Notas sobre a família de Eduardo Campos e a política quando de sua morte

(Texto escrito no 19/08/2014, na minha linha do tempo no facebook, e corrigido para o blog)

Eu tava escrevendo na TL de um amigo que havia criticado a atitude da viúva de Eduardo Campos. Ele fazia isso comparando o gesto político dela de viver o luto na própria política à narrativa de início do famoso romance de Albert Camus, O Estrangeiro, quando o protagonista começa a narração com a vexatória imprecisão de não saber se sua mãe teria morrido naquele dia ou no anterior.”Isso não importa”, dizia a primeira pessoa mais impessoal da literatura, logo no primeiro parágrafo do texto.

Eu, de minha parte, pensando também em literatura, discordaria do teor da crítica, apesar de achar lastimável o uso político da morte e concordar com o que ela descreve da sensação de absurdo do momento. Explico-me. Não sinto nenhuma empatia pela postura da viúva de Eduardo Campos. Mas ao mesmo tempo a atitude propriamente política não me causa nenhuma surpresa. Como, então, juntar as coisas?

Acho que um outro romance ajudaria melhor a fazer uma metáfora aproximativa da situação de absurdo desse momento: São Bernardo, de Graciliano Ramos. Quem conhece o romance sabe que ele conta a história de um outro tipo de tragédia que culmina também em uma morte – o suicídio de Madalena, esposa de Paulo Honório. O protagonista é uma espécie de coronel moderno que é responsável pela atualização das relações de dominação e poder com a chegada do capitalismo no interior do Brasil.

A comparação que faria não seria a mais óbvia entre a personalidade de Eduardo Campos e a de Paulo Honório. Estabeleceria uma entre a atitude de Renata Campos e a de Paulo Honório (os viúvos). Graciliano descreve muito bem como diante da morte de uma pessoal amada, produz-se essa tendência quase que imanente de superinvestimento no esforço de apropriação das qualidades da pessoa que se foi. Paulo Honório, homem bruto e violento, pragmático e dominador, coloca-se assim, na situação de recontar sua própria vida através de um livro, forma de se apropriar das características mais caras a Madalena, professora do interior que via na cultura e na educação a maneira de ajudar os outros. E isso como clara resposta à morte prematura da mulher a quem ele de fato amou. Como não entender que seja um tipo de re-apropriação nesses termos o que impele não só Renata Campos, mas a família, a se empenhar na continuidade das qualidades mais evidentes do ser amado? Eu poderia divagar mais nessa leitura, mas Ana Paula Portella, menina sabida e sensível, sintetizou de maneira incrível essa mesma ideia, e então desisti. Muito bonito perceber como é possível entender que as melhores compreensões não eliminam  razão de ser de nossa perplexidade. razão de ser de nossa perplexidade.professora do interior que via na cultura e na educação a maneira de ajudar os outros. E isso como clara resposta à morte prematura da mulher a quem ele de fato amou. Como não entender que seja um tipo de re-apropriação nesses termos o que impele não só Renata Campos, mas a família, a se empenhar na continuidade das qualidades mais evidentes do ser amado? Eu poderia divagar mais nessa leitura, mas Ana Paula Portella, menina sabida e sensível, sintetizou de maneira incrível essa mesma ideia, e então desisti. Muito bonito perceber como é possível entender que as melhores compreensões não eliminam a razão de ser de nossa perplexidade.

Comentário de Ana Paula Portella sobre o mesmo tema:

Um homem que viveu a sua vida inteira na política, que respirava e pensava política o tempo inteiro, em uma família estruturada pela política em todos os seus níveis – partidário, eleitoral e na gestão pública. Como é que passa pela cabeça de alguém que a sua morte poderia ser tratada longe desse ambiente e fora da lógica política? Pessoalmente, acho que há elementos abomináveis nisso tudo e outros claramente criminosos, ao infringirem a legislação eleitoral. Mas nunca imaginei por um segundo sequer que as homenagens, velório e funeral não seriam ‘politizados’. E, claro, no mau sentido, já que é o modo de fazer política do PSB, que todos conhecemos bem. Isso tudo só pra dizer que não me surpreendo com o espetáculo nem com o envolvimento de toda a família nele. E embora não me agrade, também não consigo condenar, por que não consigo imaginar alternativa, dado o contexto da família, do partido e do momento eleitoral. Mas compreendo bem a decisão da família de Marcelo Lyra ao preferir a cerimônia reservada.

Eu tenho certeza que o que passa pela cabeça e pelo coração da família e dos correlegionários é o seguinte: Eduardo gostaria que fosse exatamente desse jeito e que a sua ida rendesse frutos eleitorais, por que ele acreditava mesmo que era uma alternativa para o país. Tenho certeza de que todos estão com a consciência tranquila e em paz por que fazem aquilo que Eduardo desejava e representava. Agora, nós nos assustamos por que nunca concordamos com essa forma de fazer política, nem na vida nem morte de qualquer um deles.

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