Filosofia e Sociologia: conversa desfiada (o mais longo post da história da humanidade)

Filosofia não é minha praia. Diletante, fico exposto ao ridículo se levo muito a sério um debate específico sobre qualquer assunto filosofante. Ser ridículo não é a pior coisa do mundo. Tal afirmação é verdadeira, válida e correta do ponto de vista sociológico para todo indivíduo cujos os atributos sociais de sua intelectualidade se traduzem na valiosa máxima: “a besteira é a base da sabedoria”.  Não posso negar que há algo assim em mim, apesar de levar bem a sério o metier.

Não obstante o fato de ter começado minha formação em filosofia, não tive uma formação sitemática que permitisse ter uma visão de conjunto da história da filosofia. Além disso, não estudei nenhum filósofo de modo a querer vasculhar os meandros de seu pensamento, tendo no máximo leituras esporádicas (próprias do diletantismo) em esforços localizados de apropriação de certos temas ou procedimentos próprios à filosofia para aplicá-los aos problemas sociológicos que eram os meus durante a tese. Um bom exemplo,  que pensando bem, é mais um caso de relação com a história da filosofia do que com a própria filosofia, é o da apropriação que tentei fazer do tipo de história da filosofia que Alexandre Koyré trabalhou em seu Études d’histoire de pensée scientifique. Koyré como bom historiador se preocupou do ponto de vista metodológico com os erros de procedimento dos cientistas por ele estudados, o que me encantou e me fez reagir e pensar nas consequências daquela démarche em meu trabalho. Lembro como se fosse hoje, o impacto que teve sobre o meu texto a  leitura daquela magnífica introdução de Koyré na qual dizia em tom normativo: ” Temos, enfim, que estudar os erros e falhas com o mesmo cuidado que os sucessos. Os erros de um Descartes e de um Galileu, as falhas de um Boyle e um Hooke não são apenas instrutivas, elas são reveladoras das dificuldades que se precisou vencer, os obstáculos que se precisou superar.” (KOYRÉ, 1973, Paris, Gallimard, p. 14).

Era como ler alguém dizendo que fazer história do pensamento é fazer lembrar de coisas que achamos que sabemos, mas que, por achar que sabemos demais da conta, esquecemos de nos perguntar vez por outra, se sabemos do jeito certo. Ora, a pergunta por que erramos tanto antes de acertar ainda não abarca de maneira concreta as informações mais importantes contidas nos erros. O estudo das pistas erradas seguidas pelos cientistas, por exemplo,  são fonte de informações valiosas sobre o ambiente intelectual que progride e evolue sempre em meio a resistências das mais variadas. Temos acesso em certo sentido, ao estudar essas falhas e erros, ao que se chamou de hábitos mentais de uma época.  E no caso de meu trabalho, um estudo muito próximo das preocupações mais próprias a uma sociologia dos intelectuais, parecia até milagroso lembrar, pela ausência de trabalhos nesse sentido em nosso meio, que fazer o óbvio poderia desempenhar um papel importante para produção de um conhecimento “não apenas instrutivo” a respeito da construção social do escritor Graciliano Ramos,  mas um conhecimento “revelador das dificuldades” que se precisou vencer para que autor e obra se tornassem parte do patrimônio literário e cultural do país.

É um exemplo tolo, admito. Porque história e sociologia nutrem a meu ver uma relação espistemológica muito mais próxima uma da outra do que com a filosofia. Mas é proposital, porque escrevo tudo isso para reproduzir a seguir um debate espistemológico (sobre o estatuto de verdade do conhecimento produzido por disciplinas como a sociologia e a filosofia) que foi gerado lá no Facebook depois da publicação em meu muro de um texto de blogue sobre o feminismo. O debate sobre a inconsistência do texto produziu toda uma conversa sobre “validação de argumentos” em sociologia e filosofia e a metodologia específica de cada uma.

  Penso que este modesto blogue suportaria a continuação do debate que reproduzirei abaixo.  Por um lado, porque também acredito que o interesse do assunto é maior para mim, quanto maior for a capacidade dos argumentos utilizados de minimizarem os efeitos normativos do por vir  e/ou dos a priori filosóficos em matéria de epistemologia. Por outro lado, porque vejo ocasião para pensar as propriedades específicas e mais concretas do raciocínio sociológico (que não se desvinculam em definitivo do modus operandi da validação argumentativa racional, tão bem e melhor fundamentada na filosofia). Na verdade, ao optar pelo trato direto da eficacidade de seu raciocínio específico, o sociólogo se liga em sua disciplina mesmo quando discutindo espistemologia. O que o interessa nesse debate é o que de fato chamamos de sociológico na produção sociológica, e não o que deveria ser chamado de sociologia se… Acho que o diálogo a seguir tem bons momentos porque “aprofunda a crise” e reproduz essa articulação sempre complexa e tensa entre a sociologia e as disicplinas afins, como é a filosofia.

Guardei a grafia do debate original e os possíveis erros de digitação justamente para guardar o clima descontraído do debate num muro de Facebook! Outra coisa, não acrescentei os comentários que não eram argumentativos para não alongar ainda mais o post. É isso!

Leonardo Cisneiros:  

Pô, Jampa, vou dizer que li o texto duas vezes para ter o máximo de boa vontade, mas putz.. Eu vinha discutindo o problema da liberdade com meus alunos (falando da ética de Kant e tal) e é um dos mais belos e difíceis problemas filosóficos,… o que me deixa no mínimo insatisfeito com o diagnóstico fácil da “construção social”. Eu sei que você é sociólogo e, portanto, deve ter mais boa vontade ou familiaridade com esse discurso🙂 , mas eu já venho achando muito clichê, ainda mais quando aplicado a conceitos filosóficos assim. Em todo caso, o argumento parece pouco econômico: poderíamos justificar a luta contra a desigualdade entre sexos com base na concepção liberal de liberdade (verdade), mas isso é se render a uma lógica que no fundo é masculinista (por quê? porque foi proposta por homens brancos). Também daria para justificar essa luta com base na concepção de liberdade como autonomia, cujo defensor mais famoso é Kant, já que, segundo o virgenzão, daí se seguiria que não é possível reduzir outro ser racional a um mero instrumento, mas é preciso tratá-lo como um fim em si mesmo etc etc Ou seja, não aparece nenhuma base para aceitar a conclusão de que as concepções individualistas de liberdade estão erradas senão o fato histórico de que foram propostas por filósofos homens e que isso, de alguma forma ainda a ser demonstrada, tornaria essas concepções instrumentos de dominação.Um problema interessante diante dessas concepções é sim o do individualismo e uma ótima questão é se é possível propor uma concepção da ação humana que implique necessariamente a cooperação e a solidariedade de forma mais forte do que pelo discurso emocional de que isso seria bonitinho. É o problema clássico desde Hobbes ou mesmo de Platão e vale discutir um bocado, mas é simplificador dizer que só é um problema porque o pressuposto da competição é um reflexo da lógica machista que está na base do pensamento filosófico. E pior ainda apelar para um estereótipo feminino (também construído socialmente, né?) como alternativa: “Por que desqualificamos, por exemplo, a mútua dependência, a colaboração, a emotividade e afetividade das relações, traços tão comuns nas relações femininas, ou que envolvem as mulheres?” Acho engraçado: gêneros seriam construções sociais, não haveria uma essência do masculino ou do feminino, mas toda a filosofia (epistemologia, lógica, ética, metafísica) expressaria um ponto de vista essencialmente masculino, falocêntrico, agressivo, penetrador etc. E o que sempre faltou à análise da liberdade seria esse ponto de vista “típico, característico” das mulheres, no qual prevalece a cooperação… Ora, isso não é usar um estereótipo do feminino como ponto de partida? Isso não coisifica o feminino igualmente? Se a concepção do feminino e do masculino representam o resultado de uma construção social dominada pelo homem, esse estereótipo cooperativo não é também um instrumento de dominação da mulher? Se não há uma essência do masculino, um autor homem não poderia estar livre dos estereótipos? E se sua visão da filosofia está inevitavelmente manchada por sua masculinidade, então como não haveria uma essência de cada gẽnero? Sei lá, é um boa discussão. Melhor ainda seria entrar numa discussão sugerida nos comentários: o problema da liberdade de querer o que você quer. Na turma a gente chegou a essa discussão ao comentar sobre o problema do véu muçulmano na França: houve protestos de algumas mulheres que diziam que queriam usar o véu e a única maneira de passar por cima disso e ainda proibir parece ser alegar que elas achavam que queriam, mas isso era só uma imposição da criação delas. Aí chegamos num problema muito fundamental e que também coloca um problema para aquelas concepções individualistas de liberdade. Bem só alguns comentários do contra, porque o filósofo antes de tudo é um troll.. rs (From a white male straight guy).
 
Jampa:
 

Leo: seus comentários de branco, adulto, hetero e filósofo ( ou filósofo hetero, como preferir) são sempre bem vindos.🙂 Eu acho que para bem discutir suas questões, principalmente as que colocam em foco à sensibilidade sociológica(os fato…res de construção social do gênero e do sistema de dominação a eles atrelados) eu precisaria de um pouco mais de tempo, para não ser de todo injusto nem com você nem com o virgenzão. São elementos importantes do foco analítico e que na verdade articulam as relações entre “a construção da realidade social” e a “construção social da realidade”. Os debates em torno do feminismo são a meu ver portadores dessa reflexividade que por vezes podem nos levar a cair em simplificações grosseiras em torno da “construção social” como explicação expeditiva da realidade. Não julgo ser o caso do texto sobre o qual discorremos que ao meu ver incorre em simplificações de propósito (é um texto curto de blog, mais sintético do que sistemático). Acho, porém, que nosso debate pode ser proveitoso, na seguinte direção: é possível aceitar em alguma medida o completo desvinculo(de status) do privilégio racional (e lógico) de onde derivam todos os universalismos (liberais, libertários, libertinos, sociais, socialistas, etc.) das condições sociais (contexto histórico, mas também os condicionantes específicos: país, classe social, lugar de formação, acesso ao conhecimento produzido, formas de apropriação e difusão do trabalho, etc)? Veja, não acho que Kant deve ser lido e explicado como filósofo machista. Não é disso que se trata. O foco de tensão consiste em por em suspenso, para dar sequencia ao argumento histórico-sociológico, o fato da naturalidade com que a filosofia pergunta “o que é pensar”? sem precisar “nos moldes críticos tão próprios a sua conduta habitual” se perguntar sobre as condições materiais e simbólicas que de alguma forma “realizam” e “performam” uma tal pergunta limite.O que achei interessante no texto dela, para além da simplicidade que o caracteriza, foi exatamente o esforço de articular elementos concretos da maneira como jovens atualmente se referem à liberdade aos conceitos abstratos que, nem por isso, se desvinculam completamente dos contextos nos quais foram produzidos (as tais condições de produção, da qual a posição de gênero de alguma forma também ajuda a delinear). Talvez eu esteja “projetando” (cf. Freud) meus desejos de adequação sociológica ao texto da pisicóloga. Mas a textura do que ela diz, dialoga com a maneira com a qual eu percebo o trabalho sociológico. O raciocínio sociólogico deve ter como um quase imperativo categórico, digamos assim, esse cuidar da “idexabilidade” dos conceitos, no sentido de investigar justamente o peso histórico dos condicionantes que explicam, talvez em última instância, sua universalidade. Faca de dois gumes, eu sei: universalisar é por assim dizer, dentro do raciocínio efetivo da sociologia histórica a qual tento me vincular, levar ao limite o historicismo, a contextualização, os condicionantes, etc. O que de fato me deixa nessa posição nada confortável de viver de oximores. Tenho a impressão, contudo, que ainda não capitalizamos tudo que deveríamos desse tipo de conduta, principalmente aqui em nossa terra tupiniquim. Penso isso particularmente pensando nas condições de produção do pensamento propriamente filosófico brasileiro, para não me referir a Pernambuco, por exemplo. Acho que uma boa sociologização, mesmo que rasteira, dessas condições já seria o suficiente para uma boa reflexão sobre o vínculo deveras problemático de nossa filosofia aos problemas engenhosos do pensamento universal.
 
 
Leonardo Cisneiros:  

 
Jampa, eu entendo a importância e o lugar da análise histórico-sociológica do fenômeno e até da construção do discurso filosófico e científico, que obviamente está inserido num contexto e o espelha. Mas o problema no que eu chamo de metafís…ica feminista é a tese relativista forte segundo a qual nada há nesse discurso que escape ao determinismo pelo contexto e que, por exemplo, a própria lógica que estrutura todo o discurso filosófico clássico esteja impregnada de falocentrismo. O problema é que todo esse papo acaba pressupondo uma essência do feminino tão construção social quanto o discurso a ser negado (e pertencente ao mesmo contexto que ele): a lógica seria falocentrica e uma visão “feminina” da coisa seria mais plural, amante da diferença blablabla. Isso é um discurso muito complicado, carregado de valoração não justificada (mas falar em justificação é algo de um macho branco hetero..) e que no fundo acaba reproduzindo estereótipos e coisificando cada gẽnero. O problema de avacalhar com relativismo, historicismo e determinismo pelo contexto social é que eu posso argumentar que o feminismo também é um produto desse contexto que ilude as mulheres a pensar que esse é um caminho de libertação enquanto reforça diferenças socialmente construídas. O problema é propor esse perspectivismo social como fundamento, como a raiz última de toda justificação, um absolutismo do relativismo. Tem gente que defende isso, mas tem que rodar mais, não é só assumir que tudo possa ser construção social e manifestação do machismo. Por exemplo, em último caso, a discussão sobre a liberdade é uma discussão sobre a natureza humana e mesmo a tese de sua total maleabilidade pela sociedade ainda é uma tese metafísica sobre a natureza humana. O relativismo social acaba repousando sobre uma tese universalista. Em todo caso, minha implicância não é nem com o feminismo metafísico em si, é com a leviandade (na falta de termo mais light, mas sem intenção de ofender) com que se assume cada passo na cadeia de raciocínio do texto. Não é óbvio que os conceitos clássicos de liberdade acobertem o machismo, não é óbvio que um ponto de vista feminino daria outra explicação para a possibilidade da cooperação social ou mesmo que existam garantias de que essa cooperação acontece automaticamente, que o homem seja naturalmente bom e é a testosterona que o corrompe. A pessoa pode até defender tudo isso, mas é preciso preencher os espaços em branco no argumento. Por exemplo, a questão do véu que mencionei: é uma ótima maneira de completar uma teoria filosófica com uma visão sociológica -> liberdade envolve ausência de restrições para seguir suas preferências, mas fica em aberto a questão sobre como essas preferências são adquiridas e se o papel da socialização nessa aquisição não acaba criando restrições para a liberdade em um outro nível. Sei lá, simpatizo um bocado com essa idéia. Ela é totalmente compatível com a idéia de que, em grande parte, os gêneros são construções sociais e que idéias dominantes num certo contexto social possam manipular as ações das pessoas, sem, no entanto, se aventurar a defender a idéia de que a concepção básica, estrutural, da ação humana defendida aí seja um reflexo do machismo. Mas, enfim, muito a discutir ainda… volto na tréplica…rsrss
 
 
Andrea Faggion:
 
Eu confesso que não estava gostando do texto pelo fato dele já começar com considerações banais e mesmo muito questionáveis a respeito do conceito liberal clássico de liberdade (veja, por exemplo, o salto indevido para o conceito de “indepe…ndência econômica”, que, como ressalta o próprio Kant, não decorre analiticamente do conceito de “liberdade” no sentido que vinha sendo explicado pela autora), daí, quando chegou na parte do “eram homens, brancos, blablabla”, eu parei de ler mesmo…. Se vc leva esse tipo de discurso a sério, então o Leonardo realmente criticou o texto, porque “é homem, branco e blablabla”, ao passo que eu, por minha vez, estou “curtindo” o que ele disse, porque fui doutrina pela ideologia dos “homens, brancos, blablabla…” E, no fim das contas, o discurso não tem mais poder justificacional algum, não importa mais a cadeia de inferências, porque caímos todos na falácia ad hominem! Neste momento em que os argumentos, por si só, não têm mais peso, pouco importa mesmo que um texto não possa ser sistemático, já que deve ser sintético, afinal, o discurso agora tem apenas o fim prático de exortar ações. Em outras palavras, com todo respeito, é só panfletagem.
 
Jampa:
 
 

Acredito que o que está em jogo nesse nosso pequeno debate seja a própria ideia que fazemos da autonomia do discurso filosófico. Estou eu cá a defender um texto de blog, não sei até que ponto apenas panfletário, de posturas e ideias que concordo em boa medida, mas que em última instância, demandam uma coerência formal de minha própria relação com o conhecimento que não consigo ter, ao menos não através da prática apenas sociológica. A ideia da tréplica me atrai, porém, e continuo o debate pelo prazer inusitado de dialogar com filósofos de tão boa estirpe como vocês. Vamos aos elementos críticos mais contudentes: 1)o relativismo essencialista contido na relação fácil estabelecida entre posição de gênero e o universalismo filosófico contido no conteúdo da acepção de tradição liberal de liberde; 2 a questão da relação de complementariedade da sociologia em relação ao discurso filosófico (“uma ótima maneira de complementar uma teoria filosófica com uma visão sociológica”), como um bom elemento para aceitar que não é de todo vão do ponto de vista sociológico, e falo só a partir dele, que a Andrea esteja “curtindo” o argumento de Leo por ter sido socializada (e não necessariamente doutrinada) por instituições que de alguma forma reproduzem estruturas de dominação social de variadas ordens. Vejam, eu já aceitei, faz tempo, desde o primeiro cometário de Leo, a crítica segundo a qual o texto ao qual nos referimos faz idas rápidas e por demais simplificadas ao assunto. O que me ocasionou o comentário da Andrea, recusando qualquer qualidade propriamente argumentativa ao texto que- reparem que a acusação não poderia denigrir mais em se tratando de um debate intelectual- é um texto com “fim prático de exortar ações”, “é só panfletagem”. Não vou me negar a entrar no jogo das propriedades propriamente intelectuais do debate intelectual que, fora dele, perderiamos qualquer parâmetro para um possível entendimento. Mas não deixa de ser instrutivo o fato segundo o qual, também aqui,observamos as propriedades e atributos valorativos do labor intelectual em completa consonância com a representação da maestria filosófica no topo da pirâmide do saber universal. Defender a filosofia é em último decoro defender nossa própria liberdade de pensar, não é mesmo? Do meu ponto de vista, que é o sociológico, seria preciso um acordo de propósitos no seguinte sentido: o filósofo que por razões da incorporação do conhecimento (em termos de socialização) geralmente, por conta da posição que ocupa e defende, tende a não se perguntar sobre as condições de produção do conhecimento tido como universal, estou correto? Eu concordo com Leo quando ele diz que não se deve deixar espaços em branco nesses argumentos relativistas e defendo por isso uma sociologia das instituições de ensino (maneira concreta e profilática de produzir conhecimento sobre o que chamamos de maneira sempre muito rápida e expeditiva de condições históricas de produção de conhecimento). Algo parecido com o que Bourdieu fez em “La Noblesse d”Etat”, ao analisar as formas de avaliação das principais instituições de ensino da elite intelectual francesa. Sobre o essencialismo contido na tese relativista, falo especificamente mais uma vez do ponto de vista da sociologia, penso que o elemento teórico da sociologia que se atrela ao relativismo é mais negativo do que positivo. A tese relativista se afirma dentro da sociologia de duas maneiras : pela impossibilidade de confirmar o valor intrísseco de qualquer produto humano sem fazer referência a constructos socio-culturais historicamente circunscritos e; 2 agora de maneira positiva, mas menos valorizadas dentro dos padrões acadêmicos atuais, a descrição dos mecanismos e lógicas sociais nos quais ganham inteligibilidade os valores e as ações humanas. A segunda forma é a única maneira concreta que conheço de avaliar os elementos históricos que condicionam, determinam, se relacionam com a liberdade dos seres humanos. Então, antes de acabar o comentário para ir para minha malhação, saliento ainda que percebo o quanto fugi da defesa propriamente dita do texto que estamos discutindo. Meu interesse aqui é mostrar também que partimos de esquemas valorativos distintos para avaliar o esquema argumentativo do texto “panfletário”. Não defendo que a razão(se é que posso falar nela, do meu ponto de vista, assim tão em abstrato) perca de vista seus mecanismos de discernimento que prescindem de coerência lógica entre outras coisas. Defendo que o ponto de vista do qual a crítica se exerce possa, ele também, se situar como lugar condicionado e condicionante do argumento. Porque para o sociólogo é muito difícil perder de vista que no mundo social concreto a autoridade do argumento e o argumento da autoridade andem muitas vezes de mãos dadas e só podem ser bem distintos entre si quando temos mais consciência dos condicionantes que performam a correção de um pensamento. A questão concreta que tento colocar é a mesma que Leo traz no exemplo discutido em sala de aula, só que, vejam só que heresia, aplicado à classe intelectual: aos sociólogos,aos filósofos, etc. Em que sentido nossa liberdade(de pensar criticamente) envolve ausência de restrições para seguir nossas preferências(acadêmicas), mas fica em aberto a questão sobre como essas preferências(acadêmicas) são adquiridas e se o papel da socialização nessa aquisição não acaba criando restrições para a liberdade em um outro nível. Tá ai para mim uma questão muito interessante!
 
Andrea Faggion:
 
 

Esta discussão que estamos tendo é bastante atual e recorrente. Para mim, o que está em jogo é a necessidade de reconhecimento da pluralidade semântica de discursos, que seriam então irredutíveis a um critério de significado comum a todos. …Vou além e digo que essa é a grande herança do kantismo, sistema dentro do qual fazer a ponte entre juízos teóricos e práticos não significa jamais unificá-los ou reduzir um ao outro, como se pudéssemos ter um domínio só, um discurso só para liberdade e natureza. A grande sacada de Kant é que, quando agimos como seres racionais, agimos como seres livres e autônomos, todavia, isso não significa que, no domínio teórico, conheçamos a nós mesmos como seres para os quais não valem quaisquer contingências que poderiam determinar nosso comportamento ou pensamento. Simplesmente, é impossível que não ajamos sob as idéias de liberdade e autonomia se usamos a razão para justificar uma crença ou comportamento. Isso é assim, porque justificar uma tese é justamente tentar mostrar que ela tem validade independentemente das minhas contingências pessoais, ou seja, defender uma tese tem uma dinâmica diferente daquela empregada quando dizemos “eu gosto que as coisas sejam assim” ou “isso é bom para mim”. Note a referência subjetiva já contida na própria sintaxe dessas asserções. Dada essa diferença interna aos tipos de discurso, seria um puro e simples erro formal se atacássemos uma tese dizendo “ela foi proposta por quem tem interesse em sua validade, portanto, é falsa”. A validade não é relativa ao proponente. Se defendermos que, sim, ela é, então defendemos que não há validade propriamente, mas só preferências e interesses pessoais. Mas, como é fácil notar, esse discurso se auto-implode, é o paradoxo do relativismo. Por isso, em suma, eu não leio textos que se pretendem críticos, mas miram a figura dos proponentes das doutrinas, sem analisar os argumentos que eles propuseram. Nós podemos usar contingências empíricas para explicarmos por que o mundo é como é, por que uns gostam do liberalismo, outros do socialismo e ainda outros do hinduísmos, mas jamais para criticarmos o conteúdo dessas doutrinas ou de alguma outra.
 
Jampa:
 
 

Leo e Andrea: relendo minha resposta, depois de ficar mais sarado, notei o quanto ela ficou distante de um diálogo mais rente com o que vocês colocaram como crítica.O argumento de vocês é um elemento forte da defesa da autonomia do pensar dentro de parâmetros que de alguma forma independam do argumento de autoridade. O locus do debate assumiu uma roupagem que transcende a proposta modesta do texto ao qual nos referimos para argumentar a respeito dos limites do relativismo. Penso seriamente em elevar esse debate de comentários no FB, para um texto mais trabalhado no meu blogue. Enquanto isso não acontece, encontro em certos pontos levantados por Andrea em seu último comentário elementos de uma lógica binária que me traz certo desconforto quando diz: “Se defendermos que, sim, ela é, então defendemos que não há validade propriamente, mas só preferências e interesses pessoais. Mas, como é fácil notar, esse discurso se auto-implode, é o paradoxo do relativismo.” O que julgo problemático nessa construção é que o “se” que condiciona o tipo de “validade” de uma argumentação, funciona de modo a eliminar a possibilidade de a lógica argumentativa captar a existência da contradição como sendo parte da própria realidade empírica, como se a lógica das coisas, para falar como Marx, funcionasse ipsis leteris sob o mesmo princípio de funcionamento que guia as coisas da lógica. É claro que mencionar Marx me deixa numa posição embaraçosa, daquelas que apontariam para a ligação muito mais próxima dele com a “lógica” presente na dialética hegeliana.Mas o que tento indicar aqui é o propósito mesmo das coisas que geralmente o raciocínio de tipo filosófico tende a querer deixar de fora do debate em nome de sua própria autonomia.Veja, quando me refiro ao pensamento filosófico posso ampliar meu foco incluindo a própria sociologia, quando esta, e isto não é raro, faz economia da análise histórica propriamente dita. Não tenho dúvidas que postas em bom estilo kantiano, as relações complexas entre empiria e razão apareceriam e a razão prevaleceria como elemento seguro do fundamento do próprio conhecimento gerador de liberdade.Este talvez seja o mote katiano que guardo comigo na tradição de sociologia ao qual tento me vincular. Não sendo especialista em Kant, não me aventuraria nos meandros de como essas relações realmente se dão na articulação entre Razão Pura e Razão Prática. O que sei, fruto da aplicação crítica de um “racionalismo aplicado” (e por isso reflexivo) ao mundo social, é que o mundo das escolhas dos seres humanos socializados obedecem “lógicas” que muitas vezes não são em nada parecidas com os que os postulados fortes de racionalidade costumam atribuir de maneira genérica aos individuos de forma geral, justamente quando solicitam o princípio de coerência lógica para especificar uma validação argumentativa.Não defenderia nenhum postulado irracionalista como sendo consequencia dessas minhas afirmações. Acho que a razão reflexiva (que em parte é legado de Kant) pode captar seus limites também se, atentas as lógicas práticas de seu funcionamento (que não são em definitivo as mesmas da lógica propria razão), dão acesso a certos condicionantes, digamos assim, não kantianos da própria razão.

Andrea Faggion:

Também volto depois de ficar mais sarada hahaha Se eu peguei bem o seu ponto do último post, então eu queria só complementar o que eu tinha dito explicando que o apelo a condições que tornariam possível a prática argumentativa não implica n…a exclusão de outras dimensões da vida que seriam mesmo impenetráveis pela razão. Simplesmente, não faz sentido introduzirmos esses outros elementos se o que está em jogo é a análise da validade de argumentos, mas isso não implica em negar a existência deles. Talvez a arte, por exemplo, seja capaz de captar sentidos que a razão não pode expressar. Mas enquanto nos atermos ao uso da crítica e da defesa de proposições, o que vale é a lógica consistente, bivalente mesmo. Uma lógica paraconsistente, até onde eu sei, teria emprego pragmático para a solução de problemas bem específicos. Não serveria para fundamentar teorias, o que significaria que a própria lógica paraconsistente precisaria ser fundada em uma meta-linguagem consistente. Trocando em miúdos, um animal humano não entenderia o que outro está dizendo se esse outro dissesse: “é verdade que, às 14h do dia 01 de julho de 2011, eu estou e não estou em um ponto x da R. Augusta de São Paulo capital”. Não há Hegel ou Newton da Costa que dê sentido para essa proposição.
 
Jampa:
 
 

Sarados do mundo, então continuemos! Espero fazer jus aos seus argumentos ao me contrapor. Espero também que as ideias defendidas por mim sejam mais robustas do que o corpo desse magrelo que titubeia diante do verso filosófico. Acho que para situar minha crítica de maneira mais clara, talvez fosse necessário dizer que ao falar das condições sociais que tornariam possível a prática argumentativa, estou me referindo inclusive aos critérios de validação propriamente argumentativos, que também não podem se fechar em si mesmos para fundamentação de teorias sob o risco de se tornarem verdades absolutas ou relativas apenas para si mesmas, teorias muito bem amarradas formalmente que explicam mais sobre o funcionamento da própria razão do que sobre os objetos sobre os quais se propunham a obter caráter explicativo ou elucidativo. Na verdade, acho que penso não ignorar que para defender minhas ideias eu precise desse acordo tácito entre nós segundo o qual a coerência lógica seja um pressuposto dessa condição bivalente do pensamento do tipor “certo x errado”, “verdadeiro x falso” etc. Só acho que ficar na ambivalencia é pouco. O que indico é que quando o pensamento se recusa a se voltar para o agente em sua ação específica (estamos falando do intelectual e de seu modus operandi quando pensa, justo?), e não aceitamos encontrar na própria lógica uma prática socialmente codificada que a cadencia, corremos o risco de sem perceber hispostasiar o decoro analítico como se seu correspondente fosse a verdade ou a realidade em estado bruto, a coisa em si para si kantiana. O que a meu ver também não está muito longe da ideia de um essencialismo nos moldes do relativismo criticado.Como esta discussão recai sobre o papel do pensamento, sua função latente ou explícita, eu diria que não se pode querer desenhar o mapa do tamanho do mundo ao risco dele perder sua função de… guia. Sem querer abusar das figuras de linguagem, a metáfora do mapa é tão mais válida quanto mais contundente for a hipostase da teoria sobre si mesma. Pelo fato da apreciação lógica ocorrer sob registro de certas práticas ( eu diria lógicas práticas, tais como as geradas pela rotina de trabalho intelectual) – que, também elas, como esquecer?, não obedecem aos requisitos únicos da validação de ideias em processo argumentativo puro-, eu diria que por conta desse fato o ponto de vista sociológico não admite o viés da pureza do mote racional. O que não impede a sociologia de usar todas as ferramentas racionais disponíveis para reter, inclusive, os alcances e limites dessa razão parcialmente condicionada. O que você chama de lógica paraconsistente eu chamaria de bom senso estratégico da razão que, menos encantada com sua própria capacidade de criar modelos internamente coerentes, faz o gesto de aproximação com a atitude científica (sempre mais mundana e certamente menos pura) gerando conhecimento certamente menos fundamental, mas de alguma forma mais conectado com a realidade do mundo em algum sentido compartilhado e tido como real. Interessante que você tenha citado o exemplo da arte (a deusa dos sentidos). Em minha tese um dos pontos discutidos tinha a ver com isso. Sempre me intrigou que socióolgos dissessem que tinham aprendido mais sobre o mundo social lendo literatura do que com os tratados de sociologia. Fiz uma tese sobre as sociologias implícitas ao romance de Graciliano Ramos. E a questão que me impus foi a de saber como era possível que as descrições sociológicas contidas nos romances dele pudessem ter ou guardar um potencial de conheciento sociológico maior dos que os contidos nos conceitos dos sociólogos.O carater mimético de uma obra literária e sua relação ambigua com as noções de verdade e realidade são as respostas temporárias as quais pude me ater com algum contentamento durante a tese. Mas não deixa de ser interessante perceber que, ao reter e condensar as incoerências das formas de agir no mundo social, a literatura capta e descreve elementos que a sociologia só consegue dar inteligibilidade na medida em que aceita que sua função analítica não deve impor ao seu objeto o grau de racionalidade que são os seus, como disciplina acadêmica. Vejo em nosso debate acordo sobre a necessidade de robustez e coerência teórica e argumentativa no trabalho intelectual. Acho que nossa discordância nasce da natureza do tipo de demanda que a sociologia tal como a vislumbro almeja, o de produzir conhecimento acerca de algo tido como concreto ou real. Devo reconhecer que estou mais aprendendo do que ensinando com esse debate, já que faz tempo não estudo nada em filosofia. Defendo essas ideias a partir da visão que tenho do trabalho filosófico, que são tributárias de uma relação muito específica que tenho com o próprio fazer sociológico. Mas estamos ai, resistindo a prova de fogo que já foi em algum momento defender o texto do blogue da Lola…🙂
 
Leo Cisneiros:
 
 

‎”Sarados do mundo”! Somos nós lutando contra o dualismo cartesiano! Hoje eu malhei tanto que não consegui nem responder seus comentários, Jampa! haaha Eu aceito a carapuça de ser demasiadamente clássico e fundacionista em filosofia, mas de…ixa eu colar aqui uma citação que esclarece bem o tipo de coisa que me deixa irritado com esse viés pós-moderno do que eu chamei de “metafísica feminista” (o que é diferente de uma abordagem sociológica dos problemas de gênero): ” Various practitioners of feminist epistemology and philosophy of science argue that dominant knowledge practices disadvantage women by (1) excluding them from inquiry, (2) denying them epistemic authority, (3) denigrating their “feminine” cognitive styles and modes of knowledge, (4) producing theories of women that represent them as inferior, deviant, or significant only in the ways they serve male interests, (5) producing theories of social phenomena that render women’s activities and interests, or gendered power relations, invisible, and (6) producing knowledge (science and technology) that is not useful for people in subordinate positions, or that reinforces gender and other social hierarchies. Feminist epistemologists trace these failures to flawed conceptions of knowledge, knowers, objectivity, and scientific methodology.” (do verbete Feminist Epistemology na Stanford Encyclopedia of Philosophy)Fazendo vista grossa para o balaio de gatos que é essa lista, repare que a perspectiva aí é bem mais radical do que a feita por estudos de gênero no âmbito da sociologia. Enquanto seria razoavelmente óbvio o fato sociológico de que a exclusão das mulheres da carreira científica era um sintoma do machismo generalizado, a inferência a partir daí para a tese de que a maneira tradicional de produzir ciência, em seus aspectos mais elementares, é o principal mecanismo para impor essa exclusão e um resultado dela mesma é pouquíssimo justificada. A tese radical defende que os métodos mais básicos de nossa compreensão da realidade, a nossa meta-compreensão sobre esses métodos, são resultados de uma opressão de gêneros. Equivale ao relativismo radical de dizer que a ciência só vê o mundo como ela vê porque é o resultado de uma atividade masculina. Quando a gente chega em um questionamento tão radical, fica bem difícil de saber como escapar do ceticismo. Em que difere as alegações dessa epistemologia feminista das alegações, por exemplo, do pessoal new age a favor da astrologia como uma outra forma de saber que não pode ser denegrida pela opressão da concepção tradicional de ciência? Ou então porque não usar a opressão racial como explicação fundamental? Há menos negros do que mulheres na universidade ainda hoje e por que, então, não falar em uma “black epistemology” e fazer um manifesto similar àquele ali em cima? Ao abandonar a perspectiva “meramente” sociológica (just trolling a bit..rs) e colocar a opressão da mulher pelo homem como fundamento, no sentido metafísico, da explicação de todas categorias da filosofia, o feminismo precisa supor pelo menos uma objetividade: a de que é essa luta e não a contra a opressão racial ou a luta de classes, que está na base de tudo. É preciso isolar uma certa essência-que-não-ousa-dize​r-seu-nome do feminino e do masculino (note que esse tipo de pensamento está nessa passagem acima também) e dizer que toda a visão da realidade é filtrada através disso.
 
(Continuação)
 
 

Aristóteles, lindo, já dizia que o sofista que nega a lógica e o princípio de não-contradição se refutou no momento em que abriu a boca e foi lhe encher o saco, pois o PNC é a condição mínima, elementar, de toda comunicação ou, pelo menos, …do discurso veritativo. Como Andrea Faggion disse, nem tudo é analisável pela lógica e isso está longe de ser um problema para os filósofos analíticos. Você não demonstra a partir de alguns axiomas quem deve amar quem, você não pode demonstrar que você deve ficar mais satisfeito, sei lá, ouvindo Bach do que Vivaldi, mesmo que seja fácil argumentar que o primeiro é mais importante historicamente que o segundo. Aristóteles deixou claro lá no De Interpretatione que a lógica diz respeito somente ao discurso apofântico, o que pretende expressar verdades, e outras formas de discurso pertencem ao estudo da poética ou da retórica. Agora, há um âmbito em que a lógica tem sofrido, mas que eu não quero abrir mão de sua aplicação: o âmbito desse debate público, o âmbito da política in latissimo sensu. Se for pra levar a sério mesmo o papo relativista, então nada há que impeça cada parte de se entricheirar em absolutismos e querer eliminar por completo a outra parte. O relativismo que soa aceitável para a esquerda na boca de uma feminista, soa execrável na boca do Malafaia ou do juiz pastor de Goiás, mas no fundo tanto a feminista quanto o Malafaia estão desprezando o papel da evidência racional pública. A lógica e certos elementos do método científico só fornecem uma estrutura mínima para a construção de um terreno comum de discussão e de formação de consenso. Existe muita coisa para discutir antes de eu e o Marco Feliciano conseguirmos concordar em alguma coisa, mas nunca vai haver concordância se não aceitarmos implicitamente que se S é P, então não é o caso que S não é P. Ao se negar o princípio, deixa de existir concordância ou discordância, deixa de existir o mesmo assunto. Aristóteles diz que se você não aceita a não-contradição, então vocẽ não aceita que as palavras tenham isso que chamamos de significado, qualquer palavra pode significar qualquer coisa e poderá ser verdadeiro dizer que o cavalo é um avião. E daí para o resto da filosofia. Uma vez um aluno falou “ah, a verdade é relativa, a ética é relativa, o que é certo para mim é uma coisa, pode não ser para você”. Aí eu usei uma clássica refutação proposta por algum árabe medieval, acho que o Avicena: então vou bater em você até você aceitar que existe alguma objetividade no certo e no errado… Se você é relativista, é realmente bom começar a malhar bastante!!
 
(Ainda Leo Cisneiros… hihi)
 
 

Só pra pontuar melhor: a gente pode não saber que regras servem como universais, qual a fundamentação universal da ética, a ciência pode ser um processo indefinido de melhoramento e abandono de teorias, a gente pode viver sobre um pântano ou invés de sobre um fundamento firme como uma rocha, mas tem um problema em chutar o pau da barraca e abandonar a idéia de objetividade. Acho que eu poderia dizer que a objetividade, na ciência e na ética, é como uma Idéia no sentido kantiano, um horizonte para o qual convergimos sem nunca chegarmos lá. A gente pode não ter a fundação definitiva para resolver qualquer questão no debate público, mas abandonar a meta é abandonar de antemão a possibilidade de um consenso. E talvez hegelianamente eu poderia dizer que, embora não tenhamos concretamente os termos dessa ética objetivamente justa, essa objetividade tem efetividade na medida em que é esse horizonte. Foi enrolado, mas eu disse que era Hegel! ahaha ou não.. preciso ler mais esse danado.. ou não.. (treinando dialética..ahahh)
 
Jampa (acuado, mas mais firme do que quando começou):
 
 

Leo: já que vale citação (rs!), trago uma que traduz o meu foco espistemológico que é racionalista em última análise. Senão vejamos: ” Tant qu’un raisonnement se déroule sans laisser apparaître de discontinuité logique avec les principes fo…rmels de l’esprit scientifique- tant qu’il reste fidèle aux exigences de la ‘racionalité épistémique”, comme la nomme Gilless-Gaston Granger pour la distanguer de la “racionalité pratique” des actions -, les effets personnels du savant, définissant ‘l’intérêt’ scientifique qu’il porte à son projet, doivent, tout autant que les règles et définitions d’une opératoire de la preuve, être pris en compte si l’on veut comprendre comment, dans le flux incessant de l’histoire des idées, l’entreprise jamais terminée d’une construction ou d’une reconstruction rationnelle de l’observation et de l’interprétation du monde passe sans cesse d’une “statique’ (d’un état stationnaire des catégorie du savoir) à une dynamique (qui déclenche de proche en proche innovations et restructurations), que ce soit, dans le cas des sciences “nomologiques”, par ‘cumulation’ des connaissances dans un paradigme, dans le cas des sciences historiques, par l’affrontement interminable entre ‘ paradigme concurrent’, ou- aspiration ultime de tous – dans le fracas des ‘révolutions scientifiques’ qui balaint un paradigme durable au profit d’une autre, mais moins souvent qu’on ne s’en flatte.(Passeron, “Travailler avec Bourdieu”, 2003.) Cito para dizer o seguinte: percebo perfeitamente sua implicância com o radicalismo essencialista-relativista contido naquilo que chama de metafísica feminista, mas considero que não seja de todo rejeição à objetividade, aceita a ausência de fudamento metafísico ou outro como privilégio de uma ou outra disciplina do conhecimento. Reconhecer que todas tem, por princípio e reconhecimento da impotência metafísica (perdoe o trajeito em liguagem natural) de seus postulados sempre especificáveis, não elimina a tarefa de cada uma delas de mostrarem a que vinheram, sendo mais ou menos perfomáticas dentro dos padrões e critérios de validação do conhecimento historicamente estabelecidos. Se todas as teorias sociais se equivalem na base (algo em que acredito por pura falta de possibilidade concreta de dizer outra coisa: não vejo como fugir do arbitrário que funda os valores social e cultural onde se produzem as ações humanas), acho razoável dizer que elas perdem essa equivalência no processo mesmo (que também é social, um processo social no qual deve prevalecer ao máximo a autonomia da razão) se perca em função do poder que cada uma delas desenvolve e performa ao explicar um dado fenômeno social. Acho razoável por exemplo poder mensurar o valor explicativo de uma teoria pelo seu potencial de abragencia empírica (o desdobramento da teoria em uma gama de objetos distintos), quando seu potencial analítico alcança um rigor relativo(sempre elevado) nos padões de validação nos diferentes trabalhos. Não sei se posso dizer que nosso racionalismo se encontra apesar de não termos as mesmas preocupações com as premissas. Mas é isso que percebo quando penso no que nos aproxima e afasta nesse nosso debate.
 
Andrea Faggion (em bela síntese do debate):
 
 

Passei o dia estudando um troço novo para mim, um negócio chamado “disjuntivismo”, e só agora pude respirar e ler, com muito gosto, os posts de vocês. Sabe, no fim das contas, eu acho que fica subjacente ao debate todo uma questão relativa …a como se daria a divisão de tarefas entre filosofia e sociologia. Parece que nós não podemos (e, acima de tudo, não devemos) concordar quanto a nossos métodos, porque temos objetivos diferentes. Nota-se facilmente que, enquanto Leonardo e eu falamos da construção e da refutação de argumentos, para o que não podemos recorrer a elementos extra-discursivos, o Jampa fala da explicação do fenômeno social, reivindicando, com razão, que aceitemos que esse fenômeno não obedece à lógica formal do discurso argumentativo. Então, constatando isso, eu vou me repetir e voltar ao que eu disse inicialmente sobre a necessidade de reconhecermos a pluralidade semântica, sem querermos reduzir um domínio discursivo a outro. Quero dizer com isso que um sociólogo pode perfeitamente procurar explicar como um determinado conceito de liberdade, ou outro qualquer, foi apropriado e utilizado desta ou daquela forma em uma dada conjuntura social. O que ele não pode fazer é invadir a seara do filósofo pretendendo discutir a validade de teorias a partir da análise da inserção social de seus proponentes. Quando isso acontece, surgem bobagens do tipo dessa epistemologia feminista que o Leonardo citou.

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