Um smartphone roubado…

Porra, ele roubou meu celular. Merda, que merda! Foi um presente da minha mãe. Tem tudo meu ali dentro: fotos, textos, trabalhos. Acho que deveria correr atrás. Devo gritar? Quem sabe alguém derruba ele da bicicleta. É isso. Vou correr e gritar pega o ladrão!

Vejo depois de pensar tudo isso num intervalo de segundo a bicicleta começar a se afastar. Dou início a minha corrida, o pensamento sempre mais ágil do que minhas pernas finas.

Grito: pega o ladrão! Novamente: pega o ladrão! Continuo correndo. Ainda em meio a ilusão de alguma escuta, percebo: as pessoas olham para mim, percebem a cena, e voltam a fazer o que estavam fazendo antes.  Vendo o rapaz negro se distanciar ao descer a ladeira numa bicicleta velha, comecei a imaginar o que aconteceria se alguém realmente conseguisse pará-lo. O que aconteceria se ele fosse derrubado? As minhas pernas continuavam correndo, eu continuava a gritar, mas me perguntei: o que aconteceria realmente com o moleque da bicicleta que levara meu celular?

Muitas cenas recentes desse já velho FaceBook me vêm à mente. Lembrei da morte do pequeno Eduardo, ainda tão recente e já tão esquecida. Pior: a lembrança era da quantidade de pessoas que vi defendê-lo por “não ser ladrão”, porque “não merecia”, ou, justificar sua morte porque, morando na favela, “talvez fosse, né?” Será que iam pensar que esse rapaz “merecia”?

Memória ingrata e mais rápida que minhas pernas. Trouxe também a lembrança de que há tantas pessoas dispostas ao linchamento, à violência mais primária para a confirmação daquilo que consideram ser efeito de justiça: “bandido bom é bandido morto”.

Quantos exemplos? Quantos mais?

Pensava tudo isso e corria. Continuava a correr. As pernas lentas. A voz já não era mais tão potente:  pega o ladrão! E corria. Gritei mais forte, mas já sem convicção: pega o ladrão! Mas algo na consciência não condizia.

E lembrava a mim mesmo:

ele não merece. É ladrão. Levou algo que era importante para mim, mas não merece.
E já via o moleque se afastar levando meu celular com certo alívio.

Leva essa merda, pensei. Talvez perdê-lo desse jeito seja melhor do que nossa “justiça”.
Na minha falta de preparo físico, senti meu coração em taquicardia. Imaginei-me  vítima (de um roubo de celular) sendo também, para muito além disso, meio para a aniquilação física de meu “algoz”.

Devo estar louco por me sentir aliviado depois de ser roubado. Não queria, lógico, perder meu celular. Mas que mundo é esse, que país é esse, no qual podemos imaginar violência tão atroz como reparação de crimes banais, contra alguém que sei lá por qual razão roubou meu celular. Sim, meu celular… tinha coisas importantes nele. Muitas. Mas nenhuma delas, fiquei bem feliz de lembrar, nenhuma delas me dá vontade de matar. Devo estar louco. Não sei. Mas me senti em paz ao vê-lo já bem distante, sem que ninguém mais o pudesse parar. Vai moleque filho da mãe, leva em paz. Que mundo estranho…

 

 

 

 

 

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