerência de seus posiconamentos. É um partido que se volta contra sua própria dignidade. Sou filiado a outro partido, opino aqui sobre a questão da tomada de posição política, elemento central da prática do metier de político. Quando meus amigos me perguntavam o que é que eu tinha contra Marina Silva, eu baixava a cabeça, meio triste, porque tinha respeito pela candidata, e silenciava pensando nesse tipo de coisas. O jovem deputado vem sofrendo por querer ser um político de posição,  algo que merece muito mérito num contexto político como o nosso.  Resta saber se terá força nas pernas para se manter de pé com a dignidade que vem mostrando até aqui. Do lado de cá, pensando numa frase geralmente atribuída a Voltaire, diria que discordo basicamente das posições políticas dele, mas lutaria até o fim pelo direito dele de poder defendê-las. Encontro aí razão suficiente para minha nota.