Quando o Coque decidiu falar de si…

 

Venho aqui depois de longa pausa neste blog para dizer algo especial : o bairro do Coque me representa. Os idealizadores do Museu da Beira da Linha do Coque estão de parabéns. Mas mais do que isso, eles estão em sintonia com um movimento importante de nosso tempo dentro da nossa cidade: o da rejeição das estruturas de dominação mais estanques, geralmente ligadas ao perverso legado de nossa escravidão. O silêncio do povo sobre a própria memória talvez seja a marca mais perene e invisível da falta de reconhecimento das pessoas e suas histórias dentro do conjunto mais amplo da vida da cidade do Recife, traço que o nosso passado, maculado pela herança escravocrata nos deixou. Esse projeto de museu itinerante é a negação mais bonita, perfeita e feliz que já vi por essas bandas dessa ausência absurda e desumana do valor da memória de tantos homens e mulheres desta metrópole caótica.

O Museu da Beira da Linha do Coque nega o nosso legado escravocrata quando assume a voz própria das pessoas, para além de si mesma, transformado-a em parte significante de um todo da cidade. Nesse projeto, os moradores se transformam em contadores de história, título honorífico de historiador espontâneo, de referência importante do passado do lugar. O Coque, num gesto de extrema generosidade para consigo mesmo e para com o outro – esse outro que são os outros bairros da cidade- autoriza-se a se recontar, e passar adiante em partilha o seu passado. Passa, assim, a não mais ser apenas o lugar falado e contado pelos outros.

 

Com: Matuto Do Coque, Moisés Do Coque, Severino Bio, Rildo Fernandes, Carlos Bike, Charque, Ricardo Silva, Joaquim e Reneudo Guedes,

Com: Matuto Do Coque, Moisés Do Coque, Severino Bio, Rildo Fernandes, Carlos Bike, Charque, Ricardo Silva, Joaquim e Reneudo Guedes,

A consequência estética e política desse gesto é impressionante: o Coque deixa de ser o que eu pensava dele quando, de longe, imaginava a sua miséria e as tantas consequências dela na vida das pessoas. Agora, como consequência da ativação da voz que se reconta, o Coque fala para mim,  dizendo-me quem é. Isso me obriga a sair do meu lugar de classe média habitual. Produz-se em mim o embaraço salutar que pode ser descrito assim: ao expor publicamente esse saber-se a si mesmo até aqui silenciado, o Coque me impele a modificar os meus conceitos e preconceitos. Sim, porque para lidar com a altivez da fala que se reconta a partir de si, preciso reconhecer meus defeitos, pois, não faria parte desse calar produtor de tal silêncio a minha cegueira? Não estaria minha retina medrosa e saturada pelo fosso social, educada a “naturalmente”  não ver nem perceber as qualidades tão importantes em vizinhança tão especial? Vendo-os para além dos esteriótipos me reconheço em plena limitação.

Não que a palavra própria e autoral elimine as dificuldades das condições precárias de existência outrora e ainda hoje vividas e ampliadas pela repetição exaustiva de uma narrativa vitimizante. Tanto o discurso oficial das autoridades, quanto o aparato redutor e repetitivo da mídia, sobretudo a sensacionalista, não desaparecem como mágica. Mas o exercício político de se dizer, para além e apesar desses condicionamentos e limitações, transformam a voz antes passiva em um real lugar de disputa política. E o Coque pode assim nos ensinar: sobre mim, sobre meu passado, falo eu.

 

É nesse sentido de ato de transformação política pelo exercício de apropriação do recontar-se  que percebo o extraordinário impacto da Exposição do Museu da Beira da Linha do Coque, que será inaugurada amanhã (16/04/2014), na Fundaj.

É com muita alegria que percebo esse significado profundo nas pessoas engajadas na empreitada. Vejo exatamente esse ganho político sensibilizar alguém como Moisés – um dos moradores do bairro e responsáveis pelo projeto. Na voz dele, na de Rildo, Matuto, Ricardo e tantos outros, melhor que essa minha que media, que tentar mediar, ouvimos o eco desse ato deliberado de historizar-se:

É de emocionar ver uma matéria dessa em um jornal, a nossa comunidade do Coque só saia quando era uma morte ou uma prisão de algum bandido, hoje com a ajuda dos amigos estamos vivendo um novo tempo.

 

Contar-se para o outro é um ato de entrega e coragem que, na história de antes, não tinha espaço, não tinha lugar. “Hoje… [nos diz Moisés], estamos vivendo um novo tempo”, um tempo o qual podemos falar do Coque de outro jeito. E esse outro jeito, jeito bonito, que completa e nega o outro sem o eliminar, é o cerne de uma atitude política que dá lugar ao Museu.

 

Foto do Evento no Mural da Fundaj

Foto do Evento no Mural da Fundaj

 

Dizer quem somos, de onde vinhemos e como chegamos até aqui. Sabe aquilo que ninguém conta desse jeito? Sabe aquilo que porque somos nós que contamos à nossa maneira não seria levado em conta? Sabe o que acontece quando ousamos contar, recontar, relatar, tudo isso desse jeito nosso e não daquele jeito contado por eles? Eis que à imensa cidade invisível dentro da Recife aparece uma outra, que em parte desmente e complexifica as narrativas oficiais da história e dos jornais da cidade, transformando o Coque, finalmente, em algo que ele é e não se dava conta. Ou melhor, que ele é e não se dava a recontar: parte importante da cidade como um todo.

Finalizo esse texto voltando à história deste blog. Nele, como apresentação, escrevi o seguinte:

Nasci em Recife onde fui criado em um dos muitos subúrbios da cidade.  Hoje, como sociólogo, sei que a história de meu lugar de origem ainda não foi contada… A minha, que é um prolongamento trânsfuga da do bairro, conta-se aqui.

Nesse espaço a minha vontade era transformar o esquecido em lembrança.  Queria ver se conseguia narrar minha trajetória individual para que a partilha pudesse trazer ao mundo alguma coisa maior que a parte isolada que se recontava. Passei quatro anos de minha vida estudando a trajetória de um escritor que fez um enorme esforço para mediar pela escrita a voz silenciada de miseráveis. Discurso indireto livre, empatia, e uma imagem bela e triste da alma embrutecida do sertanejo nordestino. Fabiano, Sinhá Vitória, a cadela Baleia. Um dos melhores momentos de nossa literatura, Vidas Secas, é ainda a mediação da voz do outro. O romance é um jeito de contar a história dos silenciados por um observador próximo, sem dúvida.  Mas não é ainda a voz real daquele que teve, também pelo silêncio, parte de sua humanidade negada.

Já não é mais o caso aqui. O Museu é um passo para além da literatura. A minha Ur-6 está finalmente representada: o Coque e sua memória são agora o Recife inteiro. O museu pouco a pouco se realiza, – mas o mais incrível é que ele é feito como se já existisse desde sempre, porque já existia. Já estava ali dentro dos moradores e moradoras de cada comunidade- e agora, apenas se atualiza, se efetiva na história, pela mediação narrativa de quem, agora, se autoriza a falar de si.

O projeto de museu itinerante chamado Museu da beira da linha do Coque é umas das iniciativas mais instigantes e emocionantes que tive acesso nesses últimos anos. Falo, claro, de uma impressão pessoal e íntima: a de quem, nascido e criado em bairro pobre, gostaria de ver a história de seu lugar de origem contada por quem lhe é de direito. Não há aqui, quero crer, nenhuma tendência populista ou miserabilista: não julgo se a pobreza carrega belezas intrínsecas, ou mazelas que a tornaria especial, nem para bem nem para mal. Penso apenas na lindeza política de ver vozes nunca ouvidas, nunca faladas, em pleno exercício de se autorizarem a fazer algo tão importante para a liberdade dos seres humanos: dizer-se.

O que mais me fascina nesse projeto é  principalmente a ideia de história cravada no presente, dentro das pessoas, que se expressa concretamente na presença dos contadores de histórias do Coque. É linda. Você encontra nela uma historiografia que se conta pela voz e pela imagem. Você percebe, através dela, da historiografia, uma comunhão pouco vista de verdades existentes saindo de dentro dos indivíduos e, pelo simples fato de sair, tornarem-se um ato político.

As personagens desse museu, marcados e marcantes, são homens e mulheres reais que, vistos assim, são o melhor contraponto real à negação do valor humano que a história oficial insiste em negar. Hoje me sinto do Coque e o Coque é o mundo. Obrigado Museu da Beira da Linha do Coque. Obrigado.

3 pensamentos sobre “Quando o Coque decidiu falar de si…

  1. Pingback: Quando o Coque decidiu falar de si… : : Jampa | Museu da Beira da Linha do Coque

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s