Notas sobre um olhar sociológico a respeito do ato de votar em Pernambuco…

O primeiro turno passou. Meu único pitaco de imprecisão analítica – que falava mais da interpretação das pesquisas do que da metodologia (que foi o que o comentário do blogueiro do JC tentou insinuar sobre o que eu disse)- mostrou-se, é verdade, bem equivocado. (Ver o comentário impreciso do blogueiro do JC: aqui). Talvez por birra, não mudaria uma linha diante de tal erro, não quanto aos critérios de credibilidade de um comentarista ao analisar tais dados. O fato é que o movimento das urnas revelou que Adriano Oliveira estava mais do que certo. O problema talvez seja mesmo esse: o que significa estar certo quanto aos resultados dessa eleição? O que significa a vitória das ruas todas amarelas e essa glória eleitoral do grupo eduardista? Como dizia um antigo professor meu, o grande mistério das ciências sociais talvez esteja sempre mesmo nessa pergunta limite que é a um só tempo política e imprecisa, qualquer que seja o rigor de cientificidade por trás dela: o que dizem os dados e o que podemos dizer do que eles estão dizendo?

Podem dizer de mim: – Jampa é um recalcado. É discurso de quem perdeu as eleições.

Eu me defenderia em coerência dizendo: faz tempo, desde o longínquo início de 2011, que critico publicamente esse disfarce modernoso da retórica política do grupo protagonizado naquele momento pelo então governador Eduardo Campos.

Faz pena constatar que hoje, o Daniel Coelho a quem fiz elogio defendendo-o do jeitinho eduardista de fazer política, faz coro e campanha ao lado da “nova política”. Não compactuo nem vou compactuar com os que acreditam que política não é lugar para nenhum tipo de redenção pedagógica. Posição política não deveria ter preço de barganha eleitoral.

Não faço análise partidária aqui porque faz tempo tendo a não me alinhar com o compromisso governista com pautas que não são as minhas, e não esqueço disso, nem mesmo agora em momentos de polarização eleitoral, como esse do segundo turno das presidenciais. Vou votar em Dilma, vou fazer campanha para ela, mas sem nenhum ufanismo besta, sem nenhum fingimento: não farei como aqueles que agora precisam fazer de conta que não viram as derivas direitistas desse governo (nas questões de direitos humanos, por exemplo), ou fazer revisionismo precoce dos muitos senões de conduta autoritária quando não autista do governo Dilma (mórbidos tempos de uma Ana Buarque de Holanda à frente do ministério da cultura, se bem me lembro).  Mas retenho toda essa ênfase autocrítica e sigo minha vontade de inquirir sobre sensação minha, parcial, que interpela meu juízo sem parar: o pior ainda está por vir!

Naquele domingo do dia 05/10/2014 saí para votar com essa impressão de que a sombra do eduardismo, com toda mazela que ela representa nos termos das práticas políticas que confirmam um jeito de entender e estar no mundo de uma parcela privilegiada da população (o das elites pernambucanas), estava se firmando, com aquele processo eleitoral, como a maneira de fazer política aceita e conforme o jeito de ver e pensar o mundo da maioria da população de Pernambuco. O que chamo da sombra do eduardismo é esse algo contra o que o PT surgiu, mas para o que se curvou para se firmar como protagonista político, acatando tais práticas como fator pragmático de seu modus operandi :  a força do personalismo, das práticas clietenlistas, das trocas de favores, da compra de votos (disfarçadas ou explícitas). Toda essa gama de práticas hoje está inscrita no perfil dos agora eleitos nossos “representantes” políticos, pessoas a quem delegamos através do voto o poder para falar e fazer em nosso nome, mas que se figuram na verdade na real representação de interesses de grupos específicos (não difusos) que são mais ou menos identificáveis (os grupos) nas planilhas de prestação de contas das campanhas eleitorais de cada candidato. Que visão de sociedade e de democracia temos diante desse quadro de coisas? Que visão de política e de democracia? Quanto custa um voto e quanto custa à democracia esse jeito de votar? Conta que ainda precisa ser feita por nossa sociedade brasileira de forma mais geral, e que está longe de tocar numa reflexão mais rente sobre o limite da democracia representativa mesma, que sempre foi um misto, nos países que alcançaram fortes estágios de organização institucional, de arranjos mais ou menos mediados da delegação pelo voto e outras formas de participação coletiva das tomadas de decisão do poder.

É por não saber ao certo o que  significa o voto construído e expresso nesse jeito de produzir vitórias eleitorais o qual conhecemos, que não me arrogaria nunca em desmerecer nem o voto nem a inteligência das pessoas. Existe razões no juízo dos que venderam seus votos, como também no dos que compraram. Quem seria eu, do lugar dos meus interesses específicos, para julgar tais razões? No campo político o jogo  do poder foi jogado nas eleições, e os agentes envolvidos sabem que o jogo foi jogado por quem ganhou e perdeu, todos aceitando as regras tácitas desse jogo que julgo sujo. Ouso apenas dizer que, do ponto de vista do coletivo (se é que existe algum), ponto de vista impalpável, usado geralmente na retórica política na imprecisa e operacional nomenclatura de povo,  quase nunca é [a]creditado nas próprias regras do jogo, fazendo com que todos perdamos muito num sistema como esse, no qual práticas tão horrendas são tratadas com a naturalidade da banalidade irrefutável do “é a realidade, é assim que as coisas funcionam”.

Parece-me que o grande custo político dessa lógica, para além de uma descrença amorfa na chamada classe política, é o exercício do poder sem recurso às formas mais expressivas e talvez salutares de legitimidade política. Seria esse o momento propício para discutirmos os termos ideológicos por trás da democracia tal como a conhecemos dos anos 80 pra cá aqui no Brasil? Difícil entrar num tema tabu num momento de tão forte apelos reacionários, conservadores e de desânimo democrático…

Fico pensando no seguinte: se descrevemos uma cena real e aparentemente banal, apesar de isolada, temos alguma chance de entender um pouquinho mais o que se subentende em geral de um processo democrático quando um assunto é eleição. Então vejamos.

Numa mesa de um restaurante, por exemplo, passei um bom tempo observando e tentando ouvir dois jovens que discutiam política entre si, as razões pelas intençõees de voto em Aécio ou Dilma. O debate, no geral, girava em torno das denúncias sem fim de um lado contra o outro. Como também alguns pontos a respeito dos projetos políticos dos partidos, PT e PSDB. Eu fiquei me perguntando, bastante interessado em ter uma resposta: em que sentido aquele debate, aquela troca de argumentos – se generalizada para o resto da população brasileira votante ( mesmo se em ficção generalizante,  é certo, já que o restaurante era de classe média alta e poderia informar mais sobre aquele recorte de classe que outros) – seria capaz de produzir ao final da eleição uma sentença do tipo: “os brasileiros escolheram uma ou outro, Dilma ou Aécio”? Em outras palavras, para usar a terminologia da sociologia política, que tipo de alquimia social é necessária para transformar a construção das opiniões individuais em expressão legítima de uma vontade geral?

A pergunta me veio lado a lado com a lembrança de um texto já antigo de Pierre Bourdieu, pouco conhecido aqui no Brasil, no qual a partir de sua reflexão sociológica das práticas, ele faz análise da instituição do voto a partir de uma descrição praxiológica de seu significado ideológico. Seguindo uma distinção finíssima feita por Durkheim entre modo de produção ou de elaboração da opinião e modo de expressão dessa opinião, Bourdieu se dá os meios de, ao explicitar a relação tida como valendo por si mesma entre voto e democracia, demonstrar e, em certo sentido, desmontar, o artificio social que oculta a ligação entre entre essa relação e a filosofia liberal.

 

A visão liberal identifica o ato elementar da democracia tal como a concebemos de ordinário à ação solitária, às vezes silenciosa e secreta, de indivíduos “aproximados somente por essa circunstancia excepcional, que não se conhecem, que não contribuíram para se formar mutuamente suas opiniões”. Esse ato a um só tempo público e secreto é artificialmente instituído pela cabine de voto na qual a cortina é protetora, dissimulando os olhares, então o controle dos outros, a escolha efetuada, criada, com uma urna onde será depositada a cédula escolhida, as condições materiais da expressão invisível, incontrolável, inverificável ( é toda a diferença com o voto de mão levantada) de uma opinião dita pessoal que, por diferentes razões, podemos querer permanecer secreta. Dito de outra forma, ao fazer existir, um dia determinado, a sucessão de indivíduos “que vão uns atrás dos outros desfilar diante da urna”, e ao suspender  “por um momento”, o tempo de uma escolha, de todas as ligações sociais, entre o marido e a mulher, o pai e o filhos, o professor e o aluno, e, ao mesmo tempo, as dependências e as promessas (como verificar, mesmo no seio de um grupo de interconhecimento ou de um corpo, se tal ou qual respeitou seus engajamentos?), ele reduz os grupos a uma série destotalizada de indivíduos cuja opinião não será mais que uma agregação estatística de opiniões individuais individualmente expressas.

(Bourdieu. P. Le mystère du ministère: des vonlontés particulières à la “vonlonté general’. in: Actes de la Recherche en Sciences Sociales. Vol. 140 Dezembro 2001. p 7-11) [tradução minha, o link sobre o nome e número da revista envia para o texto original em pdf.]

 

O interessante nessa sociologia é que ela questiona ao descrever de maneira etnográfica o ato de votar aquilo que ” [n]essa lógica, que é a do voto mas também a do mercado” , faz a opinião “coletiva” ser “um produto não de uma verdadeira ação coletiva”, ou seja, a anállise mostra como o voto – caso não se tenham satisfeitas certas condições de materialização da construção realmente coletiva da opinião individual durante o processo eleitoral, processo que deveria ser capaz de gerar e produzir opiniões individuais construídas de fato no seio de uma coletividade –  seria menos fruto de um trabalho de elaboração em comum da opinião e da escolha nela engendrada, e mais efeito de ” pura agregação estatística de opiniões individuais individualmente produzidas e expressas.”

A lembrança desse texto é  também oportuna na medida em que ela se dá num quadro de quase inexistência de debate qualificado sobre a relação entre o voto que iguala as diferenças entre pessoas de pesos diferentes entre si e imensa desigualdade social instituída em nosso país. O texto de Bourdieu tem um trecho emblemático a esse respeito que, claro, se refere ao contexto francês, mas que poderia ser pensado para dar ensejo a uma reflexão mais detida sobre os nossos contexto e realidade, tamanha a precisão da análise ao descrever o que fica retido do processo formal de obliteração das relações reais de poder que ficam aparentemente suspensas no momento do voto:

Segue que a lógica do voto, que tomamos comumente como paradigmaticamente democrática, é duplamente desfavorável aos dominados: de uma parte, os agentes não possuem todos em mesmo grau os instrumentos, notoriamente o capital cultural, que são necessários para produzir uma opinião dita pessoal,  no duplo sentido de autonomia e de conforme à particularidade dos interesses anexados a uma posição particular ( o que significa que o voto só se transforma no sufrágio universal que ele se pretende quando universalizarmos as condições de acesso ao universal); de outra parte, o modo de produção atomístico e agregativo caro à visão liberal é favorável aos dominantes que, porque as estruturas da ordem social jogam em favor deles,  podem se contentar das estratégias individuais (de produção), agora que os dominados só tem alguma chance de se livrar da alternativa da demissão (através da abstenção) ou da submissão apenas sob a condição de escapar à lógica, para eles profundamente alienante, da escolha individual.

(Bourdieu. P. Le mystère du ministère: des vonlontés particulières à la “vonlonté general’. in: Actes de la Recherche en Sciences Sociales. Vol. 140 Dezembro 2001. p 7-11) [tradução minha, o link envia para o texto original que pode ser baixado em pdf.]

A morte de Eduardo Campos causou a meu ver um reforço amplificado da lógica familista e de  favorecimento de proximidade a qual os pernambucanos se submetem de bom grado,  até aqui. O efeito disso a longo prazo sobre os contornos democráticos e seus desvios específicos em Pernambuco me deixam de orelha em pé. Que possamos pensar nosso voto, então, não apenas pelo olhar liberal e tentemos imaginar nossas práticas políticas para além dos dilemas falsamente morais do ideário atomizado que artificializa os processos de construção da opinião o substituindo por uma agregação meramente estatística das expressões individuais. Deixo, para finalizar,
 três outras perguntas no sentido de pensar a substância efetiva desses problemas no nosso contexto: 1- como interpretar o significado das nossas práticas específicas de voto, essa modernização encarecida dos currais eleitorais (o chamado voto de estrutura)?; 2- qual o alcance de todas as outras maneiras menos reconhecidas(manifestações, passeatas, comícios, assembleias, etc.), mas também legítimas, de construir de forma mais coletiva a opinião para, quem sabe, ao expressá-las em público as nossas instituições possam nos dar ouvidos em outros momentos que não no período eleitoral?; 3- Seriam essas formas alternativas viáveis para efetivar uma democracia mais atenta a interesses difusos como os que encontramos em casos isolados em alguns movimentos e articulações sociais, como o exemplo do Direitos Urbanos em alguns momentos exemplifica?

Para além delas, minha certeza de que o alinhamento do PSB de Pernambuco com Aécio, razão suficiente para meu voto convicto em Dilma, representa a articulação mesma- mais direta e orgânica do que seria com qualquer governo petista, com todas as críticas que podemos e devemos fazer sempre – desse grupo político com as elites mais atrasadas e oligarquicas do estado, e a naturalização mais enfática dessas práticas nocivas ao estado democrático. Não é por acaso que todo grupo antes oposicionista (do Dem dos Mendonça ao PSDB meio sem cabeça depois da morte de Sergio Guerra, passando pelo PMBD de Jarbas…), hoje está no mesmo front, defendendo com unhas e dentes bandeiras nacionais das quais quero distância.

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