Relendo Antonio Candido

O trabalho do crítico literário Antonio Candido dialoga de maneira intensa com a sociologia da literatura no Brasil. Suas visões acerca dos ofícios da crítica literária e da sociologia da literatura se encontram, em certo sentido, condensadas em seu clássico Literatura e Sociedade. É preciso, pela influência do mestre na nossa vida intelectual, fazer uma leitura crítica do marco regulador da crítica literária de matriz sociológica tal como é conduzido e exposto em Literatura e Sociedade.

Desde minha tese venho pensando em analisar com mais atenção os contornos formalistas e as escolhas feitas por Candido que – apesar de estabelecer uma relação tensa e complexa com a sociologia – revela, em vários momentos-chave de seu texto, o cerne maduro contido na solução da redução estrutural, método que inverte a hierarquia disciplinar, elevando e elegendo a crítica e seu foco como forma privilegiada de lidar com os objetos literários.

 O impacto dessa eleição velada feita pelo crítico em nosso meio é imenso: um verdadeiro “filtro humanista” tende, a  partir desse mote de inclinação formalista, a funcionar como metro da operação que leva a sociologia da literatura a ser entendida em seu melhor aspecto, na visão concebida por Candido naquele momento, como uma sociologia das formas literárias. A sociologia da literatura stricto sensu se torna assim, dentro dessa perspectiva, uma maneira limitada e reducionista de entender o fenômeno literário.

Minha intuição diz o seguinte: Candido pode ser visto como o crítico literário mais importante do século XX . É reconhecidamente um dos mais sensíveis ao tratamento sociológico da literatura. Justamente por essas razões, reflito, mais do que nas obras que simplesmente rejeitam ou demagogicamente aceitam a sociologia como ferramenta de estudo da literatura, a obra de Candido traz complexidade à relação entre sociologia e crítica literária. Ela torna possível visualizar melhor, por isso, as razões pelas quais, no Brasil, a sociologia da literatura tem tido contorno bastante específico, geralmente ligado à sociologia das formas literárias.

Voltando ao jogo

Andei tendo uma daquelas crises blogueiras-existenciais.  Parei de escrever um tempo para pensar as razões pelas quais escrever um blog vale a pena. Você precisa ter um público. E pensar nele. Ninguem escreve para si mesmo, escreve? Ainda mais quando digita palavras na internet. Não faz sentido falar sozinho.

 Acompanhei os números de visitas por aqui, e é engraçado perceber que as polêmicas políticas locais são de longe a maior audiência do que fiz blogando. Sei as razões disso. Ninguem lê minhas opiniões políticas como se fossem frutos da análise de um sociólogo atento… Fatalmente, o diagnóstico que Antonio Candido fazia da situação sem saída do intelectual que resolve falar de seu próprio universo de maneira crítica se desdobra em minha situação: na política, sendo filho de um personagem central, opinar para mim é ser das duas uma; se concordo, meu argumento é visto como mera continuação extensiva das opiniões de meu pai, ou, caso contrário, se discordo, até o filho discorda, dando efeito de lupa ao ato de discordar. A medida é sempre desequilibrada para bem e para mal.

 Não tenho verve de polemista político. Se a tivesse, teria encarado algumas com certos jornalistas que, tendo sempre a palavra de alguém por trás da deles, não conseguem ver autonomia na opinião alheia. É triste. Imaginem o que é dialogar com gente assim.  Os argumentos estão lá, são consistentes, mas eles não importam. Afinal, eles nunca são seus.

A saída  para esse aparente paradoxo(que é desdobrado por parte da imprensa) é não fugir dele. O dilema aqui é encontrar o bom tom e exercer com caráter o propósito de analista, de cidadão interessado na vida pública de sua cidade, de seu estado, de seu país. Aos que pregam que a minha filiação seria necessariamente impeditiva da minha vocação política, afirmando que no meu caso isso  seria fruto do sempre temeroso filhotismo – esse traço tão característico quanto nefasto de nossa cultura política -respondo o seguinte: do capital político de meu pai (o qual admiro por compartilhar os valores que norteiam sua prática política e visão de sociedade), herdei apenas o que aprendi como sendo reconhecidamente suas qualidades como político vindo das bases sociais: sua visão e compromisso com a luta pela justiça social.  E a crítica fruto da análise sociológica do mundo é um elemento do qual disponho e não posso abrir mão nessa batalha.

Resumindo: esse texto é apenas mais uma avaliação sobre o direcionamento recente do blog que além das crônicas e análises sociológicas de ocasião agora traz a análise da política local como foco dos textos.

É um alô. Uma volta lenta, gradual e segura ao mundo da blogagem.