Luisa Marilac e Fabiana Moraes: encontros de jornalismo e sociologia

Em dezembro de 2009 o sociólogo francês Bernard Lahire estava em Recife. Visitava a UFPE a convite do Núcleo de Pesquisa Sociedade, Cultura e Comunicação, coordenado pela professora Lília Junqueira. Na mesma época, Fabiana Moraes havia acabado de finalizar seu trabalho sobre os sertões. Naquela ocasião tive a oportunidade de jantar com os dois. Conhecia Fabiana, mas não o seu trabalho. O melhor naquele agradável jantar foi ter percebido o seguinte: em Recife,  havia essa jovem jornalista que se inspirava na sociologia para fazer seu trabalho de reportagem. Tratei de acompanhar mais o que a moça fazia. E não muito tempo depois fiquei sabendo que os “retratos sociológicos” que ela havia pintado (linkado acima) lá do sertão lhe dariam um prêmio importante no jornalismo brasileiro…

 Escrevo esse texto movido por minha convicção pessoal de que Fabiana Moraes me ensina e motiva muito em sociologia. O jornalismo dela me ajuda a manter o prumo sociológico. A recente publicação no youtube de um depoimento acusando-a (ver aqui) de ser “falsa” e homofóbica”  revela, a  meu ver, um pouco mais desse lado sociológico dessa incrível jornalista. Meu sonho era não apenas ser aceito e entrevistado por Fabiana Moraes. Meu sonho, era ser sociólogo como Fabiana é jornalista, escrevendo sobre o sonho de Luisas Marilacs e afins.

Digo essas coisas porque acredito que só quem trabalha se confrontando de maneira direta com o mundo social pode sentir as tensões e contradições desse mundo na pele. Digo melhor, só com esse tipo de trabalho se pode sentir na pele o que é ser um investigador do mundo social,  um pesquisador-sociólogo.  Essa é umas das características da sociologia que coloca o estudioso numa posição social crítica: o sociólogo, talvez mais do que o historiador e o antropólogo, trabalha e interpreta a sociedade da qual ele faz parte. Por essa razão, o pesquisador é levado a enfrentar uma condição particular: a que o induz a ser frenquentemente questionado, diga-se, a qualquer momento, pelo que diz a respeito daquilo que as pessoas disseram. E, mais importante, é questionado pelo que diz a respeito do que o entrevistado(a) disse a respeito de si própio(a).

 Questões do tipo: quem é você para saber mais da minha vida do que eu, que a vivo?, podem ganhar várias versões e correspondem a tradução reativa da relação tensa produzida pela construção da narrativa sobre o outro no presente. No caso entre Luisa Marilac e Fabiana Morais a interpretação intelectual da palavra “aceitação” precisaria de uma mediação menos imediata que a reativa. Como Luisa Marilac leu o artigo O sonho de ser aceita, de Fabiana Moraes? Que uso do “ser aceita” fez ela para disparar tamanha virulência contra a jornalista? No  meu entender, a resposta violenta no youtube traduz ao mesmo tempo algo daquilo que Fabiana quis ressaltar ao escrever a matéria e Luisa Marilac refutar ao agredir a jornalista: o mecanismo de defesa (no sentido de ser um verdadeiro recalque, em significado freudiano)gerado por anos de esforço de autoaceitação.  Sei que houve um problema de interpretação. E que a própria violência presente no mundo social é parte da explicação para tamanha incompreensão. Não deixa de ser interessante, porém, essa pergunta que fica do trabalho depois da reação por ele criada: pode-se exigir de Luisa Marilac uma leitura mais antenta( menos reativa) e  raivosa do texto?

Não sei. O que sei é que continuo a admirar Fabiana Moraes. Aliás, admiro-a mais e mais a cada trabalho. Porque de sua coragem e ousadia, que nos faz conhecer mais sobre mundos que não ousamos sequer falar em nosso dia-a-dia, eu encontro lições para continuar acreditando em jornalismo sério, principalmente quando ele tem tanta cara de sociologia. De boa sociologia, diga-se.

Atualização: para entender melhor o que aconteceu Lula (aqui) contextualiza o caso e coloca os links sobre o extraordinário trabalho de Fabiana vem fazendo sobre o assunto. Acho que o texto do Soy Louco explica melhor também o que chamei de atitude reativa, de recalque.

 

3 pensamentos sobre “Luisa Marilac e Fabiana Moraes: encontros de jornalismo e sociologia

  1. Jampa,
    Você tocou em um ponto sobre o qual eu discuti muito com algumas poucas pessoas e muito mais comigo mesma. Venho entrevistando travestis e transexuais desde 2009. a especificidade da existência de alguém que precisa continuamente apontar para si mesmo e cifrar aquilo o que é me desconcerta e emociona – talvez porque seja um tipo de “agência” tão diferente daquela que estamos acostumados a observar, a agência que diz: para estar nesse mundo e me acomodá-lo de acordo com o que ele me pede, preciso que ele perceba e se adeque a pessoa que construo em mim. Pode parecer um jogo aparentemente simples, mas é uma luta com lances terríveis, onde a parte que mais leva cascudo é geralmente alvo do risível (assim é mais fácil lidar com aquilo o que não compreendemos). Por estas razões – luta contínua, “porrada”, necessidade de sobrevivencia e continuo alerta para evocar o respeito alheio -, é bastante difícil pedir a Luisa uma leitura menos raivosa. Por este motivo, preferi não entrar em searas a mim questionadas: processo, pedido de retratação, enfim. Não é o caso. “Ser aceita” para Luisa tem um sentido específico sim para ela. Espero, é claro, que em algum momento ela perceba isso. Mas se não, ok. Luiz falou algo que você também exprimiu bem: estamos expostos ao mundo que tentamos analisar, compreender. Isso inclui uns tapas. Não foram os primeiros, e sabemos que não serão os últimos. Obrigada pelo texto. Beijos.

  2. Jampa e Fabiana,

    Ótimo texto, que levanta uma questão central para todos aqueles que trabalham com a interpretação da vida social: até que ponto nossa interpretação dos fatos pode se sobrepor às descrições dos próprios atores? Pelo que pude acompanhar do trabalho de Fabiana até o momento, creio que seu grande mérito é não se furtar às interpretações (inclusive no sentido de avaliar) sem que, para isso, precise calar seus entrevistandos ou distorcer o que eles dizem. É a aplicação do princípio defendido por Isaiah Berlin (o que provê uma descrição melhor dos fatos: dizer que 6 milhões de judeus morreram durante a Segunda Guerra, ou que 6 milhões de judeus foram assassinados?). Ao contrário dos que defendem uma concepção ingênua de objetividade, acredito que é justamente o fato de deixar claros seus próprios posicionamentos e pontos de partida (que ainda assim são distinguidos das posições de seus entrevistados ao recorrer a recursos como as “lições” que se podem tirar das falas citadas) que garantem objetividade a trabalhos como os que tenho lido.

    Mas, justiça seja feita. Ao contrário de você, Jampa, não tenho certeza de que o que possibilitou isso a Fabiana foi seu treinamento sociológico. Sociólogos também não são especialmente competentes nesse trânsito entre as dimensões descritiva e avaliativa. Talvez o mérito seja da própria jornalista e, neste sentido, tenho ainda menos paciência com o jornalismo de péssima qualidade que, com raras e honrosas exceções, Recife tem produzido (e isso, Fabiana, você tem que reconhecer. Não se trata apenas de um ataque gratuito à profissão, como você parece ter sugerido em uma nota no FB).

    Recentemente dei uma entrevista para o DP onde o termo “desconstrução” foi colocado em minha boca em um contexto em que ele não se aplicava (e claro que a jornalista sequer se deu conta do que significa o uso inadequado de um conceito sociológico por alguém que trabalha com teoria social) e uma frase que nunca pronunciei na vida foi colocada entre aspas, como se fosse de minha autoria. Parece-me que a diferença fundamental entre a jornalista que me entrevisou e Fabiana é que esta deixa claro o que é interpretação sua e o que é a fala do outro. No fim das contas, apareci como defendendo uma ideia que nunca me passou pela cabeça, embora ela pudesse ser legitimamente defendida pela própria jornalista, desde que tivesse ficado claro de que a interpretação era dela, não minha. Em outros termos, ainda que a sociologia possa ter conferido uma certa sensibilidade sociológica aos temas com os quais Fabiana vem trabalhando, creio que o diferencial de seu trabalho diz respeito sobretudo à sua capacidade de distinguir entre o que é interpretação sua e o que é do outro.

    Pois é: eu também quero ser entrevistada por Fabiana Moraes.

    Bjs

    • Cynthia, obrigado mesmo pelo belo comentário. Pegando o gancho deixado por ele, gostaria de esclarecer algo sobre a ressalva que me fez a respeito do treinamento sociológico de Fabiana. Como você, acredito que o mérito seja dela, da jornalista cuidadosa que vem desenvolvendo esse trabalho desde 2009. E, ainda concordando vivamente com você, acho que parte da incompreensão resulta da má qualidade do jornalismo de uma forma geral (Luiz desenvolve melhor esse ponto no texto dele linkado no final do meu).O que quis por em relevo, porém, quando fiz alusão a sensibilidade sociológica de Fabiana, foi a “condição em comum” dos que se aventuram em trabalhos de confrontação direta com o mundo social. Mais uma vez eu concordo com você, nós sociólogos, muitas vezes, não somos especialmente compententes nesse trânsito entre as dimensões descritivas e avaliativas. Mas na medida que o pesquisar sério se confronta com realidades sociais específicas, seja o pesquisador sociólogo ou jornalísta, parece-me, que esse contato direto aguça a sensibilidade e ajuda no processo reflexivo do próprio trabalho. É exatamente essa reflexividade que percebo nas palavras de Fabiana quando comenta meu texto, por exemplo. Existe uma reflexividade que foi criada pelo contato com as pessoas, pelo esforço concreto de compreensão. Na verdade, nesse sentido, de minha parte, eu chamaria todo o processo de pesquisa e investigação jornalística (entrevista, escuta, compreensão, escrita cuidadosa das reportagens) que ela vem vazendo de “treinamento sociológico”. Daí eu ter falado de sonho de ser sociólogo como ela é jornalista. Na verdade, existe um tom de fato normativo no que digo, agora percebo melhor, porque para mim a sociologia desempenharia melhor sua função social (se é que isso existe) se os sociólogos se confrotassem mais frequentemente com essas situações, essas mesmas a que você se refere, quando temos que distinguir entre a nossa interpretação e a do outro.
      Beijos.

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