Quanto do mar, quanto da terra…(Resposta à tréplica de Luce Pereira, do Diário de Pernambuco)

Pierre Bourdieu e Noam Chomsky são dois intelectuais que sempre alertaram para os limites de tentar defender ideias no formato da mídia tradicional. Em várias ocasiões sacrificaram em nome de causas que julgavam justas um exercício que lhes era caro, o da explicação precisa e nuançada, para tentar oferecer na mídia tradicional leituras sobre suas próprias limitações (as ilusões necessárias), mostrando como um formato em aparência democrático, esconde “as lógicas e dinâmicas do controle do pensamento numa sociedade democrática.” Não vou aqui sacrificar um gênero jornalístico, seu formato protocolado e justificado pelo tempo, em nome da forma e expressão que me é cara, a acadêmica. Explicito somente as razões que me fazem não fazer um segundo pedido de resposta no jornal.

Reli com atenção a nota que me impulsionou a pedir réplica. Reproduzo-a abaixo destacando os elementos que foram objeto de minha reposta:

Foi muito estranho ver o filho do ex-prefeito João Paulo, Jampa, entre os manifestantes mais exaltados no bloco que foi à prefeitura, ontem, para tentar obstruir, com excessivo barulho, a votação do projeto criado por um consórcio de construtoras para requalificar a área do Cais José Estelita até o Bairro de São José. Estranho porque a essência da proposta que vem causando tanto rebuliço nada mais é do que a linha-mestra do Projeto Turístico Cultural Recife-Olinda, uma ideia gestada e abortada nos dois mandatos do petista. Grosso modo, foram pelo menos R$ 5,5 milhões jogados no ralo. Não avançou porque no meio do caminho, na área mais privilegiada pelas intervenções urbanas, estava o Porto do Recife. O prefeito não conseguiu que a gestão do empreendimento passasse do estado ao município e o barco fez água. A semelhança entre os dois projetos, o de João Paulo e o de Eduardo Campos, é tão grande que no primeiro estava prevista, inclusive, a derrubada do Forte das Cinco Pontas, uma antiga aspiração do Iphan. Daí porque a atuação fervorosa do filho do ex-prefeito contra as novas propostas destoa tanto. Os manifestantes viram, enfim, a votação adiada, o que significa um pouco de oxigênio para os próximos embates, mas não garantia de vitória. Não há dúvida nenhuma de que intervenções capazes de transformar profundamente a paisagem urbana precisam ser discutidas à exaustão, até haver garantias de respeito às questões ambientais e de melhoria da qualidade de vida. Mas é certo que uma cidade não pode deixar de caminhar em direção ao futuro. É inevitável.”

É só observar o que destaco no texto dela para entender as razões do meu pedido de resposta : existem duas premissas que considero equivocadas. A primeira delas foi a que tomava a opinião do filho pelas posturas do pai, como se não existisse nenhuma possibilidade real de autonomia na visão política e de mundo entre os dois.  E a segunda, também explicitada pelo meu negrito, a ideia de que ” a essência da proposta que vem causando tanto rebuliço nada mais é do que a linha-mestra do Projeto Turístico Cultural Recife-Olinda.”  A primeira premissa estando equivocada, seria o suficiente para que a segunda, que foi tônica da nota original, perdesse também o sentido. Mas era preciso informar sobre a falácia da semelhança entre os dois projetos, já que é uma ideia que vem sendo muito utilizada para desqualificar o grupo do qual faço parte. Daí minha resposta, que foi publicada integralmente, da qual também destaco em negrito os pontos essenciais:

Respondo essa nota antes de tudo como militante do grupo Direitos Urbanos. Não há nada errado ou “estranho” em ir para as ruas, em se manifestar politicamente (1). Considero-me, para além do fato de ser filiado ao PT, e filho de João Paulo, um cidadão do Recife. E que isso pareça uma contradição, sobretudo numa cultura política coronelista, na qual dos filhos de políticos só se espera genuflexa servidão, é o que não me causa espanto.
Afirmo que é normal e mesmo salutar que o filho de um ex-prefeito (um dos participantes mais antigos do grupos Direitos Urbanos), faça parte de um movimento que critica um projeto que, do ponto de vista do planejamento urbano, esse que me interessa, não guarda quase nenhuma semelhança com o que o Projeto Recife-Olinda propunha para a área do Cais José Estelita. Para ficar com um exemplo que me é caro: os prédios não tinham muralhas, não se apresentavam como feudos isolados do resto cidade, e propunham no térreo lojas e serviços, delineando-se como proposta de integração real com a cidade, e não de separação, como no projeto Novo Recife(3).
Caso tivesse me consultado, a jornalista ouviria esta explicação. Poderia ainda tê-la confirmado na discussão pública que vem ocorrendo na internet sobre o assunto, de onde destaco os comentários de Amélia Reynaldo (3), coordenadora do Projeto Recife-Olinda, à época do primeiro #ocupeestelita e o texto de Alexandre Bahia (4) que desmonta ponto a ponto a tentativa da prefeitura de aproximar retoricamente os dois projetos em um relatório no último mês. Contradição é confundir empreendimento imobiliário com projeto urbanístico. E aceitar como “naturais” e “inevitáveis” as posturas que vêm sendo tomadas pela prefeitura em comunhão com o setor privado, isso sim, é muito estranho.”

Houve tréplica da jornalista :

“E publico aqui texto que julgo pertinente, por ter-me sentido alvo de julgamento equivocado. Eis:
Começo esclarecendo que meu sobrenome é Pereira, não Ferreira. Depois, seguem-se alguns pontos: a coluna, que sempre esteve ao lado dos verdadeiros interesses do Recife, é capaz. por si só de funcionar como peça de defesa contra insinuações de que posso estar confundindo empreendimento imobiliário com urbanístico. Se fosse, assim, mais de 30 mil leitores não se dariam ao trabalho de lê-la diariamente e de sempre recorrer a ela, quando há desejo palpitante de melhorar a cidade e a vida dos seus moradores. O que mais me incomodou na resposta, no entanto, foi classificar de “muito estranho”, no final do texto,o que seria uma posição minha de defesa do projeto tal como está. Na verdade, quis apenas sugerir, como se deve fazer em em relação a qualquer proposta que vá provocar mudança profunda na paisagem, ajustes que possam atender as partes em conflito. Jamais me coloquei a favor da construção de torres, tendo a lembrar, aliás, que fui radicalmente contra as duas da Moura Dubeux, também erguidas em área até hoje questionada pelo MPF e no governo de João Paulo. Sendo a memória muita curta, lembro que conheci muito de perto os passos do Projeto Turístico Cultural Recife-Olinda. No qual foram gastos, em vão, R$ 5,5 milhões. Esse eu defendi abertamente, por acreditar que, respeitando a sustentabilidade, poderia ser a primeira porta para o Recife ir abrindo mão do figurino de colônia e assumindo sua vocação para cidade moderna, referência de desenvolvimento no Nordeste. A propósito, comportamento que a arquiteta Amélia Reynaldo pode atestar, depois de ler na coluna reiterado apoio à ideia. Por fim, e porque vale a pena lembrar de novo, sempre que o governo João Paulo deu mostras de se colocar a favor desse desenvolvimento, fui sempre a primeira a ressaltar de forma entusiasmada as ações, o mesmo se aplicando a críticas, que em número se mostraram bem menores. A coluna não se presta a defender ou atacar pessoas e ideologias, mas a ser, acima de tudo, um espaço de defesa do Recife.”

Olhando para parte que me toca da resposta, diria que as premissas que questionei continuaram inválidas e foram apenas repetidas de outra forma. Mas se analiso o conjunto da coluna,  posso avaliar que pelos títulos e conteúdo, houve um esforço de contemporização. Nos títulos “Nem tanto ao mar” ( atribuído pelo jornal à minha resposta) e “Nem tanto à terra” (que encabeçou o texto com o qual ela responde minha nota)  há uma tentativa de equilíbrio conciliatório,  principalmente na medida em que a jornalista lembra, com verdade, que a coluna tem um histórico de defender pontos e pautas em comum com as quais compactuo participando do Direitos Urbanos. Como não comentava a coluna, mas a nota específica, que reproduzi acima,  não creio precisar elaborar uma resposta suplementar a esse respeito.

(1)https://www.facebook.com/events/130316523788432/?fref=ts
(2)https://direitosurbanos.wordpress.com/2012/11/23/prefeitura-tenta-aprovar-projeto-novo-recife-no-final-do-mandato/
(3)http://raquelrolnik.wordpress.com/2012/03/19/grupos-se-mobilizam-no-recife-contra-projeto-imobiliario-no-cais-jose-estelita/#comment-3641
(4)http://1arq.wordpress.com/2012/11/25/fim-de-uma-era-breve-comentarios-sobre-um-parecer-tecnico/

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