Direitos Urbanos: a dor e delícia dos lugares ocupados

O que chamo de Direitos Urbanos – incluo aí o Ocupe Estelita e o Estelita Brasil, entre diversos outros subgrupos- esse agrupamento suprapartidário de indivíduos, é uma composição instável e fragmentária de pessoas que se articula em torno da questão dos direitos difusos da sociedade. Esse agrupamento não funciona de maneira uniforme e, em sua modulação constitutiva, produz força política que é alavancada em momentos de crises causadas por fatos políticos produzidos pela desfarçatez das transgressões das instâncias administrativas. Ao atuar nos espaços institucionais existentes expondo as práticas incrustadas no poder público, o Direitos Urbanos vai criando condições para que a política se mostre do jeito que ela é. Na indefinição de um lugar para o grupo no tabuleiro institucional posto com que constantemente interage, reside parte de sua força: sem conhecer esse lugar não há como definir interesses e repetir as práticas correntes de barganha que estabilizam o jogo naturalizando a forma distorcida como ele vem sendo jogado em todas as esferas da vida pública.

A contaminação dessa lógica é tanta que fica estabelecido no senso comum que somente de fora do tabuleiro institucional é possível alguma atuação consistente e legítima. Isso é experimentado lindamente e de forma complexa pelo Direitos Urbanos, sempre entendido por mim nessa forma expandida a qual o concebo conjuntamente com o Ocupe Estelita e o Estelita Brasil. E é daí que vem, por um lado, a constante tentativa de enquadrar o grupo no jogo. Pelo outro lado, o que vem é a perversidade da cobrança (inclusive por parte do poder que é enraizado na promiscuidade público privada) por completa desvinculação dos integrantes do grupo de qualquer lugar no tabuleiro, especificamente os lugares partidários. Não é de outro lugar que vem a sutileza da importante diferença de tensão gerada pela participação no grupo de pessoas como Edilson Silva ou Raul Jungmann que são políticos e a participação de pessoas importantes do grupo no mandato de Edilson Silva na Assembléia Legislativa de Pernambuco.

Os lugares que os integrantes da movimentação ocupam no tabuleiro são muitos e muito diversos. São pontos de tensão, fatores que interferem nas dinâmicas internas e externas, mas não da maneira simplista que tem se tentado imputar. Esses lugares não tem como definir uma posição para o grupo pois ele interage com o tabuleiro, mas não funciona como ele. Não por acaso, o grupo se fortalece também por conta de divergências nos agrupamentos específicos que vão se formando dentro do próprio agrupamento maior, sempre mais difuso e amorfo, diante das crises. Nessa dinâmica na qual a diversidade de tipos só cresce, fica muito difícil deteriorar a imagem de integrantes de origens e referenciais tão diversos, e que, na lógica mesma a que se propõe o movimento, expõe, re-expõe e mais uma vez revela a qualidade mesquinha da política tal como vem sendo conduzida.

E esse outro fato importante de que dentro da composição social do movimento, uma parcela significativa de jovens, seja de filhos de quadros importantes do celeiro político-institucional – há filhos de políticos, de juízes, de advogados importantes, de quadros da administração pública, de empresários etc.- aguça sobremaneira as tensões que produzem o principal efeito da criação do movimento que gira em torno dos Direitos Urbanos: a exposição das nefastas dinâmicas de poder que tentam dissimular quais são efetivamente os diversos tipos lícitos e ilícitos de práticas de promiscuidade nos processos decisórios entre governantes eleitos e membros de setores privados específicos. Dinâmicas essas que tentam ser apagadas através da naturalização do que há de pior no uso do poder público. Foi assim em vários momentos: do afastamento da promotora Belize Câmara à queda das liminares, do alvará irregular de demolição à votação esdrúxula da lei (18.138/2015) na Câmara Municipal do Recife. Algo intensificado em período recente, nessa gestão que, forçada a reagir aos estímulos que a crítica do movimento produz, expõe de maneira aguda a promiscuidade que antes era apenas escondida. O que agora termina tendo de ser ainda mais escancarado o teor dessa promiscuidade, uma vez que precisou ser defendida de maneira mais aberta, por isso a violenta reação, mentirosa e vil, contra o movimento. O poder municipal se vê obrigado não só a defender os interesses dos empreiteiros no caso do Novo Recife. Isso eles vinham fazendo sempre. O que salta aos nossos olhos é que eles passam a defender de maneira aberta as condições para que as forças continuem atuando do mesmo jeito, já que essas condições são abaladas pelos questionamentos do movimento à forma como a prefeitura incorpora-se à atuação da iniciativa privada no caso específico do Novo Recife. Isso faz com que, a partir dessa exposição contrastante entre o discurso oficial e a realidade dos fatos, tal postura também se torne vergonhosa para esses políticos e seus bajuladores.

Há, porém, um outro fator de mesma ordem geracional que tem produzido bastante embaraço e confusão: o constrangimento dos pais, e não são poucos, inclusive de gente de dentro do PSB, do PT, do PCdoB, aliás, de praticamente todos os partidos da base aliada, ao verem seus filhos e filhas participarem do movimento. Constrangimento que a meu entender faz parte da mesma dinâmica desveladora que vem expondo de maneira quase didática o que em tese todos dizem já saber. O efeito de incomodo que produzimos com o surgimento do Direitos Urbanos corresponde a seguinte situação: se antes todos já sabíamos e fingíamos por diversas razões não saber – refiro-me às dinâmicas por trás das práticas de poder-  com o aparecimento do movimento, esse conhecimento que era sempre implícito, tornou-se incapaz de esconder-se de si mesmo. Não sei se o incomodo gerado pelo constrangimento do efeito de verdade que essa situação causa vai mudar de maneira concreta o jeito de se fazer as coisas na política de Recife. Mas não tenho dúvidas que isso tem mudado o jeito de fazer política das pessoas que fazem parte do movimento.

E aos que imaginam ver em minha opinião sobre a nota do PT, algum tipo de desrespeito ou desacato à figura paterna, saibam que aprendi com meu pai, João Paulo, que opiniões e posicionamentos são o alicerce da boa política, justamente quando são forjados na análise fina do conteúdo político das coisas. Só um grupo com a vocação republicana e democrática como o Direitos Urbanos, tal como eu o entendo, torna possível que uma diferença de leitura política como essa entre eu e meu pai sobre questões ligadas ao desenvolvimento urbano, transforme-se em medida ainda mais reveladora da qualidade horrenda dos políticos que estamos enfrentando. E digo isso de fato com a tranquilidade de nunca ter visto João Paulo defender o projeto Novo Recife, e de desconhecer qualquer  ato provindo dele em favor especificamente desse empreendimento. E digo sem medo algum, que independente de ser filho dele, sou capaz de fazer as críticas que julgo dignas e necessárias, e ao mesmo tempo reconhecer avanços que a gestão infinitamente mais democrática dele (comparada as subsequentes) proporcionou para o surgimento de uma discussão mais sistemática com fóruns e espaços como os conselhos que aparecem como instancias as quais recorremos agora, no furor das disputas nas quais estamos inseridos.

E mais. É do respeito e da admiração que sinto e nutro por ele, que não me imagino em atitude crítica como essa estar desalinhado com o que aprendi.  O que de fato imagino é que, se fosse filho de alguém que quando prefeito, como agora é Geraldo Júlio, fosse capaz de usar a propaganda da própria prefeitura para enfrentar um movimento social acusando-o de vandalismo (como fez o atual prefeito), de reagir de maneira tão apolítica, se negando ao diálogo, diante do enfrentamento feito de modo franco e honesto, eu não poderia nem teria condições de dizer o que disse da mesma forma que o fiz a respeito da nota do PT. A minha opinião crítica que difere de outras posturas que visam destruir o partido, porque é uma leitura política que, até onde consigo perceber, me coloca numa postura crítica construtiva, diante de um estado de coisas desolador dentro do partido.

E aos petistas que apoiam o movimento e têm alguma dúvida se esse apoio pode ser posição do partido, que se entenda que, do ponto de vista propriamente político, o partido pode e deve apoiar a causa do Estelita. Mas diante da história recente e das cobranças instauradas, não vai conseguir fazê-lo de qualquer maneira, porque existem condições a serem criadas para isso. A mínima dessas condições, é o reconhecimento da parcela de responsabilidade que lhe cabe no processo que desencadeou o que agora ocorre. Sem isso, nenhum valor político pode ser aferido de um posicionamento de apoio, por maior que seja a simpatia de muitos dos filiados ao movimento.

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Um pensamento sobre “Direitos Urbanos: a dor e delícia dos lugares ocupados

  1. Parabéns pela clareza nas idéias e opiniões .No governo de seu pai os avanços na área da saúde e a consolidação da participação popular na prefeitura por exemplo são incontestáveis e um divisor de águas na cidade . Não há como negar .A beleza do nosso movimento é esse lindíssimo mosaico de pessoas diferentes unidas por um objetivo coletivo : retomar as rédeas dos destinos do Recife e defender a cidade dos que teimam em violentá – la diuturnamente .

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