Sobre a polêmica em torno do livro Sobre uma vida melhor…

Não vou discorrer sobre o livro. Para mim, a nota de esclarecimento dada pela Ação Educativa é o suficiente para esclarecer o obvio: o debate midiádico é rdículo e distorcido, desonesto e sem critério. E nesse vázio, não me parece possível se propagar a informação e muito menos o conhecimento. Um debate sério a respeito se perguntaria sobre os interesses editoriais por trás de toda a falsa polêmica. Mas estamos longe dessa formulação…

Motiva-me a escrever uma outra razão: a vontade de esclarecer meu ponto de vista para o professor e amigo Fernando da Mota Lima, que por conta do paupérrimo debate gerado pela mídia irresponsável, trocou comentários comigo sobre o assunto no meu mural do Facebook.  O foco do debate, como não poderia deixar de ser em uma falsa polêmica, não girava em torno do conteúdo concreto do livro, mas sobre a entrevista de um famoso gramático da qual eu havia discordado em meu comentário. Recontextualizo aqui os termos da troca de ideias:

 Eu escrevi como comentário do link da entrevista:

 É sempre muito complicado debater livro didático. Mais ainda [falar] do padrão de linguagem a ser aceito como oficial, retido e ensinado pela escola.A base do problema é social: a correspondência entre a linguagem padrão e a linguagem das classes dominantes. (continua nos comentários).  

Lembrar da diferença entre os papéis do linguista e do professor é importante, mas não elimina a tarefa pedagógica de lidar com a situação de “violência simbólica” que é impor um padrão “não-familiar” da lingua para uma classe de pessoas que não convive com ela em casa. Ensinar o português culto é ao meu ver o papel do professor de português que se dá conta da superposição estrutural causadora da violência que é ter que dizer que o outro jeito, o “meu jeito familiar de falar”, é o “errado”. Isso implica uma tomada de posição ao mesmo tempo política e linguistica por parte do professor: garantir o acesso às ferramentas que são parte integrante do sistema de dominação (já que a ascenção só é garantida dessa forma), só é realmente liberadora para os grupos dominados, se a assimilação produz paralelamente uma crítia ao sistema de dominação no qual a forma de conceber a hierarquia reproduzida “nas diferentes formas de uso da língua” pode ser questionada. Não vejo como não fazer isso sem um diálogo entre a linguistica, a socio-linguistica e a própria tarefa pedagógica.
 
Ao que Fernando comentou:
 
  

Jampa: considerando a lógica do seu argumento, deduzo que educar-se é sempre sofrer uma violência simbólica. Discordo. Educar-se, no sentido pleno do termo, é assimilar um código linguístico complexo sem o qual estamos incapacitados para compreender em termos críticos a realidade em que vivemos. Manter as pessoas pobres ou intelectualmente incultas dentro do código linguístico herdado do ambiente social em que vivem é manter em termos efetivos a ignorância e a inconsciência humana que servem antes de tudo para manter as condições de desigualdade e exploração em que vivemos. Acreditar nas virtudes da ignorância, ou na sebedoria da consciência espontânea não passa de populismo muitas vezes generoso e bonito como ideologia pseudoigualitária. Em suma, acho que esse livro de português adotado pelo mec e visto com tanta complacência ideológica e pedagógica é apenas mais um capítulo deplorável na história da democracia de enganação que domina a cena cultural em que vivemos.
 
Tentei me esclarecer da seguinte forma em minha réplica:
 
 

Fernando: primeiro obrigado pelas palavras críticas. Elas são sempre bem vindas aqui nesse espaço. Deixe-me, porém, defender minha ideia com mais vagar porque acredito ter existido certo exagero na interpretação de meu comentário.Senão vejamos. Não vejo continuidade entre o que eu defendi e a ideia de valorizar a “consciência espontânea” ou qualquer forma de” populismo”. Em minhas palavras é papel do professor se situar numa relação de violência estrutural não criada por ele, mas cujo a consciência de sua exitência e forma de funcionamento é de extrema importância para que o processo educativo (de condução, como lembra o gramático na estrevista) e suas estratégias pedagógicas sejam eficazes. Ainda em outras palavras, não é por acaso que a lingua familiar das elites corresponda à lingua exigida pelas instituições oficiais (entenda-se escolas, mas também os concursos de acesso aos cargos públicos mais importantes etc.). Acredito e defendo que o papel da escola seja, em outra escala, o mesmo da ciência quando efetua sua ruptura espistemológica desvendando aspectos que os sentidos ou o senso comum encombrem e/ou distorcem. Acho que você incorre em certa injustiça ao associar valores “generosos” de uma “ideologia peseudoigualitária” que não se apresentam no meu comentário a respeito da entrevista. Eu na verdade não vi o livro e me ative à entrevista, que achei interessante principalmente por conta da ênfase na diferença atribuida aos papeis entre o professor e o linguista. Mais uma vez, a questão está para mim na relação de afinidade eletiva entre isso que você chama de “código linguístico complexo” e o tipo de linguagem associada ao “código familiar das elites”. Nesse sentido meu comentário articula uma crítica pontual da entrevista que não destaca esse elemento central para atitude pedagógica (sempre violenta socialmente por conta da correspondencia estrutural em lingua oficial e a das classes dominantes): a consciência dos diferentes tipos de familiaridade com a lingua tida como padrão ou oficial. Que apesar de ser fruto do conhecimento produzido pelo linguista(falo da consciência dos padrões de familiaridade com diferentes códigos), a meu ver, pode e deve ser aproveitado pelo professor inclusive para diminuir (quando for o caso pedagogicamente avaliado) os efeitos da violência simbólica gerado por questões da desigualdade social. Não é questão a meu ver de ser contra ou a favor da violência simbólica que é para mim um dado estrutural da relação pedagógica. Mas estabelecer uma relação na qual a consciência de sua existência possa gerar mais liberdade para quem é subjulgado pelo jeito familiar de lidar com a lingua. Não vejo nessa posição teórica nem miserabilismo tosco (ah, coitadinho do pobre que fala errado) nem populismo fajuto (tudo que vem do povo é autentico e bom). Por conta disso vejo injustiça ao meu comentário.
 
Houve uma tréplica de esclarecimento:
 
 

Jampa: somente agora vi seu comentário acima.antes de tudo, preciso esclarecer que você me interpretou mal ao supor que atribuí a você a crítica que atribuo aos que simplificamente chamo de populistas da pedagogia. O que critiquei no seu comentário foi o fato de você caracterizar como violência simbólica o fato educacional necessário, friso, implicado na assimilação da norma culta pelo aluno carente ou em processo de formação. Você,eu, todo mundo passou por isso,Jampa. Não se assimila um código linguístico complexo, nada que não sabemos, sem em graus variáveis sofrermos a experiência que você chama de violência simbólica. Pense no que você sofreu para se integrar linguística e culturalmente na França, assim como eu na Inglaterra. Transpondo o argumento para o plano político e ideológico, você sabe que nenhuma revolução se fez, nenhum revolucionário se formou sem aprender os meios de saber a dominação do inimigo que visaram combater. Pense em Gandhi contra o colonialismo inglês, Chico Mendes contra os dominadores da floresta amazônica etc. A seara é farta. Poderia enumerar um livro. Lula e todos que vieram de baixo, revolucionários ou não, precisaram aprender muitos dos códigos de saber e dominação da classe dominante ou das elites. Se Machado de Assis ficasse confinado ao mundo pobre de sua origem… Bem, já falei demais. Este não é o espaço para a gente discutir algo tão complexo.Acabo de digitar também uma resposta a Cynthia na página dela. Faço alusão a você. Se quuiser conferir…
 
Os termos do debate são os acima colocados. E como no mural de Cynthia sugeri que o debate ganhasse forma aqui no blogue, cá estou para continuar o que foi começado lá no Facebook.
 
Neste post já longo vou me ater apenas ao último comentário de Fernando, para esclarecer que quando falo de violência simbólica me refiro sempre a um dado gerado por disparidades estruturais na organização da sociedade de classes. A evidência e obviedade das dificuldades genéricas encontradas por cada um de nós (independente da origem social) na assimilação dos códigos da norma culta, lembrados por Fernando, não se referem  necessariamente ao tipo de dificuldade específica produzida por disparidades estruturais de classe, como as que eu tentei de maneira simplificada ilustrar num texto sobre quem detinha o monopólio da alta cultura, e sobre as quais me refiro quando trato da violência simbólica.
Que dado estrutural é esse? A correspondência entre a liguagem familiar falada pelas classes dominantes e linguagem escolar, não só a escrita, mas também a falada,  usada durante o ensino e demandada pelas instituições oficiais como requisito e forma mais adequada de  se expressar oficialmente através da língua portuguesa. Eis um problema de extrema complexidade no Brasil, devido também a existência de um sistema escolar público repartido em suas responsabilidades entre as esferas do poder executivo, gerando diferenças nos padrões de educação entre as cidades (no nível fundamental), os estados (no nível médio) e na federação (no nível superior). Sem contar os diferentes tipos de estabelecimentos de ensino da rede privada, responsáveis pela educação de parcela importante das classes médias e elites. Isso tudo, deveria ser estudado em detalhe pelas diversas áreas das ciências sociais e humanas ligadas à educação.  Acho que muitas desses temas já foram estudados, não sei. Por isso registro, não sou especialista em sociologia da educação. Nunca fiz pesquisa sobre os estabelecimentos de ensino, sobre processos pedagógicos, sobre as relações entre professores e a instituição escolar, entre os estudantes e a escola, entre a escola e o Estado, etc. Conheço a esse respeito mais pelos trabalhos lidos sobre a realidade francesa do que sobre a brasileira. Mas o que me chama a atenção na ocultação do problema estrutural por mim levantado, e é apenas isso que julgo importante nesse debate, é que ela  pressupõe que a ignorância sobre o arbtrário no qual se funda a legitimidade da norma culta, deve permancer como pano de fundo do pacto pedagógico que no final das contas é, em meu modesto entender, corresponsavel pela reprodução das desigualdades sociais já existentes. E a violência simbólica aparece como o termo que dá nome a essa relação com o apredizado que, por conta de elementos da estrutura social, tornam, necessariamente, a tarefa de aprender a norma culta algo geralmente mais difícil e relevante (justamente porque é um fato condicionante da ascenção social) para um grupo bastante específico de pessoas.  
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