Breve elogio ao Direitos Urbanos ou…

Carta aberta de feliz natal e agradecimento aos membros conhecidos e desconhecidos do D.U

 

Arte realizada nos muros do Cais José Estelita durante o segundo Ocupe Estelita.

Arte realizada nos muros do Cais José Estelita durante o segundo Ocupe Estelita.

Impressiona-me muito o como um agrupamento tão heterogeneo e disforme de pessoas consegue, em situações concretas como as diversas que se produziram em torno do caso do projeto Novo Recife, gerar uma sinergia coletiva com força capaz de atormentar o poder aparentemente incalculável do capital imobiliário nos seus desmandos cidade a dentro. Se minha intenção fosse puramente sociológico-descritiva me perguntaria o seguinte: como é  que, em termos concretos, a dinâmica nociva do processo de urbanização desajustado capitaneado pelas empreiteiras e sem resitência do poder público, contribuiu, paradoxalmente, para produzir as condições de reagrupamento como as que agora existem em torno do Direitos Urbanos? Como é possível que a simples aproximação de pessoas –  técnicos urbanistas, arquitetos, sociólogos, psicológos, gente de formações das mais variadas- em torno de alguns objetivos concretos e espeçificos, passe a, sem repetir modelos tradicionais, articular e emprestar fôlego para rede de grupos da sociedade civil organizada como a Bicicletada, o Cendhec, o SOScorpo,  o Ponto de Cultura da comunidade do Coque, etc., e, através deles, os indivíduos e grupos conduzir o gesto difícil e quase milagroso que produz a atividade coletiva nas ações políticas do Direitos Urbanos?

Nesse texto, pelo seu caráter de depoimento, atenho-me apenas aos elementos que tornaram possível para mim participar da forma que participo do grupo e de suas movimentações.

Já escrevi um texto sobre o impacto do Direitos Urbanos (D.U) em minha vida. Minha reflexão focou algo que julgava até alí o maior legado do grupo. Em minha mente, como pano de fundo, existia o seguinte: o aprendizado produzido dentro da sociabilidade intensa das atividades que circulavam em torno dos debates nas redes sociais, mas também nos encontros concretos que foram acontecendo para a organização dos atos políticos, como são  exemplos, as reuniões preparativas dos Ocupes. As pequenas e significativas mudanças na minha forma de encarar e viver a cidade, as novas formas de conviver com as pessoas através dessas mudanças, tudo isso se constituia e se consolidava, até ali, como o retorno imediato, o próprio alimento cotidiano invisível com o qual se recriava a energia vital essencial e renovadora sem a qual cada atividade seguinte perderia o sentido. Renovado a cada encontro – cheio de alegria, vitalidade, mesmo se muitas vezes descrente e triste com alguns revezes, também sempre me vi comprometido com o esforço crítico nem sempre positivo – a energia social dentro de mim gerou prontamente motivação suficiente para transformar o esforço de entender certos limites, em elemento produtor da superação daqueles condicionantes. Nesse sentido é que o texto ao qual me refiro, mesmo se permeado de dúvidas reflexivas, quando lido de hoje – logo depois da liminar que concedeu uma vitória sem precendentes aos esforços do grupo D.U – pode ser entendido como um verdadeiro elogio dessa sociabilidade criada em torno de uma ideia difusa que surge com a própria forma multifacetada do D.U : querer o Recife um lugar mais ameno, mais agradável de se viver, mais sensível a valores seus já existentes, mais resistente aos seus erros mais corriqueiros, mais reativo às suas injustiças mais latentes, é possível porque de fato uma outra forma de viver o/no Recife já existe, e a própria luta por torná-la uma realidade de todos evidencia, antes do sucesso político dos fatos, essa mesma realidade.

Como essa cidade que já existe aparece para mim dentro do D.U?

Dizer que o D.U é multifacetado é aceitar, no meu modo de ver, as inúmeras e diversas faces dentro dele. E isso no sentido mais real do termo, mesmo quando isso se faz apenas no universo virtual.

 

Cartaz de organização para o primeiro Ocupe Estelita.

Cartaz de organização para o primeiro Ocupe Estelita.

No meu caso, esse aprendizado se deu na convivência intensa e mais concreta com figuras incríveis com quem aprendi muitíssimo nesse último ano. Pessoas como Leonardo Cisneiros, Ana Paula Portela, Cristina Gouvêa, Fabianna Pepeu, Cláudio Tavares, Maíra Coraci, Raíza Cavalcati : pioneiros que lembro assim de cabeça, mas ressaltando também que muitos outros foram  importantíssimos naqueles primeiros momentos, como Beto Normal, que numa mesa de bar no pátio de São Pedro, depois de mais de dez horas de conversa, sugeriu o nome hoje já tão consolidado Direitos Urbanos. Diversos indivíduos, poucos inicialmente conhecidos, mas já tão complexos, que foram aglutinando-se e dando essa forma livre, tensa, mas ao mesmo tempo focada e eficiênte, com a qual o D.U realiza as infinitas possibilidades de convergência de pessoas tão diferentes que, em  nome de e em torno das mais diversas questões ligadas à cidade, se reunem e dão tanto de si.

 

Nomes que multiplicam lugares, instituições, visões de mundo, divergências e convergências. Nomes, pessoas, mais nomes. Mais pessoas. Figuras que você não conhecia e passam, de repente, a ser protagonistas de momentos importantes de sua vida: Tomas Lapa, Belize Câmera, Liane Cirne Lins. Pessoas que você conhece mais ou menos são elevados a personagens centrais de momentos importantes e significativos: Cristiano Borba, Clara Moreira. Nomes, rostos e experiências de vida que se encontram, se expandem, consolidam realizações coletivas, efetivam o significado da democracia.

Quantos nomes mais? Nadja Falcone, Márcia Laranjeira, Noe do Rego Barros, Marcelo Soares, Marcelo Pedroso. Mais pessoas. De longe, mas muito de perto Bernardo Jurema e Cesar Melo. De perto, mas mais desconhecidos de mim: João Lucas, Kleber Medonça, Claudio Assis. Gestos, leitura de cartas, encontros sem falas. Nomes novos e velhos conhecidos. Todos eles por trás de uma reflexão comulativa e contínua, quase sem descanso. Um texto, uma foto, um vídeo, uma ideia agregando ao todo, uma palavra de incentivo. Tudo sem nenhuma barganha, só mesmo um carinho enorme pela cidade, uma tamanha energia,de tão forte gratuidade em tempos tão identificados pela força do dinheiro que tudo compra, que parecem inacretitáveis os pequenos feitos gerados por essa parafernalha disforme chamada Direitos Urbanos. Rostos nunca vistos e mais trabalho invisível e coletivo: Luiz Tagori, Leon Victor, Eduardo Aguiar.  Mais reflexões, mais provocação inteligente, mais apredizado e energia. Nomes que não param, nomes de divergência, de pontos de vista e posicionamento político diferentes: Pierre Lucena, Edilson Silva, Paulo Rubem Santiago. Nomes que aparecem, somem e reaparecem. Amigos.  Muitos nomes de amigos que caracterizam para além dos encontros os reencontros: Érico Andrade, Felipe Melo, Olímpio Gonçalves, Eduardo Amorim, Jarmerson Lima. Nomes de longa data de um combativo grêmio de um colégio no centro da cidade que brigavam sem saber,  já nos anos 90, pelos direitos urbanos, quando lutaram contra a derrubada da escola para construção de uma loja atacadista.

Cartaz do ato na comunidade do Coque.

Cartaz do ato na comunidade do Coque.

Impossível lembrar todos os nomes. Para mim, que fiquei emocionado na última semana ao participar de ato junto com o então desconhecido Sergio Urt, depois de ter conhecido o lider comunitário Rildo Fernandes e todos os lutadores do Coque, o que me parece impossível  esquecer é que por trás da grande fragilidade que une essas pessoas tão diferentes entre si, existe justamente a maior força do D.U: o aprender fazendo, que se  não criou nenhuma estrutura de representação nova, vem mostrando vida e potencialidade democrática, já que, toda legitimidade da fala coletiva vem sendo construída sem depender da formalização de consensos. Ao contrário disso, toda a legitimidade vem sendo contruída  dentro do sentimento difuso de compartilhamento constante e do debate permanente realizado dentro e fora do grupo. Nomes de pessoas que, por isso, não se autorizam a representar o grupo, mas que o representam quando atuam em nome de posturas e ideias cujo o alicerce se funde com o esforço coletivo de continuar o debate. Eis o mistério sem lucro de dinheiro, mas que vem dando dor de cabeça aos que ainda não perceberam de onde vem e para onde vai, para além da força da grana, esse mundo imenso e transformador que temos chamado de Direitos Urbanos-Recife.Termino agradecendo a todos pela oportunidade de convívio e desejando um excelente natal. E que venha 2013!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s